Alerta de estiagem mobiliza setores produtivos paraenses, mas impacto ainda não chega ao consumidor
Risco de baixa dos rios leva indústria e setor elétrico a adotar medidas preventivas, enquanto agropecuária e varejo mantêm produção e preços estáveis
A ameaça de uma estiagem severa já mobiliza setores estratégicos do Pará, mas ainda não chegou ao campo nem às prateleiras. Enquanto a Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) defende medidas de emergência diante do risco de redução dos níveis dos rios e interrupção da navegação no Tapajós, setores como o agropecuário e o varejo afirmam que, por enquanto, a produção, o abastecimento e os preços seguem estáveis.
A preocupação com os recursos hídricos já provocou medidas preventivas no setor elétrico. A Norte Energia, responsável pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte, iniciou no último domingo (16) a redução da vazão dos reservatórios. A operação atende a ofício do Ministério de Minas e Energia e estava prevista na Agenda Estratégica Eletroenergética 2026. O contingenciamento deve ser mantido até 30 de novembro.
O alerta da indústria paraense foi formalizado no fim do mês passado, quando a Fiepa enviou ofício à governadora Hana Ghassan solicitando a decretação de situação de emergência em todo o Estado. A entidade aponta o risco de estiagem extrema e de interrupção da navegação no Rio Tapajós.
Segundo o presidente da Fiepa, Alex Carvalho, o reconhecimento formal da situação permitiria ao Estado organizar uma atuação preventiva e priorizar medidas voltadas à proteção da população, do abastecimento e da infraestrutura. “A medida permitirá que o Estado reconheça formalmente a gravidade do cenário, organize sua atuação preventiva e atribua prioridade às providências necessárias à proteção da população, do abastecimento e da infraestrutura”, afirma Carvalho.
O cenário também é acompanhado diante da possibilidade de suspensão da dragagem emergencial do Tapajós. No mês passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou a interrupção do processo após encontro com lideranças indígenas. Para a indústria, a redução da navegabilidade pode atingir áreas como saúde, mobilidade, prevenção de incêndios, logística e arrecadação. “Entre elas, a preservação da navegabilidade do Rio Tapajós”, afirma o presidente da Fiepa, Alex Carvalho, ao citar as providências que considera necessárias diante do cenário.
Safra
Apesar dos alertas, os efeitos da estiagem ainda não são percebidos de forma generalizada na economia paraense.
No setor agropecuário, o El Niño ainda não provocou redução de produtividade nas propriedades do Estado. Os produtores vêm de um período de precipitações favoráveis, com resultados positivos principalmente na pecuária e na piscicultura.
“No momento, conforme nos indicou o climatologista Luiz Molion, da USP e Wisconsin, o El Niño não está afetando nossa produção. Pelo contrário, tivemos um dos melhores invernos marajoaras, que nos proporcionou recordes em índices de nascimento nos bovinos, bubalinos e na piscicultura”, afirma o zootecnista Guilherme Minssen, diretor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa).
A atenção, segundo ele, está voltada principalmente para as culturas de ciclo curto, que apresentam maior vulnerabilidade às oscilações climáticas. A preocupação também envolve a infraestrutura necessária para o escoamento da produção.
“A nossa logística é rudimentar, e as estradas no inverno paraense são os maiores entraves. Junte-se a isso a necessidade de ampliar as rodovias e melhorar a chegada aos portos”, avalia Minssen.
O setor agropecuário promoveu, no início de junho, painéis com participação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para acompanhar as condições climáticas.
“Os produtores rurais precisam de dados climáticos bem mais criteriosos que a população urbana. Isso também ficou evidente em situações de emergência: enquanto a população da cidade se fechava e assistia atônita a pandemias como a da Covid-19, o pessoal do campo continuou trabalhando, mantendo o necessário abastecimento”, reforça Minssen.
Prateleiras
No comércio, a situação também permanece estável. A Associação Paraense de Supermercados (Aspas) afirma que ainda não houve alteração nas rotas de distribuição nem pressão sobre os custos provocada pela condição hídrica dos rios amazônicos.
“Até agora, não tivemos nenhuma mudança. Ainda não foi possível perceber efeitos da redução do nível dos rios”, afirma Jorge Portugal, presidente da Aspas.
Segundo ele, a dependência do transporte fluvial para o abastecimento dos supermercados da capital é limitada, o que reduz a exposição do varejo paraense aos efeitos imediatos da redução do nível dos rios.
“O abastecimento dos supermercados é feito principalmente por via rodoviária. A cabotagem ainda é muito pequena, e os produtos vêm, em sua maioria, das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste”, detalha.
Portugal lembra que eventos climáticos podem afetar produtos específicos quando atingem regiões produtoras. Foi o caso das enchentes no Rio Grande do Sul, que pressionaram os preços do arroz, e das chuvas intensas em Minas Gerais, que impactaram o café.
No caso da bacia amazônica, porém, ainda não há reflexos significativos para os supermercados associados à entidade.
“Não tem muito o que nos afetar. Por enquanto, não temos nem previsão”, conclui.
Ceasa
Até o momento, não houve alteração na chegada de produtos hortifrutigranjeiros ao entreposto, conforme detalha o diretor técnico das Centrais de Abastecimento do Pará (Ceasa), Denivaldo Pinheiro. O abastecimento da Grande Belém e da Região Metropolitana segue normalmente. Segundo ele, as hortaliças não apresentam impactos relacionados à estiagem.
“As culturas mais afetadas são soja, milho, café, cana-de-açúcar e cereais, como arroz e feijão. Entre os hortifrútis que podem ser mais afetados estão produtos que não são produzidos no Pará, como repolho, brócolis, couve-flor, tomate, pimentão, abóbora, batata, cenoura e beterraba”, detalha.
Também de acordo com o diretor da Ceasa, os comerciantes não enfrentam, até o momento, dificuldades para receber mercadorias de outras regiões. Segundo ele, também não há previsão de desabastecimento de produtos hortifrutigranjeiros.
“Sobre os preços, ainda não é possível prever os impactos nas próximas semanas. Eventuais aumentos dependerão das condições climáticas nos próximos meses. Caso a estiagem afete a produção de hortaliças, poderá haver redução na oferta e aumento dos preços ao consumidor”, observa Denivaldo.
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