Produção artesanal de chocolate transforma economia de comunidade em Barcarena
Através do cacau nativo de várzea, Elda Mota cria produtos inovadores de chocolate, que já foram degustados até por comitivas de países durante a COP 30
Uma tradição que começou no quintal de casa se tornou uma nova fonte de renda e vem ganhando o mundo por meio de um chocolate 100% artesanal. Esse é o trabalho desenvolvido na Arauaia Cacau de Origem, uma iniciativa realizada na comunidade ribeirinha Rio Arauaia, em Barcarena, que vem ampliando seus negócios e impulsionando o turismo na região.
O empreendimento é liderado por Elda Mota e atua em toda a cadeia produtiva do cacau, desde a retirada do fruto até o beneficiamento e a transformação em dezenas de produtos de chocolate. Esse trabalho ancestral foi passado de geração em geração e hoje é a principal fonte de renda de muitos ribeirinhos banhados pelo rio Arauaia.
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“A minha avó fazia chocolate do ‘pão do cacau’. Primeiro ela descascava o cacau, transformava as amêndoas e batia no pilão para fazer a massa do cacau. Ela melava essa massa no pilão, que então virava um ‘pão de cacau’, era como ela chamava essa massa dura. E quando chegavam visitas em casa, ela oferecia chocolate quente, feito desse pão do cacau. Eu cresci vendo isso, mas só transformei em negócio quando montamos uma cooperativa de mulheres, que passou a criar o chocolate feito com o cacau daqui”, explica Elda.
A empreendedora destaca que se interessou em se profissionalizar ainda mais depois de receber a visita de alunos de universidades, que se deslumbraram com o chocolate oferecido por Elda. Eles compartilharam informações técnicas sobre a grande variedade de produtos que poderiam ser criados a partir daquele cacau, despertando uma nova perspectiva na produtora.
“A partir daí começamos a participar de feiras em Belém, para conhecer novas pessoas e novas técnicas. Tinha a cozinha show, em que um chefe chocolatier ofertava cursos, e eu fazia esses cursos, fui me aprimorando. Passou um tempo e a cooperativa acabou. Mas eu não queria acabar, porque aquilo era muito bom, porque não vendíamos apenas um produto de qualidade, vendíamos nossa história, e é por isso que continuo com a Arauaia até hoje”, salienta Elda.
A Arauaia Cacau de Origem não vende apenas o chocolate em sua forma primária. O conhecimento adquirido por Elda floresceu em dezenas de produtos únicos, como amêndoa de cacau caramelizada, creme de chocolate 70%, creme de chocolate com cupuaçu, geleia de cacau, trufas regionais, brigadeiro de amêndoa de cacau, entre outros.
Todos esses produtos ganharam ainda mais destaque durante a COP 30, realizada em Belém de 10 a 21 de novembro de 2025. Segundo Elda, comitivas de diversos países visitaram sua empresa, todas convidadas a partir do projeto Turismo de Base Comunitária, uma iniciativa da Hydro que incentiva o desenvolvimento local ao criar roteiros turísticos focados nas belezas naturais e no artesanato de comunidades de Barcarena.
“Eles vieram conhecer como é uma fábrica artesanal de chocolate. Na época, eu fiz um barracão para receber essas visitas e nunca imaginei que iriam chegar tantas pessoas. Vieram equipes de 17 países diferentes aqui em casa, quase todos os dias, e era muito legal mostrar a nossa rotina de produção a eles. Eles ficavam encantados com tudo. Levávamos até para o terreno onde a gente colhe, mostrávamos os processos e eles ficavam maravilhados com as nossas árvores centenárias, porque o nosso cacau é nativo de várzea. A gente brinca em dizer que ele tem o ‘gosto da maré’, porque a maré sobe e desce nele todos os dias, ele é diferente”, conta Elda.
Os produtos da Arauaia Cacau de Origem já se estabeleceram no mercado de chocolate e vêm ganhando mais projeção com o crescimento do negócio. Recentemente, a empresa foi selecionada pelo edital Embarca Amazônia, outra iniciativa da Hydro que ajuda empreendedores com aporte financeiro, além de consultorias para impulsionar os negócios.
O projeto ainda está em andamento, mas, assim que for concluído, Elda espera comprar uma máquina para sua fábrica de chocolate, o que irá expandir a produção e o alcance das vendas.
Segundo Elda, todo esse progresso visa beneficiar não apenas a sua própria família, mas também outras mulheres. A empreendedora salienta que, por meio do cacau, deseja ajudar toda a comunidade do Rio Arauaia.
“O meu futuro, que eu sonho, é terminar de construir a minha fábrica, fazer uma loja aqui na frente de casa, fazer desse lugar um ponto turístico permanente, para todo mundo vir aqui comprar o chocolate. Também quero vender para restaurantes, hotéis e algumas lojas. E também tenho muita vontade de dar certo, para dar emprego para a minha comunidade, porque tem muitas mulheres que não têm emprego, e eu penso muito nisso, nelas trabalharem na produção e ganharem o dinheiro delas também”, conclui a empresária.
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