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Conheça o vocabulário do paraense e sua riqueza de expressões típicas usadas diariamente em Belém

Termos como 'pai d’égua', 'disque', 'mas quando' e 'pior' são irreconhecíveis em outras regiões, diz professora da UFPA

Dilson Pimentel / O Liberal

“Tu tá pra levar o farelo e ainda tá pensando em Carnaval? O cavalo mordeu a tua cabeça?” Essa é uma das expressões usadas em Belém e que ilustram bem a riqueza do vocabulário utilizadas diariamente na capital paraense. No caso da frase acima, o contexto é um diálogo entre familiares e refere-se à covid-19. Ou seja, mesmo com o risco de um possível contágio pelo vírus, a pessoa, ainda assim, estava pensando em se aglomerar no Carnaval. E, por isso, levou a bronca do outro membro da família.

A professora e pesquisadora Érica do Socorro Barbosa Reis, graduada em Letras-Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Pará, diz que a linguagem é apenas uma dentre muitas partes que constituem a cultura humana. Em termos de Brasil, sua cultura é preenchida por uma grande diversidade étnica e vasta extensão territorial. Com isso, o português carrega considerável heterogeneidade e variação. “Na região amazônica, por exemplo, é possível encontrar ocorrências de expressões como: "égua", "paid’égua", "disque", "mas quando", "pior", irreconhecíveis em outras regiões”, afirmou.

A famosa Metrópole da Amazônia, ou Cidade Morena ou Cidades das Mangueiras, também apresenta muita peculiaridade aos ouvidos da população. “Esta senhora que, hoje, completa 406 anos é reconhecida por onde passa pela sua voz, melodia, expressões e, principalmente, um chiado típico que tende a nos remeter à chamada chuva da tarde com cheiro de café, e, por que não, um gosto de chibé?”, observou ela, que é mestra em Estudos de Linguagem pela Universidade Federal Fluminense.

Érica disse que esse amor pela fala, pelo tom, pelas expressivas palavras identitárias, a fez buscar pesquisar possíveis origens linguísticas de um português mestiço que abrange, em sua essência, línguas indígenas, português europeu e línguas africanas. “O sonho de fazer ciência a partir de nossas expressões paraenses veio com a possibilidade de elevar a identidade do falar paraense ao status de científico. Sonho em execução, em eterna execução...”, afirmou.

Ainda segundo ela, “nossas expressões, além de comunicar e identificar, acima de tudo expressam. Expressam negação, ponto de vista, avaliação, afirmação, deboche, acolhimento...Pesquisas científicas feitas por mim, enquanto professora da Universidade Federal do Pará-Campus Cametá (2019-2021), e pelos meus orientandos de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), que também demonstraram interesse pela causa, expuseram sobre algumas expressões paraenses ao vasto entendimento de quem as fala. De quem utiliza, por exemplo, o “mas quando” não só para negar, mas para enfatizar a negação, tornando-a mais rígida, mais forte; o “pior” para concordar, expressando também ponto de vista, fato que apenas um “é verdade”, visível e sonoricamente, não dá conta”.

Confira alguns diálogos típicos de Belém de acordo com a pesquisadora

“Hoje é dia 12 de janeiro, dia do aniversário de Belém, bora lá pro Ver-o-Peso comemorar? Nem me fale! Tô doida pra comer um pedaço daquele bolo enorme”.

Érica do Socorro Barbosa Reis observou que ouvidos não paraenses talvez possam entender que a expressão em destaque signifique ‘não falar algo’: “Que curioso, não? Expressa exatamente o contrário. No entanto, quantos de nós nos damos conta de que o que falamos pode significar também o não dicionarizado, mas, sim, aquilo que nossa gramática interna, cultural e regional, nos permite entender?”.

Ela finaliza tal pensamento avisando sobre o seguinte:

“- Égua, lá vem ela, vai cair um toró hoje, vou é tirar minha roupa do sol. Ei, ninguém te xingou e tu entendeste. Com certeza sim. Isso ocorre pela identificação de algo demasiadamente frequente aos nossos ouvidos e visão. Diz Érica: "Esse som faz com que nos sintamos em nossa casa, em nossa região, em nossa cultura, em nosso ninho peculiar amazônico, paraense, belenense. É isso também que faz com que tu, estejas onde estiveres, corra para cumprimentar aquela pessoa que tens certeza que de que possui suas mesmas raízes e que te faça, por um instante, sentir-se acolhida e abraçada pelos calorosos braços da jovem senhora que completa 406 anos, nossa capital, Belém”.

Belém Pra Ver e Sentir
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