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De igarapés a canais, relação da população com esses lugares muda ao longo dos anos

No bairro do Guamá, essa conexão pode ser evidenciada pelas brincadeiras das crianças que dão cambalhotas no canal do Tucunduba

Fabyo Cruz

A cidade de Belém possui 15 bacias hidrográficas com 65 canais, que juntos têm 94 quilômetros de extensão. Há muito tempo, antes da construção desses espaços, existiam lagos e terrenos alagados que foram aterrados pelo poder público, provocando mudanças na cara da capital paraense. Ao longo dos anos, moradores de áreas próximas de canais criaram uma relação peculiar com esses lugares, sendo que a maioria está localizada na periferia da cidade.

No bairro do Guamá, essa relação pode ser evidenciada pelas brincadeiras das crianças que dão cambalhotas no canal do Tucunduba no começo da tarde. Ao atravessar a ponte de ferro que liga os dois pontos separados pelo curso da água, Nelson Pires, 35 anos, dá várias risadas ao ver a criançada brincando no local. Nascido e criado na área, como ele mesmo diz, o homem conta que o banho no canal é muito comum e ocorre há muitos anos, “Acho que quase todo mundo já nadou aí alguma vez na vida”, presume o morador.

Crianças se divertem no Canal do Tucunduba (Igor Mota/ O Liberal)

Os meninos dividem espaço no rio com os barcos de frete que ali ficam ancorados. Algumas barracas de venda de frutas, verduras ou churrasquinho são erguidas diariamente nas calçadas ao entorno das barreiras de proteção de concreto do canal do Tucunduba. Na pista, a garotada costuma jogar futebol, formando um confronto entre as ruas do bairro, algumas das partidas valem a aposta, quem perder paga o refrigerante para a galera. O final da partida também pode terminar com um banho no rio quando um jogador não muito habilidoso joga a bola no canal.

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As laterais do canal também são ocupadas pelos moradores que, em alguns pontos, costumam sentar em frente às suas residências para conversar com os vizinhos, afirma Bernadete Silva, 53 anos. Moradora do bairro há 40 anos, ela aproveita a calçada da estrutura para exercer seu trabalho de manicure. “Os vizinhos ficam sempre aqui pela frente, em dia de festa então todo mundo se reúne mesmo. Quando tem Copa do Mundo, por exemplo, enfeitamos e decoramos tudo por aqui pelo canal com as cores do Brasil e todos se divertem”, contou.

Bernadete Silva faz as unhas com tranquilidade na beira do canal (Igor Mota/O Liberal)

Regiões baixas

O motivo da cidade possuir tantos canais é devido à sua localização geográfica e formação geológica, explica Flávio Augusto Sidrim Nassar, professor da faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará (UFPA). O educador explica que a cidade está situada em um grande complexo de regiões baixas - referindo-se às foz dos rios Amazonas, Tocantins e Guamá -  propícias para a formação de bacias hidrográficas.

“À medida que essas bacias vão sendo semeadas, a solução tradicional da engenharia é retificar os trechos de igarapés e transformar em canais sempre dentro dessa concepção para assim promover a melhor escoação das águas. A maioria dos canais estão nas periferias, onde se encontram as áreas baixas. No Centro de Belém há uma pequena área de terras não inundadas, ou seja, que estão acima da cota 4 metros em relação ao nível do mar. Alguns exemplos desses lugares são o miolo da Cidade Velha, uma parte da Campina, o bairro de Nazaré, seguindo pela avenida Nazaré em direção à Almirante Barroso", explicou  o educador. 

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História dos canais de Belém

O bairro do Reduto era o ponto de embarque e desembarque na década de XX. As características do século do século passado já não existem mais. O bairro era o segundo ponto comercial da cidade. O primeiro sempre foi o Ver-o-Peso, que era o bairro de entrada dos barcos do interior em relação ao bairro da Campina. O bairro do Reduto sofreu um processo semelhante, no final do séc XIX e início do séc XX, em virtude de um modelo de cidade sem água estabelecido na capital paraense naquela época.

Antigamente, quando se pensava em cidades brasileiras que possuíam muita água, o pensamento da época remetia para doenças. No caso de Belém, especificamente, o problema eram os mosquitos, chamados de carapanãs. A tentativa dos governantes é que fossem reduzidas a quantidade de água fluvial e das águas paradas também. 

Na Pedra do Peixe, que faz parte do Complexo do Ver-o-Peso, ocorre a saída e chegada do pescado em Belém. Em 1773, as Docas do Ver-O-Peso ligavam a Baía do Guarajá a um gigantesco lago que foi aterrado no século XIX, era o Lago do Piri, que separava os dois núcleos urbanos mais antigos da cidade: Cidade Velha e Campina. 

Vários canais da cidade, antigamente, foram igarapés onde muitas pessoas, inclusive, pescavam nesses locais. O canal localizado na avenida Visconde de Souza Franco, por exemplo, era o antigo Igarapé das Almas. O nome teria origem nas lendas contadas pelos antigos moradores que diziam ver espíritos pelas margens do canal. Hoje ele é rodeado por prédios, um reflexo da urbanização dos bairros do Reduto e do Umarizal. Uma história interessante do canal da 14 de Março, no bairro de Nazaré, onde passava o igarapé Murutucu, onde segundo a história, o caboclo Plácido José de Souza encontrou a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, no ano de 1700.

Doca de Souza Franco na década de 1970 (Reprodução)

Veneza brasileira

Há quem diga que a capital do Pará poderia ter se transformado em uma espécie de  "Veneza Brasileira", em 1771, em virtude de um suposto desejo do engenheiro alemão Gaspar Gerardo Gronfelts. No entanto, o professor Flávio Augusto Sidrim Nassar esclarece que na verdade existe um equívoco nessa história. Ele conta que Gronfelts elaborou um estudo para Belém onde, na realidade, tinha-se como objetivo criar um sistema de fortaleza em torno da Cidade Velha. “Essa muralha iria defender com comportas a cidade de um possível ataque que viesse do centro do continente e não por água”, explica o educador.  

 

Ações da prefeitura e a intervenção no canal São Joaquim  

Ivanise Gasparim, titular da Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan), conta que entre as ações da Prefeitura de Belém realizadas na atual gestão para os 65 canais do município estão a limpeza e a dragagem desses lugares, a partir de um convênio com o governo do estado, realizado no início do ano. “São duas vezes ao ano que nós fazemos essas ações, elas são fundamentais porque há normalmente um descarte irregular de lixo que ao ser levado pela água da chuva provoca alagamentos. Então, essa limpeza mais potente é uma coisa que nós estamos fazendo permanentemente”, afirmou a secretária. 

A secretária também contou que neste dia 12 de janeiro, quando é comemorado o aniversário de Belém, será realizada uma intervenção urbanística no canal do São Joaquim, que perpassa vários bairros, começando pela avenida Júlio César até a avenida Arthur Bernardes. “Nessa intervenção, além da limpeza, vamos promover um concurso para fazer o projeto de urbanização desse canal, que talvez seja o maior dentro da cidade e que ainda não passou por nenhuma intervenção. Se Deus quiser vamos transformá-lo em um cartão postal da cidade, a partir desse concurso”, finalizou. 

Belém Pra Ver e Sentir
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