Quase metade dos pais já bateu nos filhos, aponta pesquisa; 91% defendem diálogo

Maioria dos adultos defende diálogo, mas admite recorrer a gritos e tapas, apesar da Lei da Palmada proibir castigos físicos

O Liberal, com informações de Estadão Conteúdo
fonte

Uma pesquisa divulgada nesta terça-feira (14) revela uma contradição na educação parental no Brasil. Conduzido pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis) em parceria com a Quaest, o estudo "Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes" mostra que a maioria dos adultos brasileiros defende o diálogo como método de educação, mas admite o uso de gritos e violência física contra as crianças.

O levantamento, que ouviu 2.202 brasileiros com 18 anos ou mais em 128 municípios, foi realizado entre 29 de maio e 7 de junho de 2026.

Gritos e tapas: a contradição da educação parental

Ao serem questionados sobre a melhor forma de educar, 91% dos entrevistados defendem a conversa como principal estratégia. Contudo, quando o assunto migra para experiências pessoais, o cenário se inverte drasticamente:

  • 62% admitem já ter gritado com uma criança;
  • 49% dizem ter dado tapas;
  • 27% afirmam ter usado objetos para bater.

"O que choca é a naturalização da violência. O brasileiro não tem receio em assumir que pode dar um tapa em uma criança. É mais normal do que os que assumem que gritam", explica Felipe Nunes, CEO da Quaest.

Paralelamente, 74% dos participantes consideram que a violência contra crianças e adolescentes aumentou nos últimos anos. A diretora executiva do Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), Márcia Kalvon, resume o desafio:

"A pesquisa mostra que ainda existe uma lacuna significativa entre aquilo que os brasileiros consideram correto e aquilo que acontece na prática. Apesar do avanço na legislação e conscientização sobre os direitos das crianças", avalia Kalvon.

Lei da Palmada proíbe castigos físicos

Criada em 2014, a Lei da Palmada garante a crianças e adolescentes o direito de serem educados sem o uso de castigos físicos ou tratamento cruel. Práticas como beliscões, puxões de cabelo e palmadas corretivas são proibidas.

A legislação se aplica a pais, integrantes da família, responsáveis ou qualquer pessoa encarregada de cuidar, educar ou tratar da criança. A norma alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para vedar qualquer ação que cause sofrimento ou lesão.

Silêncio diante da violência infantil

O estudo também aborda a reação de terceiros. Diante da cena de uma criança levando palmadas ou puxões de orelha em um espaço público, 62% dos entrevistados afirmam que não fariam nada.

Em 2023, na primeira edição do levantamento, este percentual era de 64%, indicando uma pequena variação. Segundo os pesquisadores, a educação dos filhos segue sendo vista como um assunto privado, no qual a maior parte das pessoas prefere não se envolver.

Leve melhora em práticas violentas, mas diálogo recua

Em comparação com 2023, houve uma pequena melhora em alguns comportamentos dos pais. Na primeira edição do levantamento:

  • O percentual dos que gritavam caiu de 66% para 62%;
  • Quem admitia dar tapas reduziu de 52% para 49%;
  • O uso de objetos para bater teve uma queda mais acentuada, passando de 38% para 27%.

Entretanto, o apoio ao diálogo recuou de 93% para 91%, embora ainda se mantenha amplamente majoritário entre as formas preferidas de educação.

Ameaças e restrições como método educativo

Mesmo entre aqueles que rejeitam a violência física, o estudo identifica a prática de métodos que se assemelham a ameaças. Para 47% dos entrevistados, castigos que restringem o lazer são vistos como ideais e aceitáveis.

Além disso, 37% consideram aceitável gritar com crianças, e 35% avaliam que é aceitável ameaçar bater, mesmo que a agressão não seja concretizada.

Ciclo da violência: reprodução e quebra de padrões

O levantamento associa a experiência pessoal à tolerância com punições. Quem relata ter sido mais punido na infância tende a aceitar mais a punição na vida adulta e a reproduzi-la com crianças sob sua responsabilidade.

Contudo, uma parte dos entrevistados consegue romper com o padrão aprendido, rejeitando repetir o que vivenciou. Márcia Kalvon reitera a importância do estudo:

"O País já reconhece, em grande medida, que gritos, tapas e ameaças machucam. Falta transformar essa percepção em rotina, dentro de casa, na escola e nas ruas", avalia a diretora. "O monitoramento regular de pesquisas como esta deve mostrar, nos próximos anos, se o Brasil consegue, de fato, aproximar o discurso de diálogo da prática com suas crianças", conclui.

Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞
Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱
Variedades
.
Ícone cancelar

Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo!

Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é.

Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos.

Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!