Um símbolo da necrópolis na Amazônia

Raisa de Araújo*
Foto histórica dos corredores do Cemitério da Soledad. (site Fórum Landi)

Você já se imaginou visitando um cemitério em uma viagem? Poucas pessoas programam fazer um passeio por um espaço que abriga os corpos de quem nem sequer conhecem. Mas, em 2010, o Conselho de Turismo da União Europeia reconheceu a Rota Europeia de Cemitérios como itinerário cultural do bloco. Contém 49 cemitérios localizados em 37 cidades de 16 países europeus.

Todos esses lugares preservam a história de cada cidade e, quando o quesito é arquitetura, são verdadeiras relíquias. O que surpreende é que aos poucos essas esculturas e histórias vão tomando forma de algo familiar. Na verdade, não precisamos ir muito longe para encontrar um tesouro a céu aberto aqui mesmo, em Belém do Pará

Entrada principal do Cemitério da Soledad. (Junnior Belém)

Construído por volta do ano de 1850, o Cemitério da Soledad nasceu no auge das epidemias de febre amarela, varíola e cólera, responsáveis por dizimar cerca de 30 mil pessoas. Foi construído com a intenção de ser a necrópole oficial dos nobres paraenses. O Cemitério da Campina, que deu lugar à Praça da República e ao Theatro da Paz, ficou para o enterro de escravos e indigentes.

Do mesmo período, 1855, e pelas mesmas circunstâncias, o Cemitério Agramonte, no Porto, em Portugal, preserva similaridades com o da Soledad, como as estátuas, a capela central e estilo fúnebre e de necrópoles. A diferença? O de Agramonte, além de muito bem-preservado, foi agraciado com o “selo” da Rota de Cemitérios Europeus e, hoje, faz parte do roteiro de muitos viajantes.

Imagem do Cemitério de Agramonte e que se assemelha um pouco com a disposição do Cemitério da Soledad. (Jorge Garcia. Direitos autorais Câmara Municipal do Porto)

Mas se essa visitação é assustadora para alguns, para outros é motivo de muita curiosidade e investigação. A estudante de design Naiumi Malcher conta que, desde quando passou a ter mais autonomia sobre os espaços urbanos, começou a reparar na sutileza dos cemitérios históricos em Belém. “O estilo fúnebre dessa época dos mausoléus é herdado e espelhado nas necrópoles europeias. Até mesmo as suas disposições no túmulo, na forma de percorrer o local, são inspiradas nos cemitérios europeus. Toda essa composição é uma das coisas que mais me chama atenção nessas construções”, explica Naiumi.

Imagem de uma das esculturas do Cemitério Agramonte, muito similar às esculturas paraenses. (Jorge Garcia. Direitos autorais Câmara Municipal do Porto)

O Cemitério da Soledad não passou por nenhuma restauração ao longo do tempo. Abandonado à própria sorte, esse patrimônio da arquitetura e até mesmo do design do século XIX, com um grande valor histórico para a cidade, só ficou ativo por 30 anos – até 1880 –, quando foi constatado que o solo era impróprio para enterrar pessoas. 

“Mesmo depois de os sepultamentos terem sido encerrados em 1880, devido às condições do solo e o cemitério ser considerado um museu a céu aberto, a restauração do espaço ainda é um grande mistério. Vale lembrar que este cemitério foi tombando pelo IPHAN em 1964, então ele não deveria estar tão abandonado assim", debafa Naiumi Malcher.

Uma das primeiras esculturas que se vê quando se chega ao Cemitério da Soledad. (Antonio Luz)

*A jornalista Raisa Araújo escreve a coluna Minuto no Mundo no perfil @raisaaaraujo no Instagram e foi convidada pelo Bagagem para fazer este post.

Especial
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