Um cantinho com ares franceses em plena Belém. Essa é a premissa da Bee Pâtisserie Boulangerie, que fica no bairro Umarizal e mistura a culinária da França com a amazônica. Inicialmente, o estabelecimento funcionava com delivery. A paraense Bárbara Carmona, chefe executiva do espaço, conta que, após inúmeros pedidos de clientes, nasceu a loja física, que fica na avenida Visconde de Souza Franco, nº 3, entre a Pedro Álvares Cabral e a Rua Municipalidade. Para ela, esse pode ser o momento de trazer um olhar técnico gastronômico de essência francesa para uma nova “Belle Époque”, época em que a capital ficou conhecida como a “Paris da Amazônia” durante o ciclo da borracha.
Bárbara tem uma extensa bagagem dentro da gastronomia. Formada em padaria, cozinha e confeitaria, ela trabalhou ao lado de Alain Ducasse, um dos chefs mais estrelados no mundo, e com Cédric Grolet, confeiteiro que teve suas sobremesas viralizadas nas redes sociais. Além disso, ela já trabalhou em casas renomadas, como o Le Meurice, um hotel luxuoso cinco estrelas na capital da França.

A partir dessa vivência, ela revela que percebeu a presença da “Amazônia” na alta gastronomia. E, junto com Dannifer Milan, chefe de padaria, montou a Bee Pâtisserie Boulangerie. “Foi quando pensei: ‘Estou com os produtos da minha terra e tenho que voltar para lá e traduzir isso com uma alma amazônica à técnica francesa, que é onde sou especializada’. A pâtisserie se ocupa da confeitaria e a boulangerie, da padaria. Esse é um trocadilho que a gente faz com a ‘Bee’, que é abelha em inglês, e que sonoramente fica muito legal e que também remete à ideia de doce e da força feminina, das abelhas no comando”, explica.
Uma segunda casa
De acordo com Bárbara, a criação do ambiente foi feita para que a comida se destaque mais do que o próprio espaço. Só que sem deixar de lado a hospitalidade aos frequentadores, da mesma forma que acontecia com os primeiros restaurantes criados, em que as pessoas comiam na casa das outras.

“Esse (estilo) escandinavo brutalista condiz muito com a gente e traduzimos essa ideia de contemporaneidade. Claro que colocamos alguns elementos que são nossos, como todo mobiliário daqui foi construído por artesãos da Ilha do Combu. Tem coisas que trouxe da minha casa, que significam muito para mim, como a mesa, o sofá ou um banco. É um espaço que representa casa para nós, nada mais, nada menos do que a hospitalidade”, destaca.
Os produtos
Entre os produtos oferecidos pela Bee, está o clássico croissant, feito a partir de farinha e manteiga francesa, sem aditivos. “Esse é um processo que a gente faz totalmente artesanal. É uma receita ganhadora de Copa do Mundo de boulangerie duas vezes, e uma delas eu estive presente. Todas as técnicas são francesas e temos produtos daqui, e todas as pessoas que estão aqui são formadas do zero. (...) Viemos para cá para favorecer o nosso cliente que mora aqui", disse Carmona.
Para quem também procura culinária brasileira e uma mistura gastronômica, não ficará de fora. “Temos duas receitas brasileiras na casa, que são ‘molhadão’ e o ‘molhadinho’. E, fora isso, a gente consegue fazer essa junção muito legal do croissant Parma-Marajó, que é um croissant que recheamos com queijo do Marajó com o Parma italiano, também sem conservante e corante, com uma cura de 11 meses, só no sal”, disse.
Desafios na cozinha
Segundo Bárbara, a produção de todos os produtos na Bee é cuidadosa e feita em uma sala fria a 16 graus. E, com a necessidade dessa temperatura, o clima em Belém acaba se tornando um dos principais desafios do estabelecimento. Mas que, no final, acaba sendo contornado. “Aqui é muito úmido e muito quente, e faz exatamente o contrário do que o croissant precisa, que necessita estar super seco e frio, para que tenha o folheado de verdade e a crocância. Fazemos um malabarismo para que isso dê certo e dá”, afirma.

“A gente sabe que existe uma consciência de como vamos nos alimentar. Então o iogurte que a gente faz é caseiro, tem lactobacilos e faz toda a fermentação, que é para promover uma qualidade na microbiota do nosso cliente. O pão tem 60% de hidratação, que é para o cliente consumir mais água do que farinha e não ficar ‘pesadão’. Temos todas essas preocupações com a saúde do nosso cliente”, acrescenta.
Para a chefe executiva da Bee, locais como esse elevam o patamar da confeitaria e da padaria, principalmente para quem deseja atuar no ramo. “Você está comendo um ovo, mas é o melhor da sua vida, com técnicas francesas e todos os preparos de ‘luxo emocional’. E pessoas que estão se formando agora e que não viam como possibilidade de se tornarem padeiras ou confeiteiras, porque era desvalorizada a cozinha. A gente quer mudar esse cenário, trazendo isso como uma profissão respeitada e séria”, finaliza.
Experiência de quem vive na França

A artista e fotógrafa Clarice Siqueira, 32 anos, mora em Paris e adorou o local. Para ela, é possível gostar do que vem de fora, sem esquecer as próprias raízes. “Lá (França) não temos o costume de comer croissant recheado, mas acho que esse é o diferencial com o queijo marajoara e produtos da nossa região. Achei incrível (o ambiente). Cheguei em Belém no dia 31 de julho e gosto muito de tomar um flat white (bebida de café), e não tem em nenhum lugar, só achei aqui e está maravilhoso”, relata.