Política para Mulheres

Natasha Vasconcelos

Advogada, ativista e aluna do PPGCP/UFPA. Criadora do Política para Mulheres; co-fundadora da Tenda Vermelha; integrante da Rede de Juristas Feministas (DeFemde); do Cidade para Mulheres; e da Nova Rede de Pesquisas em Feminismos e Política.

Nasce uma estrela: vício, música e relações de gênero

Camille Castelo Branco

É curioso como o alcoolismo é um dos vícios mais aceitos socialmente e, ao mesmo tempo, quando associado à certo tipo de masculinidade (notadamente heterossexual) parece fazer emergir o lado mais sombrio e violento dos viciados. Em todos os estudos que realizei e li sobre violência contra mulheres, o álcool aparece associado a agressão. O que veio primeiro, o alcoolismo ou o comportamento violento, é uma questão de contornos complexos, mas, nas histórias pessoais de mulheres em situação de violência, o álcool permanece presente de modo tão reiterado que soa como fórmula pronta. Certa vez conversei com um policial que trabalhou durante anos em delegacias de atendimento a mulheres vítimas de violência e ele disse que era muito fácil encontrar os agressores após a denúncia: depois de espancarem as mulheres, esses homens quase sempre iam para o bar.

“Nasce uma estrela” me fez lembrar que tive um alcoólatra na família, hoje falecido. Um homem muito inteligente, talentoso, a quem eu amava, mas que também possuía certa agressividade insinuada na vida diária e gritante quando bebia. Alguém cujos erros as mulheres em volta dele estavam sempre dispostas a perdoar, encobrir e remediar. Muito parecido com o personagem Jack, no filme interpretado por Bradley Cooper, que também assina a direção do longa. “Nasce uma estrela” é uma versão contemporânea de um clássico de Hollywood, e fala sobre um casal de músicos que se apaixona. Fala também sobre a decadência e o vício do personagem Jack e sobre as concessões e abdicação de Ally, interpretada por Lady Gaga.

Há um conceito nos espaços do AA e NA chamado co-dependência, que diz respeito à forte ligação emocional que algumas pessoas estabelecem com viciados e indivíduos com comportamento autodestrutivo em geral, ligação que pode conduzi-las à ruína, sem que sejam elas as usuárias que abusam de substâncias ou agem de modo errático. No entanto, sempre me pareceu que existe um forte componente de gênero na co-dependência, pouco discutido no AA e NA: parece um comportamento com profundas relações com a feminilidade, uma vez que as mulheres,em regimes de poder patriarcal, são postas desde cedo no lugar do cuidado, da resiliência e do perdão, uma remontagem incessante do arquétipo da Virgem Maria, que Ally reencena de novo e de novo no filme.

O longa é uma história de amor, que não nada tem de romântica. Pelo contrário, retiradas as cenas de glamour envolvendo a vida nos palcos, ela é na verdade bastante banal: um homem autodestrutivo cruza o caminho de uma mulher e a absorve por inteiro. É interessante – e triste – como a abordagem do filme demonstra que não existe redenção possível quando se trata de vício e, mesmo sabendo disso, Ally embarca esperançosa, porque a narrativa do amor romântico continua a prevalecer. São significativos os momentos em que ela diz ao pai “Ele é um bêbado, você sabe tudo sobre bêbados” e o irmão de Jack avisa “Está achando que talvez ele beba um pouco demais? Querida, você não tem ideia”. Ally parece ter, mas, mesmo assim, espera que seu caso vá ser diferente, que possa existir salvação pelo afeto. Acontece que um dos jargões mais conhecidos sobre o vício é o de que todos os viciados são iguais.

Ao mesmo tempo, conforme foi dito no início do texto, masculinidade e adicção formam uma combinação explosiva que faz saltarem aos olhos os piores traços da personalidade de Jack: a manipulação, a inveja, a sabotagem. São muitos os momentos em que ele dinamita a carreira em ascensão de Ally. Em uma das passagens mais tensas do filme, em meio a uma discussão, ele chega a dizer que além de feia, ela não possui talento algum. Durante todo o filme os momentos de felicidade do casal são intercalados pelo egocentrismo esmagador de Jack, que parece só enxergar a si mesmo, seus traumas, suas dores e convicções.

Meu pai é um sociólogo que trabalhou durante anos em grupos de recuperação de viciados. Em nossas conversas sobre o assunto, ele sempre retomava a noção de “Paciente Identificado”. Após anos envolvido com procedimentos de internação, crises de abstinência nas quais pessoas bebiam perfume e engoliam escovas de cabelo, adictos que fariam de tudo para conseguirem usar, meu pai está convicto de que viciados são apenas um chamariz visível de problemas sociais muitos mais arraigados e menos visíveis, como abuso sexual, violência intra-familiar, negligência na infância, racismo. Machismo e homofobia também, eu acrescentaria. Como sociólogo, ele sempre acreditou que essa era a razão de ser tão difícil a recuperação de viciados, de as taxas de sucesso serem tão baixas. Os doze passos – uma modalidade de tratamento que ele apoia e acha importantíssima – não possuem condição de incidir nos problemas estruturais, deflagradores dos traumas que conduzem ao vício.

Gosto de “Nasce uma estrela” porque é um filme que aborda contradições. Além da bonita trilha sonora e do talento de Lady Gaga, a narrativa desvela papéis de gênero, relacionamentos abusivos, dominação masculina. Não é, evidentemente, o melhor filme de todos e se uma leitura crítica for substituída por uma lente de romantização e glamour, como vi acontecer algumas vezes na internet, o filme passa a prestar mais um desserviço do que fomentar um debate. Em histórias sobre vício, os limites entre a apologia e a crítica parecem ser mesmo mais opacos do que em outros arcos temáticos. Penso que “Nasce uma estrela” pode ser melhor aproveitado quando fazemos as seguintes perguntas: Que tipo de socialização continua levando mulheres a maternarem homens adultos? O que há na formação de mulheres que torna tão corriqueiro que consigamos abrir mão de nós mesmas em função de um homem? Por que uma narrativa sobre o apagamento da subjetividade e das ambições femininas por um homem continua a ser encarada como uma bela história romântica? Se, como afirma meu pai, o vício é apenas uma versão de alta contrastividade de problemas sociais mais profundos, “Nasce uma estrela” parece descortinar um dos mais graves: o vício de Jack abre uma janela para a compreendermos a construção tóxica das masculinidades dentro do patriarcado.

OFF Natasha Vasconcelos
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