Aniversário de Belém: periferia se destaca na produção de conteúdo regional

Em Belém, mesmo com dificuldade de acesso à tecnologia 5G, jovens levam nome de bairros periféricos para além dos guetos onde cresceram

Natália Mello

A tecnologia 5G chegou ao Brasil e prometeu levar uma velocidade 10 vezes maior que a 4G, gerando uma expectativa de transformações profundas na conexão de dados móveis. Apesar de mais esse marco, a periferia de Belém, bem como as localizadas Pará afora, precisa de um esforço a mais para acompanhar as mudanças e continuar visível em um mundo que simplesmente vive conectado em uma espécie de metaverso.

O multiartista Igor Bacelar, de 29 anos, é morador do bairro da Cremação e hoje é produtor de conteúdo reconhecido na capital paraense. Mas, para alcançar o famigerado engajamento nas redes sociais, ele precisou entregar mais e correr atrás de equiparar a uma internet de qualidade, tudo por conta própria.

“No início era bem complicado produzir, seja por falta de equipamento adequado ou de uma internet de qualidade. Só consegui ter um celular bom e uma internet de qualidade dois anos depois do início da minha produção. Onde eu moro não entrava nenhum dos principais provedores de internet, então eu tinha que me virar com o 4G e gastar uma pequena fortuna mensalmente com créditos para celular para poder conseguir postar os conteúdos. Hoje, onde eu moro já tem internet de qualidade com 5G e a fibra ótica que uso, mas sei que não é uma realidade de todo o meu bairro e nem de outros bairros perifericos da grande Belém”, afirma.

Graduando do curso de licenciatura em Teatro da Universidade Federal do Pará (UFPA), Igor diz que a vivencia no bairro, onde nasceu e se criou, moldou toda a narrativa que figura como pano de fundo para a sua produção. “Eu cresci juntamente com o bairro e sua expansão, e a base do meu conteúdo é observar o cotidiano, em especial o cotidiano periférico nortista”, conta.

“Sempre fui envolvido com as artes desde cedo. Sou cria do Curro Velho, já fui de companhia de circo, cia de comédia, trabalhei com animação de eventos. Se tem uma coisa que a periferia ensina é a se virar e eu sou daqueles que não tem tempo ruim pra trabalho”, garante. Igor reforça que seus conteúdos sempre versam sobre um contexto regional: expressões idiomáticas características da região, das partituras corporais do dia a dia paraense que é feito sem que se perceba. “Como lavar louça com uma perna apoiada na outra, por exemplo”, fazendo referência a uma pose bem comum aos paraenses.

image O multiartista Igor precisou correr atrás dos equipamentos e sinal de internet de qualidade para produzir e divulgar os conteúdos "Tupiniqueen" (Carmen Helena / O Liberal)

Trajetória: referência da e para a comunidade

Produzir conteúdo para a internet, para Igor, surgiu como um hobby em 2019, quando ele criou no Facebook a página “Humor Tuppiniqueen”, onde postava prints de tweets dele mesmo que tinham, já nessa época, uma abrangência mais regionalista. Em 2020, veio a pandemia da Covid-19 e, com todo mundo ficou “preso” em casa, a produção aumentou e ele começou a produzir não somente posts estáticos, mas também vídeos. “No fundo eram mais para eu não pirar por ficar em casa do que para engajar de fato”, recorda.

Em 2021, ele obteve um crescimento que considerou exponencial, fazendo 50 mil seguidores em um mês. A partir daí, virou empresa e produtora de vídeos. Na época, trabalhava em dois estágios, estudava à noite e atuava com animação de eventos nos fins de semana para ter condições de sustentar a si mesmo e à mãe. Mas, com a demanda de trabalho cada vez maior vindo da internet, precisou escolher e hoje, como produtor de conteúdo, tem sua principal fonte de renda e emprega, direta e indiretamente, de cinco a 10 pessoas mensalmente, entre assessor, filmaker, produtor e staff.

“Quando comecei a produzir para a internet jamais imaginei a proporção que isso tomaria. Lembro do dia que recebi um áudio do governador do Estado e fiquei estático e sem reação. Hoje, após três anos de produções, erros e acertos e uma constante reinvenção, tenho como principal objetivo levar o nome do nosso estado para cada vez mais longe. Quero que saibam que na periferia nortista existe muita gente talentosa que só precisa de uma oportunidade, um olhar mais próximo para poder crescer. Meu objetivo é ser a referência que eu não tive e poder devolver pra minha comunidade o que ela meu deu de melhor, inspiração e oportunidade de crescimento”, finaliza.

image “É a existência de um povo forte e plural que me faz ser uma contadora de histórias”, afirma a comunicadora e cineasta Joyce Cursino (Carmen Helena / O Liberal)

É preciso levar a história da periferia adiante

“É a existência de um povo forte e plural que me faz ser uma contadora de histórias”, afirma a comunicadora e cineasta Joyce Cursino, de 26 anos, nascida e criada no bairro do Jurunas, em Belém. Com a carreira iniciada aos 15 anos de idade, como repórter mirim na escola onde estudava, tem um percurso de vida pautado em reverberar a cultura que pulsa nas comunidades periféricas.

A família materna de Joyce é do interior de Bujaru, de onde também diz se nutrir de referências de origem. Profissionalmente amarrada a debates de pautas comunitárias, de direitos humanos e de meio ambiente, passou, na carreira de jornalista, por algumas emissoras e, aos 20, protagonizou a primeira série de TV nacional, como atriz.

“De lá pra cá já foram 4 séries, além de diversos curtas e dois longa metragens, sendo premiada em um deles como melhor atriz coadjuvante. Transitando entre as redações, sets de cinema e publicidade, identifiquei a ausência de pessoas negras e das periferias não só na frente das câmeras, mas também atrás das câmeras, então fundei a Negritar Filmes e Produções, uma produtora de impacto social, cultural e ambiental que tem como objetivo potencializar as narrativas das pessoas pretas, periféricas e de comunidade tradicionais da Amazônia”, explica,

A intenção de Joyce é, além de produzir, difundir e promover formação audiovisual para crianças e adolescentes, por meio do projeto Telas em Movimento, do qual é idealizadora e atua como coordenadora. Atualmente, também integra a Casa Sumaúma e as redes nacionais do Perifaconnecion e do CreatorAcademy, instituições que a levaram para além dos limites territoriais paraenses.

“Sou uma das 30 vozes que transformam a indústria da comunicação em 2022. A curadoria é do Papel & Caneta, organização que existe em 8 cidades pelo mundo e todos os anos lança a lista no Brasil e nos EUA, destacando vozes que têm lutado para mudar o mercado criativo brasileiro. Me sinto feliz e realizada por compartilhar esse momento com tanta gente de luz e luta que não se conforma com desigualdade e exclusão, mas que para além disso, se movimenta para mudar a estrutura e as estatísticas. E tenho em mente e em meu coração que minha jornada só foi possível por conta das pessoas guerreiras, talentosas e inteligentes do meu Pará, pois é a existência de um povo forte e plural que me faz ser uma contadora de histórias e nada mais”, conclui.

Belém Pra Ver e Sentir
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