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ARTE

Santos de madeira e objetos de miriti: artesãos paraenses expressam fé por meio da arte

Os artistas Max Santos e Deuel Fernandes Sarges transformam matéria-prima natural em símbolos carregados de tradição paraense

Lívia Ximenes

30 de agosto de 2026 às 08:00

De imagens esculpidas em madeira de cedro a obras 3D em miriti, artesãos paraenses utilizam da arte feita com as mãos para expressar a fé. Com a chegada do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, que permeia Belém de janeiro a janeiro, os artistas dedicam-se intensamente a peças que carregam sentindo além do religioso — são criadas com afeição e adornadas por cultura. Os trabalhos manuais e minuciosos mostram ao mundo o talento que vem Amazônia.

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Aos 13 anos, Max Santos apaixonou-se por esculturas de madeira, graças ao Mestre Edison. A paixão virou ofício e mais de quatro décadas depois permanece viva. Consolidado como escultor santeiro e restaurador, o artesão diz que está em eterno aprendizado.

“Foi amor ao primeiro toque. Eu o vi [Mestre Edison] trabalhando sozinho em uma peça, não me recordo bem qual era a imagem. Quando a peça tombou, inclinou, eu pulei e segurei”, lembra.

Os calos nas mãos são pequenos comparados ao entusiamo de Max ao compartilhar sobre o trabalho. Segundo ele, não existe algo melhor: “Eu tenho muito amor à minha profissão, muito amor ao que eu faço. Já tive várias oportunidades de fazer outras coisas, mas não tem jeito, é a escultura, é a arte que está no meu sangue.”

Processo de criação

Para criar uma escultura de santo, a primeira etapa é a escolha da madeira. Max explica que a opção mais indicada é o cedro, devido ao bom corte e à resistência a cupins. A madeira nobre é encontrada como branca, vermelha e rosa — sendo a última a preferida do escultor.

Se a encomenda é de uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré, Max logo pega a grande aliada do processo: uma réplica feita de resina da Imagem Peregrina. A peça foi entregue pela Diretoria da Festa de Nazaré (DFN) e contém todos os detalhes, incluindo miudezas das mãos, cabelos, rostos e vestes. Além disso, o item é essencial para que a proporção fique adequada.

O artista também trabalha com restauração de móveis de madeira e imagens de gesso
O artista também trabalha com restauração de móveis de madeira e imagens de gesso (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

“Primeiramente, eu pego uma madeira bruta, corto e deixo o quadrado com a medida dela, com todas as dimensões. Passo um desenho, tudo manualmente, e, depois, vou começando a trabalhar nela”, explica.

O desenho, registrado em papel manteiga, é feito na madeira com auxílio de papel carbono. Utilizando formões, goivas, cinzeis e martelos, o artesão entalha o cedro e, assim, a arte surge. O tempo para entrega de cada peça é relativo, mas costuma durar de um a dois meses, visto que é uma réplica fiel.

Max considera o rosto uma das partes mais delicadas e difíceis de elaborar: “Não adianta você fazer uma peça bonita se não tiver um rosto. Você tem que estar atento muito na proporção, para não ficar um braço mais comprido ou uma cabeça mais comprida. O rosto é o principal, as pessoas olham mais para o rostinho, detalhe da mão, cabelo.”

Além da imagem de Nossa Senhora de Nazaré, as peças que os clientes mais procuram com o escultor santeiro são de Nossa Senhora da Conceição, Santo Antônio e São Francisco. Predominantemente, as encomendas são de Belém, entretanto, Max já produziu esculturas para o Círio de Miami, Filipinas, Manaus, Ourém, Paragominas e Santarém.

Dedicação total

“Quando eu pego uma madeira bruta, eu digo: ‘É agora.’ E vai surgindo, vai criando, ela vai renascendo. Renascendo da madeira, daquele pedaço de cedro bruto. Essa é a magia da criação”, destaca Max sobre fazer imagens, especialmente da Rainha da Amazônia.

Ao ver uma peça pronta, o artista fica satisfeito, porém, a alegria maior surge ao ver o contentamento do cliente. Max se considera o maior crítico do próprio trabalho e ressalta que sempre busca melhorar para entregar esculturas cada vez mais detalhadas. Com isso, o valor costuma surpreender aqueles que desconhecem o ofício.

“Às vezes, nem sempre o cliente é satisfeito com o preço que eu dou, por não conhecer bem o trabalho que é. Há cliente que, realmente, valoriza. A gente sempre dá um jeitinho, porque eu tenho que meu cliente tenha um trabalho [meu]. Eu não tenho uma tabela bem estipulada, procuro me manter assim, atento com o mercado. Também varia muito, porque a madeira vai ficando mais escassa”, explica.

MAX SANTOS | ESCULTOR SANTEIRO
Foto: Ivan Duarte | O Liberal
Foto: Ivan Duarte | O Liberal

Entre as inúmeras histórias memoráveis com frequeses, Max recorda com carinho da vez que ganhou um buquê de rosas. O cliente pediu para que ele levasse a escultura encomendada, uma imagem de São Francisco, até o apartamento onde morava. Ao chegar lá, o artista foi recebido com as flores e profunda gratidão.

