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Caso Master: entenda as acusações e as mensagens envolvendo Vorcaro e Moraes

Relatório da Polícia Federal teve o sigilo retirado por André Mendonça e reúne mensagens, encontros e contratos relacionados ao ex-banqueiro e ao ministro do STF

Hannah Franco
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As investigações sobre o Banco Master voltaram ao centro do debate nesta terça-feira (1º), após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirar o sigilo de um relatório da Polícia Federal que reúne informações extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O documento detalha contatos, mensagens e referências a encontros envolvendo um número salvo no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, além de outros elementos relacionados ao ministro.

As informações recolocam em evidência o chamado caso Master, investigação que apura suspeitas de fraudes financeiras, lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa. Daniel Vorcaro, fundador e controlador do Banco Master, está preso preventivamente no âmbito das apurações.

O relatório mais recente também descreve uma série de mensagens nas quais Vorcaro teria buscado informações sobre o avanço das investigações e pedido ajuda para conter medidas da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República (PGR). Entre os diálogos estão questionamentos sobre possíveis buscas, quebra de sigilos, uma eventual prisão e até a possibilidade de deixar o Brasil.

O que é o caso Master?

A investigação da Polícia Federal aponta para um suposto esquema de fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master. Segundo as apurações, uma das principais suspeitas é a criação e negociação de carteiras de crédito fictícias para dar aparência de solidez financeira à instituição.

A investigação avançou em diferentes fases da Operação Compliance Zero. Em março de 2026, o STF informou que a PF apontava a existência de um esquema de fraudes bilionárias supostamente coordenado por Vorcaro, com suspeitas de interlocução direta com servidores responsáveis pela supervisão bancária.

O caso também alcançou operações envolvendo o Banco de Brasília (BRB). Segundo decisão de abril, elementos obtidos pela PF indicavam a fabricação, venda e cessão de carteiras de crédito supostamente fictícias do Master ao BRB, com operações que teriam alcançado R$ 12,2 bilhões.

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Como o esquema teria funcionado?

Segundo a investigação apresentada no material da PF, o grupo teria criado documentos para dar aparência de existência a operações financeiras que, na realidade, seriam fictícias. Entre os documentos estariam contratos, extratos, planilhas e procurações.

A suspeita é de que essas operações eram utilizadas para aumentar artificialmente o patrimônio do banco e permitir a movimentação de grandes volumes de recursos.

Um dos exemplos citados na investigação envolve títulos antigos do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Segundo o material, ativos adquiridos por aproximadamente R$ 850 mil teriam sido registrados posteriormente com valor superior a R$ 10 bilhões.

O Banco Central também identificou irregularidades envolvendo certificados de depósito bancário (CDBs).

➡️ O que é um CDB? 

O Certificado de Depósito Bancário é um investimento de renda fixa. Na prática, o investidor empresta dinheiro à instituição financeira e recebe uma remuneração pelo período em que os recursos permanecem aplicados.

No caso investigado, o Banco Master teria emitido cerca de R$ 50 bilhões em CDBs com remuneração acima das taxas praticadas no mercado, enquanto havia dúvidas sobre a capacidade financeira da instituição para honrar os compromissos.

Quando o Banco Master foi liquidado?

O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro de 2025. A decisão atingiu o banco e outras instituições do conglomerado.

O BC apontou a deterioração da situação financeira da instituição e determinou a indisponibilidade dos bens dos controladores e ex-administradores.

A decisão ocorreu após o fracasso de uma tentativa de venda do banco para a Fictor Holding, operação que previa uma injeção de recursos na instituição.

Um dia antes, em 17 de novembro de 2025, Daniel Vorcaro havia sido preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), quando tentava embarcar em um voo internacional com destino a Malta.

Posteriormente, a investigação avançou e, em 4 de março de 2026, André Mendonça determinou novamente a prisão preventiva de Vorcaro. Segundo o STF, a medida foi tomada diante de um risco de interferência nas investigações.

Quais crimes são investigados?

As apurações relacionadas ao caso Master envolvem suspeitas de crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa.

A Polícia Federal também investiga possíveis pagamentos de propina, vazamento de informações sigilosas, monitoramento de autoridades e adversários e tentativa de interferência nas investigações.

