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LEMBRANÇAS

Imagens de santos atravessam gerações e renovam a fé de famílias às vésperas do Círio

Peças antigas chegam a ateliê de Belém com marcas do tempo, como rachaduras e pintura desgastada, mas principalmente carregadas de histórias e lembranças familiares

Dilson Pimentel

27 de setembro de 2026 às 08:30

Em muitas casas de Belém, a fé também mora em cima de uma estante, dentro de um oratório ou sobre um pequeno altar. São imagens de santos que atravessaram décadas e chegaram às mãos de novas gerações carregando marcas do tempo e, principalmente, histórias de família. Às vésperas do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, celebrado este ano no dia 11 de outubro, essas imagens ganham ainda mais significado para os devotos.

Algumas precisam apenas de pequenos reparos. Outras chegam ao restaurador com a pintura desgastada, rachaduras, partes quebradas, sinais de umidade, poeira ou até marcas de acidentes domésticos. Há também aquelas que foram modificadas ao longo dos anos por pessoas sem conhecimento técnico e perderam parte de suas características originais. No pequeno ateliê do artesão Luiz Guedes, na travessa 3 de Maio, no bairro de São Brás, em Belém, essas histórias chegam pelas mãos dos próprios donos.

Há 36 anos, ele trabalha com restauração e diz que seu principal compromisso é devolver às peças sua beleza sem apagar as marcas que contam sua história. Entre os casos mais delicados estão as imagens atingidas por fogo. “As imagens sacras antigas dependem não só do tempo da imagem, mas também da idade da pessoa que tem a imagem. Muitas dessas imagens vêm queimadas. Às vezes, esquecem a vela e o oratório pega fogo”, contou.

Também chegam peças sem partes do corpo, com a cabeça quebrada ou pequenos danos provocados pelo tempo. Antes de decidir o que fazer, o artesão avalia cuidadosamente cada imagem. “O trabalho é iniciado mexendo a cabeça, para saber se está solta, se não está rachada atrás, nos pés. Geralmente, uma imagem vem, na maioria das vezes, com a base rachada devido ao tempo”, explicou. A restauração, segundo ele, deve respeitar a história de cada peça.

Uma imagem antiga, por exemplo, não deve simplesmente receber uma pintura nova que altere sua aparência original. Primeiro, é preciso avaliar o estado de conservação e conversar com o proprietário sobre o resultado pretendido. “A primeira coisa é a avaliação: se o cliente quer da mesma cor ou se pode ter outra opção. Se o cliente deseja a mesma cor, mexer o mínimo possível. Se for imagem antiga, isso tem que seguir a regra do cliente”, afirmou. Quando a pintura está desgastada, a busca é pela tonalidade que mais se aproxima da original. “A gente tenta buscar a cor exata do material. A pesquisa de cor é para tentar chegar na cor exata que a imagem apresenta, para que fique bem parecida”, explicou.

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O valor de uma imagem religiosa não está apenas na madeira, no gesso, na pintura ou nos detalhes da peça, diz o artesão Luiz Guedes
O valor de uma imagem religiosa não está apenas na madeira, no gesso, na pintura ou nos detalhes da peça, diz o artesão Luiz Guedes (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

Uma lembrança que permanece

Mas, para Luiz Guedes, o valor de uma imagem religiosa não está apenas na madeira, no gesso, na pintura ou nos detalhes da peça. Em grande parte dos casos, o que chega ao ateliê é uma lembrança de família. “A maioria, acho que 90%, é o valor sentimental. Por exemplo: ‘Minha mãe morreu, deixou essa santa e quero preservar na minha casa’. Vão trazendo nessa situação: lembrança de alguém que partiu”, contou.

É esse sentimento que transforma o trabalho de restauração em algo diferente de um simples reparo. Ao recuperar uma imagem, o artesão ajuda a preservar uma memória que muitas vezes passa de pais para filhos e de avós para netos. A procura pelo trabalho também chega de fora de Belém. O artesão afirmou que já restaurou imagens para pessoas de outros estados e até estrangeiros. Também recebe peças de religiosos da região do Marajó e de outras áreas do Pará. Ele contou que, atualmente, é reconhecido não somente no Pará, mas fora do estado também. “Muitos estrangeiros já levaram imagens restauradas daqui”, disse. Ele também é muito procurado pelos religiosos da região da ilha do Marajó. Entre os trabalhos que guarda na memória está a restauração de uma imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

A história de Luiz Guedes com a arte começou ainda na juventude. Ele gostava de pintar paisagens amazônicas, especialmente elementos da natureza, como vitórias-régias. Teve como mentor o professor Guilherme Leite, que considera um importante incentivador. Mais tarde, durante uma temporada em Fortaleza, depois que o pai foi transferido para a cidade, conheceu a arte do gesso. O interesse aumentou e ele passou a trabalhar também com conchas, pedras e outros materiais inspirados na natureza. Foi a partir desse momento que a sua paixão pela restauração começou a tomar forma.

Nas mãos do restaurador, a fé ganha novas cores

Com o passar dos anos, o artesão transformou a habilidade artística em profissão e se tornou conhecido pela restauração de imagens católicas. Embora também receba esculturas de outras tradições religiosas, são os santos católicos que representam a maior parte da demanda. Ele restaura todo tipo de imagem: grandes, pequenas, de madeira, de gesso.

A religiosidade, naturalmente, também acompanha o artesão fora do ateliê. Nascido em uma família católica, ele é coordenador do Terço dos Homens na Basílica Santuário de Nazaré e já participou da Legião de Maria. Com a aproximação do Círio, a relação entre o trabalho e a fé se torna ainda mais evidente. Em Belém, onde a preparação para a maior manifestação religiosa do Estado mobiliza famílias e comunidades, restaurar uma imagem pode significar preparar também uma lembrança para voltar a ocupar seu lugar no altar de casa. Luiz falou desse período com a perspectiva de quem, há décadas, convive com objetos que representam a devoção dos paraenses.

Luiz Guedes já declarou à reportagem que o Círio é um momento de grande devoção e emoção para os paraenses. “Restaurar essas imagens, especialmente de Nossa Senhora, é como renovar a fé das pessoas. Elas vêm aqui com uma peça que tem valor sentimental enorme, e o nosso trabalho é devolver a beleza e o significado espiritual que aquela imagem representa para elas”, disse.