Os mais de 800 permissionários do Ver-o-Peso oficializaram, na manhã dessa terça-feira (11), o pedido de reconhecimento de Patrimônio Cultural Imaterial ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A cerimônia simbólica ocorreu no Mercado Bolonha e contou com a presença do presidente do Instituto Ver-o-Peso, Mário Lima, e da superintendente do Iphan-PA, Cristina Vasconcelos. A solicitação dos trabalhadores pede o reconhecimento e proteção das práticas, saberes e tradições presentes no mercado desde a fundação.
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A estrutura do Ver-o-Peso, que completa 400 anos em 2027, já é parte do Patrimônio Cultural Material desde 1977. O pedido dos permissionários é para que as atividades do complexo sejam incluídas no Livro de Registro dos Lugares. A mobilização, iniciada pelo Instituto Ver-o-Peso, busca ampliar a valorização dos 28 setores atuantes na área — como hortifrutigranjeiro, erva e peixes —, a comercialização dos produtos e a relação com a natureza.
Mário Lima afirma que esse é um momento histórico para todos os envolvidos nas atividades do complexo, incluindo associações e sindicatos. O presidente do Instituto Ver-o-Peso destaca que, em quase 400 anos de história, o trabalho dos permissionários nunca foi reconhecido. “O Ver-o-Peso tem várias entidades representativas. Com isso, a gente procurou o Iphan, contou a situação e provocou que a gente queria registrar essas atividades”, diz.

Por meio do reconhecimento do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional, as ações serão registradas e não poderão passar por alterações, independente do governo exercido. “Tem que respeitar nossas opiniões, as nossas entidades e a sociedade organizada de Belém, para a gente se manter aqui. As administrações passam, mas nós continuamos fazendo história. Somos nós que movimentamos o Ver-o-Peso. Somos nós que mantemos todo esse espaço, esse complexo vivo”, fala.
Sentimento de pertencimento
Além de presidente do Instituto Ver-o-Peso, há 40 anos Mário Lima atua como permissionário no setor de hortifrutigranjeiro. Ele ressalta que é grato ao complexo por tudo que conquistou: “É um dia que eu nunca mais na vida vou esquecer. Tudo que eu consegui foi através do Ver-o-Peso, e estudei também, graças a Deus. Eu devo muito ao Ver-o-Peso. Sempre vou defender e sempre vou estar ao lado do trabalhador e da trabalhadora do Ver-o-Peso.”
O permissionário Fernando Souza, presidente do Sindicato dos Peixeiros (Sindpeixe), relata que a cerimônia é para somar no trabalho já exercido. Segundo Fernando, os feirantes acreditavam que, com o tombamento em 1977, as atividades estavam resguardadas de igual maneira. “Pouco tempo atrás, a gente veio descobrir que apenas os prédios e as edificações estão protegidas”, explica.

“Dada a importância de todas as atividades que são exercidas no Ver-o-Peso, buscamos o Iphan, para que a gente pudesse ver um mecanisno que a gente poderia fazer para que tragam um projeto para salvaguardar as atividades, que são históricas e vêm de geração em geração”, declara.
Fernando fala que a necessidade do reconhecimento está na proteção para o futuro, que garante que nenhuma atividade será alterada ou retirada do espaço. “Que os trabalhadores, a comunidade como um todo e as autoridades entendam que o Ver-o-Peso só é o Ver-o-Peso porque as atividades são importantes para a vivência”, diz.
Assim como Fernando, o permissionário Daniel Bandeira de Matos, que exerce presidência na Associação dos Balanceiros da Pedra do Peixe (Asbalan), considera essencial o reconhecimento do Iphan. Ele conta que a cerimônia festeja uma conquista para os trabalhadores do complexo: “A gente vem lutando há muito tempo e o medo de perder o espaço é tão grande, porque nós nunca fomos reconhecidos.”

Daniel ressalta que a documentação fortalece, cada vez mais, os anos de vida e trabalho dedicados ao Ver-o-Peso. “É uma emoção muito grande, porque a gente vem com essa luta, e uma felicidade do Iphan em apoiar esse processo. A gente está nessa luta há muito tempo e quem vai ganhar é o trabalhador”, fala.

Reconhecimento do Iphan
Durante a cerimônia, o documento de solicitação foi assinado, inclusive pela superintendente do Iphan no Pará, Cristina Vasconcelos, e entregue ao instituto pelos permissionários. A partir de agora, inicia o levantamento de estudo de conhecimentos culturais do Ver-o-Peso, segundo Cristina. A pesquisa reúne informações sobre significados, simbolismos, sabedorias e tradições do complexo, permeados em todas as atividades exercidas.
“O Ver-o-Peso já começa a ficar recoberto por uma outra proteção, não só a proteção arquitetônica, mas, também, a proteção de bens culturais. É um passo devagar, lento, para a gente entender a história, fazer todo esse contexto, levantamento histórico e entender a importância de cada setor”, explica a superintendente.

Cristina ressalta a imensidão do complexo e, por isso, é necessário entender as dinâmicas culturais de cada seror. Como exemplo, ela cita a Feira de Caruaru, em Pernambuco, que já possui título de Patrimônio Cultural Imaterial.
Sobre os prazos, a superintendente afirma que ainda não é possível prever quando o reconhecimento das atividades dos permissionários será firmado. “Vamos começar a avaliar a documentação apresentada, saber se tem relevância e se está tudo ok. Habilitamos, aí vamos começar a fazer o estudo da nota técnica, que é o momento que vem a equipe para trazer, fazer as escutas e o levantamento, que é o que mais demora”, detalha. Cristina finaliza explicando que, após a coleta de todas as informações, o pedido é enviado para a Superintendência do Iphan em Brasília (Distrito Federal), que define o tombamento.