Em julho, o STF autorizou uma nova fase da Operação Compliance Zero para investigar, entre outros pontos, uma suposta estrutura destinada a comprometer a credibilidade do Banco Central e intimidar jornalistas e concorrentes.

O que as mensagens entre Vorcaro e Moraes revelam?

A análise do celular de Vorcaro encontrou 187 interações com um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. O relatório aponta referências a encontros presenciais, mensagens e tratativas envolvendo eventos e outras questões.

A PF também identificou que Vorcaro costumava escrever mensagens no aplicativo de notas do celular, fazer uma captura de tela e encaminhá-la pelo WhatsApp como mensagem de visualização única. Segundo a perícia, isso dificultou a recuperação das conversas completas.

O relatório registra ainda mensagens de visualização única enviadas por Moraes a Vorcaro em 17 de novembro de 2025, dia da primeira prisão do banqueiro.

30 de outubro de 2025: Vorcaro pede ajuda

Uma das primeiras mensagens destacadas no relatório é de 30 de outubro de 2025. Vorcaro pediu a Moraes que conversasse com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e com o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Na mensagem, o banqueiro escreveu:

“Boa, vou mudar minha ida a abu dhabi pra conseguir te ver, se voce puder na terça feira!. As coisas aqui do ponto de vista economico estao andando bem. Consegui colocar no banco 800mm ja e devem entrar mais 400mm proxima semana. [...] O problema agora é que tive informações informais e em confidencia de turma do banco central, que G e os diretores estao na pressao maxima de novo pra uma medida, pois o bacen esta sendo muito pressionado pela PF e MP, alegando que farao algo contra mim.”

Na sequência, Vorcaro pediu:

“É importante reforçar com Andrei e Paulo pra nao deixar ninguem de baixo fazer uma sacanagem que ai vai tudo pro saco. Estou disponivel pra tratar e explicar qq coisa, so nao pode ter sacanagem. Vou te mandar os nomes que tem ido ao Bacen alegando que farao algo em breve.”

4 de novembro: banqueiro pergunta sobre possíveis medidas

Em 4 de novembro de 2025, Vorcaro voltou a questionar Moraes sobre o avanço das investigações.

Às 20h41, segundo o material, perguntou: “médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?”

Na sequência, insistiu: “Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?”

Dois minutos depois, escreveu: “Pq se conseguem alguma medida contra agora, vai tudo por água abaixo, essa é minha maior preocupação”.

Mais tarde, às 23h44, fez outro apelo: “Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade”.

E acrescentou: “Como eu disse, não temos nada, nem o Banco Central abriu sequer um processo administrativo, e eles me auditam todos os dias”.

No dia seguinte, 5 de novembro, voltou a perguntar:

“Como estamos aí? Conseguimos bloquear a maldade e sacanagem?”

14 de novembro: Vorcaro fala em “dívida de vida”

Em 14 de novembro de 2025, três dias antes de ser preso, Vorcaro enviou uma mensagem de agradecimento a Moraes.

Segundo o relatório, ele escreveu: “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros amigos que dependem de nós tem uma dívida de vida contigo e com sua família. Muito obrigado por tudo. Agora é continuar na pegada pra conseguir concluir, se Deus quiser.”

15 de novembro: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”

Em 15 de novembro, dois dias antes da prisão, Vorcaro voltou a falar sobre o avanço das investigações.

Segundo a PF, ele escreveu: “Que loucura, bem na semana em que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galipolo [presidente do Banco Central] tá sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda já tenho que estar fora?”

Em outra conversa, também em 15 de novembro, escreveu: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso”.

17 de novembro: mensagens no dia da prisão

Na manhã e ao longo do dia 17 de novembro de 2025, Vorcaro continuou trocando mensagens com o contato identificado pela PF como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

Segundo o relatório, mensagens enviadas por Moraes ao banqueiro foram registradas como mensagens de visualização única. Naquela noite, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos quando tentava deixar o país.

Como Vorcaro e Moraes teriam se aproximado?

O relatório da PF também registra referências anteriores à relação entre os dois.

Segundo o documento, o ex-ministro Fábio Faria teria atuado como intermediário entre Vorcaro e o contato identificado como Alexandre de Moraes.

