Cris Vidal: Conheça a trajetória do paraense que já clicou Anitta, Viola Davis e Alicia Keys
Natural de Bonito, ele falou sobre a carreira construída entre o Brasil, Europa e os Estados Unidos, e explicou como a Amazônia segue presente em cada projeto
O artista visual Cris Vidal costuma dizer que muitas pessoas conhecem primeiro o lugar de onde ele veio para só depois conhecerem quem ele é. Natural de Bonito, no nordeste do Pará, ele transformou a Amazônia na principal referência de uma carreira construída ao longo de 15 anos. O caminho o levou às semanas de moda de Paris, Milão e Nova York, aos festivais de Cannes e Veneza e a projetos com artistas como Taís Araújo, Liniker, Anitta, Alicia Keys, Bella Thorne e Viola Davis.
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Mais recentemente, atuou na direção criativa de campanhas durante a Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, acompanhando o jogador Raphinha.
Após o fim do Mundial, ele aproveitou para desacelerar a rotina e passar uma temporada no Pará, dividindo os dias entre Belém e o interior do estado durante o mês de julho. Foi nesse período que conversou com exclusividade com o Grupo Liberal sobre a trajetória construída entre a Amazônia e alguns dos principais centros da moda mundial, as lembranças da infância e a relação que mantém com as próprias origens.
"Existe o Cris Vidal e existe o Cristiano. O Cris Vidal é o profissional. O Cristiano é esse menino do Pará. Um jamais existiria sem o outro. Toda vez que volto, tenho vontade de ficar. Desde a primeira vez que saí daqui, sempre saí querendo voltar", afirma.
Das brincadeiras no quintal à fotografia
Estar no Pará também significa revisitar o início de uma história que começou ainda na infância. Antes dos trabalhos com artistas nacionais e internacionais, a fotografia surgiu por influência da madrinha, que produzia fotografias 3x4 em Bonito.
"Eu nunca tive referência de fotografia de moda. Em Bonito, nem sabia que existia esse universo. Eu e meu irmão íamos para o quintal de casa, um era fotógrafo, o outro queria ser modelo. A gente se montava e passava horas fotografando. Aquela brincadeira despertava uma curiosidade que ia muito além da nossa realidade", relembra.
A mudança para Belém marcou outro momento importante da trajetória. Durante o curso de Publicidade e Propaganda, na primeira aula prática de fotografia, realizada às margens do Ver-o-Rio, ele percebeu que a profissão poderia levá-lo muito além do que imaginava.
"Foi quando entendi que a fotografia tinha um propósito muito maior na minha vida. Hoje trabalho muito com moda, que abriu inúmeras portas, mas continuo apaixonado pela fotografia documental. Eu amo voltar ao Pará para fotografar o cotidiano daqui", conta.
Uma câmera como refúgio
Antes de se tornar profissão, a fotografia também foi uma forma de enfrentar as dificuldades da infância.
Cris relembra que viveu momentos de vulnerabilidade financeira e encontrou na câmera uma maneira de escapar daquela realidade.
"A fotografia virou uma válvula de escape. Eu e minha mãe chegamos a morar em um hospital abandonado. Quando eu e meu irmão nos vestíamos, saíamos para fotografar e inventávamos histórias, parecia que a gente conseguia sair daquela realidade, mesmo caminhando poucos metros de casa. A fotografia me libertava daquela situação."
Anos depois, deixou Belém para viver em São Paulo. Foi de lá que recebeu o convite para fotografar uma modelo em Milão em 2018. O que seria uma temporada de poucos meses acabou durando quase dois anos. Após retornar ao Brasil durante a pandemia, voltou à Europa para cobrir a Semana de Moda de Paris e decidiu permanecer na capital francesa, onde vive atualmente.
O Pará em cada fotografia
Mesmo morando há oito anos fora do Brasil, Cris afirma que nunca deixou de levar a Amazônia para os trabalhos que desenvolve.
Ao longo da carreira, assinou projetos com artistas paraenses, entre eles a capa do álbum Rock Doido, de Gaby Amarantos, além de ensaios fotográficos da cantora Zaynara.
"Eu sempre soube onde queria chegar, mas tinha ainda mais certeza do lugar de onde eu vinha. Levo minhas origens para qualquer lugar. Às vezes as pessoas até brincam dizendo que conhecem primeiro o Pará para depois me conhecer. Eu tenho o mapa do Pará tatuado no peito", conta.
Segundo ele, essa identidade acompanha cada projeto desenvolvido.
"A Amazônia está na minha alma, está no meu corpo. Não tem como falar de mim sem falar do Pará. Somos intensos em tudo: nas cores, no abraço, na forma de falar. Quando volto de férias, digo que venho descansar, mas não consigo. Quero viver essa energia o tempo inteiro", afirma.
Para o artista, essa conexão também aparece na maneira como produz suas imagens.
"A fotografia vai muito além de uma imagem bonita. Ela precisa carregar a alma de quem faz e despertar algo em quem vê. Eu procuro colocar essa alma amazônida em tudo o que fotografo."
Inspirar novos caminhos
Ao revisitar a própria trajetória, Cris afirma que também passou a compreender o impacto que sua história pode ter para outros jovens amazônidas.
"Minha caminhada não foi fácil, mas ela mostra que a origem faz parte daquilo que somos. Hoje até mudei uma frase que costumava dizer. Antes eu falava que a origem não definia onde a gente podia chegar. Agora penso diferente: foi justamente o lugar de onde eu vim que definiu onde eu posso chegar", acrescenta.
Além da fotografia e da direção criativa, o artista amplia a atuação no audiovisual. Atualmente, prepara o primeiro longa-metragem da carreira, "TIBIRA", inspirado na história do primeiro indígena registrado como perseguido por sua forma de amar durante o período colonial brasileiro.
"Ainda não posso contar muitos detalhes, mas toda vez que leio o roteiro eu me reconheço ali. Vai ser um trabalho que leva muito da minha história, das minhas vivências", conta.
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