Não é a lei das escritas. Não é a justiça das aparências Océlio de Morais 26.05.26 8h00 E o Mestre dos mestres de todos os tempos falou aos seus discípulos e aos seus seguidores: — “Vós sois a luz do mundo.” (Mateus 5:14) — “Vós sois o sal da terra.” (Mateus 5:13) Os tempos eram de opressão imposta pelo Império Romano e pelo sistema social de castas — este, aquele tipo de sociedade rígida e fechada que definia a posição do indivíduo pela hereditariedade familiar. E lá estava, ao pé da montanha, a multidão sequiosa de conhecimento para sair da ignorância religiosa, mas igualmente ávida de esperança pela chave que começaria a mudar a história. Paradoxalmente, os tempos de desesperança alimentavam uma esperança. A força algoz do regime político controlava o povo pelo medo que vinha de tudo e de todos os lados: as perseguições do regime político e militar romano levavam a julgamentos injustos e a penas de morte (crucificações públicas). O poder religioso — aliado romano — manipulava a consciência coletiva pelo monopólio da “verdade divina”. Recorde-se: nos tempos de Jesus, no topo da pirâmide da Judeia, estavam os saduceus (a aristocracia sacerdotal), que controlavam o Templo; os fariseus (que constituíam a elite religiosa) e a elite política aliada ao Império Romano e ao rei Herodes. Lá, ao pé da montanha, estava a base da pirâmide, aqueles que o sistema qualificava como “amaldiçoados” e “impuros”: os gentios (os não judeus); os coletores de impostos traidores, também conhecidos como publicanos; as mulheres, as crianças, os órfãos, as viúvas e os enfermos (como leprosos e cegos). E o que Jesus fez? Primeiro, mudou a adjetivação ao qualificá-los como “escolhidos do Reino de Deus”, como os "pobres em espírito", os que "choram", os "mansos", “os injustiçados” e os "perseguidos". Encheu as pessoas de esperança, pois ali Jesus as declarou escolhidas e eleitas para receberem o espírito de luz que poderiam chegar a ser. Em segundo lugar, apresentou a condição inafastável: somente seriam os “escolhidos do Reino de Deus” desde que não fossem falsos como a “justiça dos escribas”: “Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”, advertiu Jesus, conforme o relato de Mateus 5:20. A revolução individual deveria ser total: não era admissível ser igual aos escribas e fariseus hipócritas que — por medidas tortas — faziam da justiça a conveniência de interesses particulares. Em outras palavras: a justiça dos escribas e fariseus não era um parâmetro a ser seguido como modo de vida por ninguém. Em terceiro lugar, Jesus definiu categoricamente o que cada um dos discípulos e dos seguidores era: sal e luz do mundo. Numa perspectiva filosófica, não é um convite para tentar ser, mas uma afirmação do que eles já são: o sal e a luz do mundo, se com convicção decidirem ser Seus discípulos. É propósito e sentido novo de vida. É mudança. É uma condição existencial. Ser justo é ser justo! Não é uma aparência de justiça. Ser ético é ser ético. Não é uma aparência no espelho; é essência virtuosa que não estilhaça. Nessa possibilidade, a metáfora do “sal da terra” — nos tempos de Jesus (e ainda hoje) o sal era uma necessidade vital do cotidiano — mandava a mensagem subliminar: a vida de cada um tem sentido, como o sal-tempero que saboriza os alimentos e dá gosto ao paladar. A projeção teológica desta metáfora alcança dois princípios virtuosos: um, a honestidade (a preservação da vida contra a corrupção dos valores); outro, a essência do Ser (o perigo de viver pelas aparências, de se tornar espiritualmente inútil e, assim, perder a identidade essencial). A metáfora "Vós sois a luz do mundo" completa a anterior, mas a partir do próprio Mestre como paradigma autoproclamado: "Eu sou a luz do mundo" (João 8:12). A filosofia desta metáfora é muito profunda. Jesus amplia a identidade que deseja aos Seus discípulos. Em termos práticos, que sejam a luz que ilumina a escuridão, mostrando o caminho seguro a seguir sem tropeçar nos obstáculos encobertos pelas trevas. Em sentido filosófico, trata-se da luz que expõe a verdade, rompendo as algemas da ignorância que torna as pessoas reféns de todas as espécies de manipulações. Ser a luz do mundo não é, portanto, uma simples metáfora. É o momento crucial da escolha certa. É o momento que coloca o indivíduo às claras diante do confessionário da própria consciência. É a sabedoria que compreende que o certo é o certo; que o justo é justo. Como a principal luz do mundo, Jesus Cristo se dedicou por inteiro às pessoas. E também deixou esse legado à humanidade: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.” (Mateus 5:16) Ser “sal da terra e luz do mundo” é, em sentido completo, um convite permanente para ser o diferencial, buscando e vivendo a verdade, promovendo a justiça ética e elegendo o amor como princípio de respeito humano. Mas, atenção: Jesus também deixou uma interrogação inquietante: "Se o sal perder o seu sabor, com o que se há de salgar?" (Mateus 5:13). Agora, a reflexão e a resposta são suas, caro leitor. ATENÇÃO: Em observância à Lei 9.610/98, todas as crônicas, artigos e ensaios desta coluna podem ser utilizados para fins estritamente acadêmicos, desde que citado o autor, na seguinte forma: MORAIS, O.J.C.; Instagram Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞 Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱 Palavras-chave colunas océlio de morais COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA Repórter 70 . Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo! Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é. Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos. Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!