Em 21 de dezembro de 2023, Faria teria pedido ao banqueiro informações sobre o veículo que utilizaria para chegar a um encontro:

“Fala pra Patroa ai que o Careca confirmou o jantar com a gente no dia 02/02. Os 3 casais”

Em 26 de dezembro, Faria compartilhou com Vorcaro um número salvo em seu próprio celular como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Segundo a PF, outros contatos associados ao mesmo número também foram enviados ao banqueiro.

Visita a Campos do Jordão

Outro episódio citado pela PF envolve uma visita de Moraes a Campos do Jordão, em dezembro de 2023.

Segundo as mensagens, Vorcaro teria orientado funcionários a preparar uma recepção considerada “ultra VIP”, com nove convidados, quatro seguranças, cantor, cavalos e chef particular.

O principal convidado aparece nas conversas como “Alex”, identificação que a PF atribuiu a Alexandre de Moraes.

Contratos com o escritório da esposa de Moraes

Outro ponto do relatório envolve contratos entre empresas ligadas a Vorcaro e o escritório de advocacia Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes.

Segundo a PF, um dos contratos tinha valor de aproximadamente R$ 131 milhões.

A defesa do escritório afirmou que o ministro teria sido consultado apenas sobre eventual impedimento legal para a contratação e que, como nenhum impedimento foi identificado, o contrato foi assinado.

Um segundo contrato, de R$ 50 milhões, também teria sido firmado com uma empresa ligada a Vorcaro. Segundo a investigação, parte do pagamento poderia ocorrer por meio da transferência de cotas de duas aeronaves.

Vorcaro cobrava pagamentos ao escritório

As mensagens analisadas pela PF também mostram o banqueiro cobrando funcionários sobre pagamentos ao escritório de Viviane Barci.

Em uma conversa, Vorcaro teria classificado o pagamento como o “mais importante que temos” e cobrado um funcionário após um atraso.

Em outra mensagem, teria determinado que o contrato fosse tratado de forma restrita. A PF encontrou, inclusive, conversa na qual Vorcaro pede a um diretor financeiro que recolhesse o documento físico e evitasse que outras pessoas tivessem acesso a ele.

O que a PF diz sobre a relação?

A investigação considera que as mensagens encontradas no celular de Vorcaro mostram uma relação próxima entre o banqueiro e o contato identificado como Alexandre de Moraes. O material reúne referências a encontros, pedidos relacionados às investigações e tratativas sobre eventos e contratos.

Ao mesmo tempo, o relatório pericial não afirma, apenas pelo nome salvo no aparelho, que o número necessariamente pertencia ao ministro. A identificação é tratada pela PF como um dos elementos que precisam ser analisados em conjunto com as demais evidências.

E a investigação sobre possíveis vazamentos?

O conteúdo do celular de Vorcaro já havia sido alvo de controvérsia antes das novas revelações. Em março de 2026, André Mendonça determinou a abertura de um inquérito para apurar o vazamento de informações e mensagens extraídas dos aparelhos do banqueiro.

A decisão ressaltou que a apuração deveria buscar identificar quem tinha o dever de preservar o sigilo das informações, sem transformar jornalistas que tiveram acesso ao material no alvo da investigação.

Qual é a situação de Vorcaro atualmente?

Daniel Vorcaro permanece preso preventivamente. Em junho, André Mendonça negou o pedido da defesa para substituir a prisão por domiciliar e determinou a transferência do banqueiro para o batalhão conhecido como “Papudinha”, no Distrito Federal.

O ministro considerou que permaneciam presentes os riscos apontados pela Polícia Federal, incluindo possibilidade de interferência nas investigações e movimentações patrimoniais consideradas suspeitas.

O caso Master continua em investigação e já alcançou diferentes pessoas, empresas e autoridades. Em 2026, novas fases da Operação Compliance Zero foram autorizadas pelo STF para apurar suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, influência política, vazamento de informações e tentativa de interferência nas investigações.

O que acontece agora?

Com a retirada do sigilo do relatório, os novos elementos relacionados às mensagens entre Vorcaro e o contato atribuído a Moraes passam a ser analisados publicamente.

André Mendonça também indicou que pretende levar a discussão ao plenário do STF. Segundo o ministro, a análise dos novos elementos deve ocorrer de forma pública e pelo colegiado da Corte.

A Procuradoria-Geral da República também foi acionada para se manifestar sobre os elementos apresentados pela Polícia Federal. A partir dessa análise, poderão ser definidos os próximos passos da investigação.

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