A beleza que renasce das cinzas Patrícia Caetano 09.01.26 18h54 Esses dias assisti a um filme que não terminou quando os créditos subiram. Sabe aquela sensação rara de que a história continua acontecendo dentro da gente, mesmo depois da tela escurecer? Foi assim comigo. O enredo seguiu vivo, como uma cena que insiste em reaparecer ou como uma frase que atravessa o silêncio da rotina: “Beleza que renasce das cinzas.” Não recebi essa ideia como poesia vazia, nem como mais uma dessas frases prontas que circulam pelas redes sociais. Recebi como espelho. Porque, no fundo, todos nós já fomos queimados por algo que acreditávamos ser definitivo: uma perda profunda, uma queda nos negócios, um sonho interrompido ou uma ruptura inesperada que mudou nossa rota. As destruições raramente chegam fazendo alarde. Quase nunca entram com barulho. Na maioria das vezes, se instalam em silêncio, ocupando pequenas frestas do cotidiano. É o projeto que consumiu noites e não deu certo. É a empresa que precisou fechar as portas. É a relação que terminou mesmo quando ainda havia amor. É a saúde que oscila de repente e nos lembra da nossa fragilidade. Há também as destruições coletivas crises econômicas, mudanças bruscas no mercado, instabilidades sociais que atravessam nossas vidas sem pedir licença. Todas carregam a mesma sensação: a de fim. O chão some, os planos perdem sentido e o futuro parece distante demais. Quando algo se desfaz, não perdemos apenas o que construímos. Perdemos referências, identidade e certezas. Perdemos versões de nós mesmos que não cabem mais no novo cenário. Por isso o luto de um fim dói tanto. A dor não está apenas no que acabou, mas na estranheza de não sabermos mais como ser quem somos sem aquilo que nos sustentava. O início de um novo ano não apaga as perdas, nem desfaz as marcas do caminho. Mas oferece algo precioso: um intervalo simbólico. Uma pausa que nos convida a olhar para as cinzas com mais honestidade. É um tempo favorável para reconhecer o que foi queimado, o que não pode ser reconstruído e, principalmente, o que ainda pode ser reaproveitado. Lidar com as cinzas não é ficar preso ao passado, mas compreender de que matéria somos feitos agora. Há algo profundamente simbólico nelas. As cinzas são a prova de que algo existiu. Testemunham que houve vida, tentativa e entrega. Não são o nada. São matéria transformada pelo fogo da experiência. O fogo elimina excessos, ilusões e expectativas irreais, deixando apenas o essencial. E é justamente nesse resto que mora a possibilidade do recomeço. Criar algo bonito a partir da destruição não é romantizar a dor. Não é repetir frases como “foi melhor assim”. É algo mais honesto: perceber que, depois do impacto, o ar ainda entra nos pulmões. Que, mesmo cansados, seguimos de pé. A destruição, quando atravessada com consciência, amadurece, redefine prioridades e ajusta o olhar. Obriga-nos a retirar máscaras que o conforto costumava permitir. Há pessoas que, depois de perderem quase tudo, constroem trajetórias mais verdadeiras. Negócios passam a nascer com propósito, lideranças tornam-se mais humanas, escolhas ficam alinhadas com o que realmente importa. Elas não ficaram fortes de repente; ficaram conscientes. Inteiras. Renascer é um processo silencioso. Não acontece em grandes viradas, mas em decisões diárias e o início do ano escancara essa escolha. Não somos convidados apenas a planejar metas, mas a encarar as cinzas que evitamos tocar. O que foi queimado não volta a ser o que era, e talvez esse seja o ponto. Nem tudo precisa ser reconstruído; algumas coisas precisam, finalmente, ser deixadas no chão. No fim, a pergunta que insiste não é “por que tudo foi destruído?”, mas “o que estou disposto a fazer com o que restou?”. Porque o novo ano não começa limpo; começa honesto. Começa com as mãos sujas de cinza e a responsabilidade de decidir se elas servirão para lamentar o passado ou para moldar algo mais verdadeiro. As cinzas não são o ponto final. São o teste. E a beleza que nasce delas depende, exclusivamente, da coragem de quem se dispõe a tocar o que sobrou. Desejo que você construa muita beleza com tudo que já viveu. PATRICIA CAETANO patymops@gmail.com @patyccaetano Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞 Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱 Palavras-chave patricia caetano colunas Inteligência Emocional COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA Patrícia Caetano . Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo! Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é. Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos. Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!