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Pais que cuidam, brincam e participam ajudam a construir vínculos para a vida

Psicóloga explica que a presença da figura paterna na primeira infância favorece o desenvolvimento emocional, fortalece a autoestima e influência como a criança estabelece relações ao longo da vida

Amanda Martins
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“A infância é um chão que se pisa a vida inteira”. A frase da escritora gaúcha Lya Luft traduz uma ideia também apontada por especialistas: os primeiros anos de vida são decisivos para o desenvolvimento humano. Neste domingo (9), quando é celebrado o Dia dos Pais, a data também chama atenção para as transformações da paternidade. Se antes a figura paterna era associada principalmente ao papel de provedor, hoje a participação ativa - exercida por pais biológicos ou por outras referências afetivas - ganha espaço nos cuidados, na convivência, nas brincadeiras e na construção dos vínculos que ajudam a formar o desenvolvimento da criança.

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Segundo a psicóloga e psicanalista Lorena Cunha, a presença da figura paterna durante a primeira infância - período que vai do nascimento aos 6 anos completos - desempenha um papel importante na construção da autoestima, da segurança e da identidade da criança. 

O papel da presença na primeira infância

Ela destaca que essa convivência ativa também favorece o desenvolvimento da autoconfiança, da autonomia e da forma como ela estabelecerá relações ao longo da vida. 

"Essas primeiras experiências servem como referência para as conexões que essa pessoa vai construir ao longo da vida. Por isso, é importante que essa função paterna seja exercida, para que a criança tenha diferentes referências afetivas. Quando ela vivencia experiências de cuidado, brincadeiras, alimentação e afeto, essas vivências tendem a deixar marcas positivas e podem favorecer relações mais saudáveis no futuro. Da mesma forma, experiências de violência também deixam marcas e podem influenciar a maneira como essa pessoa vai se relacionar ao longo da vida", explica.

Memórias que passam de pai para filho

Na rotina do contador Rogério Souza, de 53 anos, o vínculo com o filho Roger, de sete, é construído em momentos simples do dia a dia. As atividades que compartilham juntos também carregam uma paixão que atravessa gerações na família.

image O contador Rogério Souza conta que a relação com o filho Roger é construída a partir da presença no cotidiano (Carmem Helena / O Liberal)

Judô, videogame, passeios de carro, churrascos e até plantar juntos fazem parte da convivência entre pai e filho. "Nossa relação é baseada na presença constante, no respeito e na sinceridade mútua", resume Rogério.

Entre as atividades que aproximam os dois está também a paixão pelos automóveis, principalmente carros antigos, um interesse que Rogério herdou do próprio pai, Raimundo, falecido há mais de dez anos. Ele conta que não sabe dizer exatamente quando esse gosto surgiu, mas lembra que nasceu de forma natural, ainda na infância, enquanto acompanhava o pai limpando, consertando e fazendo a manutenção dos veículos.

"Tudo ficava especial ao lado dele. Sigo muitos dos passos que ele me ensinou", recorda o contador.

Hoje, Rogério busca transmitir ao filho não apenas esse hobby, mas também os valores que aprendeu dentro de casa. "Quando estamos montando os robôs de Lego, sempre dou dicas de como melhorar. Depois fazemos 'combates' entre os bonecos e existe uma competitividade saudável. Isso nos aproxima bastante”, explica sobre uma das brincadeiras prediletas da criança.

As lembranças da própria infância também influenciam a forma como ele exerce a paternidade. "Recebi essa educação e procuro passar isso para ele. Para mim, ser pai é estar sempre orientando, de mãos dadas com o filho”, afirma Rogério.

Para Lorena Cunha, são essas experiências vividas no cotidiano que ajudam a fortalecer o sentimento de pertencimento da criança.

"Os maiores benefícios acontecem quando essa criança encontra acolhimento, amor e cuidado desde os primeiros momentos da vida. Isso favorece o pertencimento à família, ao lugar onde vive e ao mundo. Esse talvez seja um dos maiores presentes que um ser humano pode receber", diz a psicóloga.