“É muito prazeroso você ver um trabalho seu em uma residência. É muito bom. É gratificante ver o reconhecimento. As pessoas olham, agradecem. Isso que é prazeroso, isso que é gostoso”, fala.

Antecedência e organização

O escultor santeiro aponta que o tempo ideal para produzir peças para o Círio de Nossa Senhora de Nazaré é de até três meses — ou seja, se a peça é para outubro, as encomendas devem ser feitas entre junho e julho. A imagem da Rainha da Amazônia deve ser solicitada com antecedência, considerando a organização financeira para o investimento. O trabalho de Max vai desde a escolha da madeira até os desenhos finais da pintura.

“O Círio de Nossa Senhora de Nazaré é o ano todo para mim. Não é só a data, porque eu tenho que me preparar. Como é algo que leva tempo para fazer, tenho que preparar. Termina um Círio e eu já estou me preparando para o próximo. Às vezes o cliente quer dar um presente, às vezes tem uma localidade que quer ter a imagem para peregrinar, então, eles vêm até mim”, comenta.

Além de esculpir imagens de santos em cedro, Max também trabalha com restauração de móveis, faz esculturas em marfim e restaura peças de madeira, marfim e gesso. Em casos específicos, conforme a solicitação do cliente, ele também aplica técnicas de envelhecimento nas peças.

Símbolo cultural

No Pará, é comum que as crianças brinquem com pequenos barcos, bonecos e animais de miriti. Enquanto o paraense cresce, o artesanato o acompanha e os brinquedos tornam-se ou dão lugar a objetos decorativos, também feitos com a matéria-prima amazônica. Entre aqueles que transformam madeira em arte, está Deuel Fernandes Sarges, artesão e artista especializado em arte 3D em miriti.

Deuel Fernandes Sarges transforma miriti em animais 3D
Deuel Fernandes Sarges transforma miriti em animais 3D (Foto: Arquivo Pessoal)

A jornada de Deuel no mundo artístico iniciou aos 10 anos, com pinturas em tela. Em seguida, ele migrou para criações em argila, madeira e isopor. Ao descobrir o miriti, viu que havia semelhanças com o isopor e decidiu uni-lo às pinturas, incorporando técnicas tridimensionais e aplicando realismo.

“Hoje, no miriti, já são 20 anos e conhecido por muitos há 12 anos. Eu vi que não era somente algo simples. Juntando miriti bom, você pode fazer mesas pequenas de centro e até mesas médias, você pode fazer puff que surto até 140 quilos, como eu já testei”, diz.

Deuel explica que a principal vantagem do miriti está na leveza: “É diferente. A madeira pesa, a argila pesa e a cerâmica pesa muito. Já o miriti é uma matéria que é levem você pode fazer peças grandes, como eu já fiz. Eu vi isso, que com o miriti você poderia fazer coisas gigantes e continuaria a leveza, mas isso, também, usando técnicas.”

Orgulho amazônida

As obras de Deuel retratam, principalmente, a riqueza da Amazônia, como fauna, flora e povos que habitam a região. Os animais, por exemplo, se destacam entre as produções. Esculturas e quadros de araras, urubus, papagaios, garças e peixes são os mais procurados.

“Eu costumo fazer um projeto de desenho, muitas vezes só na mente, muitas vezes no papel. Também vou ver a história daquela ave, daquele animal, o tamanho que ele pode ser, que ele pode chegar. Com isso, tendo fazer ele o mais realista possível”, ressalta.

Durante o Círio de Nazaré, brinquedos e decorações de miriti multiplicam em Belém, colorindo a cidade. Entretanto, Deuel observa uma baixa na quantidade de artesãos presentes em feiras e acredita que é necessário investir em mais espaços para os artistas.

“Não estou aqui julgando ninguém, mas posso dizer que o apoio em divulgação de muitas coisas poderia existir para isso ser muito mais forte. Então, fica difícil para você obter espaço, vender. Se perde um pouco dessa importância e visibilidade da tradição”, fala.

O artesão ressalta a leveza do miriti como grande vantagem
O artesão ressalta a leveza do miriti como grande vantagem (Foto: Arquivo Pessoal)

Produção atenciosa

A criação de peças de miriti exite destreza e conhecimento da matéria-prima. Deuel ressalta que quase tudo é aproveitado e, para a pintura, utiliza-se tinta acrílica, à óleo ou esmalte. A finalização é feita com resina, para garantir durabilidade à obra.

“O miriti precisa estar bem seco para, na junção, ficar bem aderente. O restante dele, como a casca mais grossa e pedaços, é reaproveitado na obra de uma forma. Por exemplo, em quadros indígenas são aproveitados os talos que se tiram do miriti para fazer o cabelo e detalhes de penas, quando são pássaros”, comenta.

Para dar sustentação, Deuel também utiliza uma massa própria nas peças, permitindo que a leveza permaneça. Em alguns casos, os itens em 3D chegam desmontados na casa dos clientes, que recebem um manual de instruções para a instalação. Após a conclusão e com preservação adequada, a obra é capaz de durar intacta por mais de 15 anos, de acordo com o artesão.