SEG · 12 OUT 2026Assine
O Liberal 80 anos

CÍRIO 2026

Reitor do Santuário de Nazaré alerta para exageros de homenagens na Trasladação

Padre Francisco Silva enfatiza sua expectativa de que os poderes públicos possam encontrar uma solução para o problema de som alto e músicas indevida

Eduardo Rocha

10 de outubro de 2026 às 23:39

Homenagens à santa padroeira não devem ter exageros, a fim de não prejudicar a Festividade do Círio , como pontua o padre Francisco Silva

Homenagens à santa padroeira não devem ter exageros, a fim de não prejudicar a Festividade do Círio , como pontua o padre Francisco Silva ( Foto: Foto: Hamilton Braga / O Liberal )

Em comunicado postado nas redes sociais neste sábado (10), o reitor do Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, padre Francisco Silva, alertou sobre os exageros nas homenagens que ocorrem na Trasladação e no Círio de Nazaré.

O religioso se refere, como destaca no "Comunicação aos Fiéis Devotos e Devotas de Nossa Senhora de Nazaré", que em muitas homenagens ao longo do percurso das procissões costuma-se adotar um som tão alto que acaba cobrindo a sonorização do percurso e, ainda, que muitas músicas adotadas nessas iniciativas não condizem com o teor de devoção religiosa que envolve a Quadra Nazarena.

"Nutro uma grande esperança de que as autoridades e poderes públicos, que nestes últimos tempos entraram em contato com o Reitor do Santuário e com a Diretoria da Festa de Nazaré, demonstrando preocupação com as mencionadas homenagens, possam finalmente tomar a defesa deste grande patrimônio de fé da Comunidade Católica de Belém e do povo do Pará, disciplinando, coibindo e corrigindo os abusos das homenagens, da poluição sonora e de enredos musicais não condizentes com o Círio de Nazaré", enfatiza o reitor do Santuário", enfatiza o padre na postagem.

VEJA MAIS

Trasladação termina após mais de 5h de procissão marcada por rompimento da corda Procissão começou às 18h e terminou às 23h18, após rompimento da corda, paralisação da berlinda por quase uma hora e demonstrações de fé dos promesseiros pelas ruas de Belém

Mulher é esfaqueada por homem em praça no bairro de São Brás, em Belém Fato se deu na Praça do Operário, em São Brás, agora à noite

Confira a íntegra do comunicado do reitor do Santuário de Nazaré:

"Comunicação aos fiéis devotos e devotas de Nossa Senhora de Nazaré

Queridos devotos e devotas de Nossa Senhora de Nazaré, diante das inúmeras solicitações recebidas pelo reitor do Santuário e pelos Padres Barnabitas a respeito das homenagens realizadas por instituições e famílias ao longo do percurso das procissões da Trasladação e do Círio, sinto-me chamado a dirigir-me a vocês para partilhar algumas considerações.

Na sua dimensão mais profunda, o Círio de Nazaré é um patrimônio da Comunidade Cristã Católica. Um patrimônio de fé e devoção dos fiéis católicos de Belém e do Pará, e que hoje toca o Brasil inteiro. Um patrimônio que teve o seu início exato no ano de 1700, com o achado da Imagem, pelo caboclo Plácido, enquanto que o Círio teve o seu início em 1793, portanto já superados os dois (2) séculos de história de devoção e fé.

A construção deste Patrimônio devocional e de fé do povo do Pará foi construída pela tenacidade dos devotos, que não mediram esforços e sacrifícios, e pelo cuidado e zelo da Igreja de Belém, por meio de seus pastores.

Cuidar deste Patrimônio foi, ao longo do tempo, uma responsabilidade dos pastores e do clero de Belém e, a partir de 1905, dos Clérigos Regulares de São Paulo conhecidos por Padres Barnabitas. Ao longo deste período foram efetuados diversos atos purificatórios, tornando-o genuinamente um evento de fé católica, livre de ingerência da política, da maçonaria e de crendices populares (sincretismo religioso), a ponto de chegar à estatura daquilo que é hoje em termos de devoção e fé mariana, que se celebra no 2° domingo de outubro, o Círio de Nazaré.

Este patrimônio da Comunidade Católica de Belém e do povo do Pará, sob a guia pastoral do Santuário Mariano da Arquidiocese de Belém, começou a sofrer uma investida de diversos setores da sociedade - instituições públicas e privadas, no início dos anos 2000, que de princípio pareciam coisas agradáveis, denominadas de homenagens. As homenagens, com o passar do tempo, foram aumentando e tomando dimensões sempre mais invasoras e impositivas.

As homenagens começaram então a interferir no sistema de som as caixinhas de som -que cobriam todo o percurso, que ia da Basílica Santuário de Nazaré até a Catedral da Sé, ora cortando o cabeamento, ora furtando as referidas caixas de som, ato que não sabemos quem são os autores. Os organizadores destas homenagens retinham que o som emanado das ditas caixinhas interferia nas homenagens deles. Resultado: todo o sistema de som organizado pelo Santuário de Nazaré e pela Diretoria da festa de Nazaré foi alijado das grandes procissões: Trasladação e Círio. Tudo o que se tem hoje é uma contínua balbúrdia provocada pelos organizadores das ditas homenagens, com sons estridentes, música não condizente com a festa religiosa e uma desorientação pesada para os devotos e romeiros.

A interferência das homenagens tem causado um grande desorientamento na multidão dos fiéis, que se pergunta: o que está acontecendo? Cadê o sistema de som que nos ajudava a rezar, refletir sobre a Palavra de Deus, caminhar ora em direção à Catedral (trasladação), ora em direção à Basílica Santuário? Por que os Padres Barnabitas não interferem nesta situação? O que está faltando?

As homenagens estão causando um grande dano e uma erosão que, se não forem contidas, deixarão suas marcas irreversíveis neste grande Patrimônio da Comunidade Católica de Belém e do povo do Pará. E diga-se, também, que até mesmo os títulos de Patrimônio Imaterial concedidos pelo IPHAN e pela Unesco irão ficar apenas no papel, como lembranças de um passado que não voltará.

Por fim, caríssimos Devotos e Romeiros de Nossa Senhora de Nazaré, quero vos dizer que o controle destas homenagens não depende da autoridade do Reitor deste Santuário e dos Barnabitas que aqui trabalham. Não temos, como comunidade religiosa, a autoridade e o poder de enfrentamento com as instituições e pessoas físicas que fazem estas homenagens. Nutro uma grande esperança de que as autoridades e poderes públicos, que nestes últimos tempos entraram em contato com o Reitor do Santuário e com a Diretoria da Festa de Nazaré, demonstrando preocupação com as mencionadas homenagens, possam finalmente tomar a defesa deste grande patrimônio de fé da Comunidade Católica de Belém e do povo do Pará, disciplinando, coibindo e corrigindo os abusos das homenagens, da poluição sonora e de enredos musicais não condizentes com o Círio de Nazaré.
Certo da compreensão e da ajuda de todos, para juntos vencermos este desafio e resgatarmos o verdadeiro espírito do Círio na sua dimensão mais profunda de fé e devoção a Nossa Senhora de Nazaré e a seu Filho Jesus Cristo, nosso Salvador. Por Maria a Jesus
"

Assuntos relacionados