Quando a paternidade ganha novos significados

Para Rodrigo Coimbra, de 34 anos, a experiência de ser pai foi marcada por diferentes sentimentos. Antes da chegada de Maria Teresa, hoje com dois anos e seis meses, ele viveu a primeira experiência da paternidade com Matheus, seu primogênito, que partiu poucos dias após o nascimento.

image A relação entre Rodrigo Coimbra e Maria Teresa é construída também a partir dos momentos diários de cuidado, brincadeiras e convivência (Thiago Gomes / O Liberal)

A perda precoce ressignificou como Rodrigo passou a viver a paternidade. Pouco tempo depois, veio a notícia de uma nova gestação. Entre as lembranças do filho e a expectativa pela chegada da filha, ele conta que recebeu Maria Teresa como uma oportunidade de construir novos momentos.

"Quando soube da gravidez do meu anjo Matheus foi um misto de sentimentos, felicidade e medos. Eu me perguntava como seria ser pai, porque era uma experiência totalmente nova. Apesar de não ter terminado como queríamos, deixou um legado de aprendizado, ensinamentos, amor e muita fé", contou.

Com a nova gravidez, Rodrigo relata que os receios permaneceram, mas foram acompanhados pela vontade de viver a paternidade. "O medo se manteve diante de tudo que tinha ocorrido, mas a fé era maior. Eu sabia que estava preparado para ser pai, enfrentar os desafios e ser o melhor para essa criança que estava chegando", relembra.

A fé que acompanhou um novo começo

A história da filha também ficou marcada por uma promessa feita durante a Trasladação do Círio de Nazaré. Em 2023, enquanto aguardava a passagem da imagem de Nossa Senhora de Nazaré na Praça do Relógio e a esposa, Jéssica, estava grávida de cinco meses, Rodrigo decidiu que, caso a filha nascesse com saúde, faria o percurso da procissão no ano seguinte de joelhos, carregando a criança nos braços.

image Após fazer uma promessa durante a gestação da filha, Rodrigo Coimbra carregou Maria Teresa nos braços durante a Trasladação do Círio de Nazaré no ano seguinte ao nascimento (Thiago Gomes / O Liberal)

"Quando a berlinda passou, eu fiz minha promessa. Abracei a Jéssica e disse: 'Você sabe o que fiz, não é?'. E ela respondeu que ‘sim’. Só no olhar ela entendeu que minha promessa estava feita", recorda.

Um ano depois, após o nascimento saudável da filha, Rodrigo cumpriu o compromisso durante a Trasladação. "Eu pude realizar o meu sonho, que era carregar minha filha no colo. Quando olho para trás, eu me emociono porque sei que pude viver esse momento", afirma emocionado.

A presença nos pequenos momentos

A participação no dia a dia da filha faz parte da forma como Rodrigo vive a paternidade. Agente de proteção da aviação civil, ele trabalha no aeroporto de Belém em regime de escala e organiza o tempo disponível para acompanhar Maria Teresa e dividir os cuidados com a esposa.

Mesmo diante dos desafios da rotina profissional e do cansaço, ele afirma que procura estar presente nos momentos diários da criança. "Eu dedico todo o tempo que tenho à minha filha e à minha família. Mesmo com as dificuldades e os desafios pela falta de tempo, o fato de você ter uma criança que te recebe com sorriso, alegria, amor e chamando 'papai' faz com que, depois de um dia cansativo, pareça que você recarrega as baterias", conta.

Na rotina dos dois, as noites são momentos de maior convivência. "Ela só dorme com a minha presença. Após brincar, assistir a um filme ao lado dela e vestir o pijama, são momentos que aproveito muito", afirma.

A relação que construiu com o próprio pai também influencia os valores que Rodrigo pretende transmitir à filha. "Meu pai sempre buscou me mostrar as coisas certas, ser humilde, conquistar as coisas através do trabalho. Ele sempre mostrou o melhor, em ser um homem de família e fazer o melhor por todos. Pretendo passar todos esses valores para minha filha", conta.

Para ele, a paternidade é uma responsabilidade construída diariamente. "Ser pai, sem dúvidas, é a maior bênção que pude receber e o meu combustível para encarar todos os dias as dificuldades e desafios, porque eu sei que tem um sorriso que vai me iluminar e um abraço que vai me dar força sempre", diz.

Os vínculos que permanecem

Lorena Cunha reforça que momentos de cuidado e demonstrações de afeto ajudam a formar referências emocionais, mas ressalta que o desenvolvimento humano não segue uma regra fixa.

"Não é uma receita. Não existe uma lógica matemática de que você faz isso e terá determinado resultado. Mas há uma chance maior de que essa criança busque, na vida adulta, relações semelhantes às que vivenciou na infância", afirma a psicóloga. 

 

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