Fátima Albuquerque, presidente da Associação de Familiares das Vítimas da Voepass, expressou sua indignação após o indiciamento de 16 pessoas pela Polícia Federal. As investigações estão relacionadas à queda do voo 2283.
Sua filha, a médica Arianne Risso, 34 anos, estava entre as vítimas do acidente aéreo ocorrido há cerca de dois anos em Vinhedo, no interior de São Paulo.
"Eu falo desde o primeiro dia (após o acidente): eles mataram a minha filha", declarou Fátima em conversa com o Estadão. A fala ocorreu nesta quinta-feira, 6, após a apresentação do relatório da investigação da PF.
A Polícia Federal indiciou 16 pessoas, a maioria pelo crime de atentado à segurança no transporte aéreo. Segundo os investigadores, funcionários da Voepass, incluindo diretores e comandantes, mantinham uma "cultura" de não reportar falhas nos sistemas das aeronaves.
Cultura de falhas e o acidente
Essa cultura incluía ocorrências envolvendo o sistema de degelo. O não funcionamento correto deste sistema durante o voo fatal de Cascavel (PR) para Guarulhos (SP) contribuiu para a queda do ATR.
"Ali, naquela empresa, tinha um modus operandi que fazia os funcionários cometerem crimes", afirmou Fátima. Ela completou: "Eles sabiam que estavam fazendo uma gambiarra, sabiam que estavam burlando a fiscalização e colocaram em risco a vida das pessoas".
O sentimento de Fátima em relação ao indiciamento é de esperança. Ela espera que a justiça seja feita. "Então, isso nos traz, a todos os familiares, uma esperança de que haja Justiça pelos nossos, mas, principalmente, uma Justiça para servir de exemplo, para nunca mais acontecer isso", disse a mãe de Ariane.
Próximos passos da investigação
O inquérito será analisado pelo Ministério Público Federal (MPF), que poderá solicitar a prisão dos indiciados. Por causa de uma medida cautelar, os 16 investigados estão atualmente impedidos de deixar o País.
Repercussão entre familiares
Bianca Feller, advogada e sobrinha de uma das vítimas da queda do avião, também integra a equipe de defensores da associação. Ela contou ao Estadão que perder um familiar em uma "tragédia que poderia ter sido evitada" é "inexplicável".
"Ele poderia estar aqui. Tudo isso poderia ser evitado se a empresa tivesse condições de voar. Foi um crime. Não foi um acidente. Foi um crime aéreo", disse Bianca.
A advogada acredita que a apresentação do relatório da investigação, na semana em que o acidente completa dois anos, é simbólica. Para ela, representa o fechamento de um ciclo.
"A gente encerra uma etapa, mas inicia outra ainda mais importante, que é a luta por justiça. Para que haja a denúncia nos termos do indiciamento, o processo criminal e a condenação, para que eles sejam punidos na forma da lei", afirmou Bianca Feller.
Para Adriana Ibba, mãe da vítima mais nova do acidente, uma menina de 3 anos, os indícios de crime apresentados pela polícia foram surpreendentes. "Eu já sabia que tinha muita coisa errada, mas não nesse nível. Porque a gente está falando em fingir fazer manutenção de aeronave. É incabível isso. Me surpreendeu muito", declarou.
O que diz a Voepass
Em nota, a Voepass informa que a segurança operacional sempre foi sua prioridade. A companhia afirmou ter adotado rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações previstos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) por mais de 30 anos.
A empresa reforça que sua atuação sempre esteve pautada pelos mais elevados padrões de segurança da aviação. Ela conta, desde 2012, com a certificação IOSA, concedida pela IATA a companhias aprovadas em auditoria internacional de segurança operacional.
Os treinamentos de pilotos contemplavam os procedimentos previstos para o enfrentamento de condições de formação de gelo. Incluíam medidas como alteração de altitude e velocidade, conforme orientações do fabricante da aeronave e protocolos operacionais.
A Voepass declarou que a tripulação do voo 2283 era composta por profissionais experientes. Eles eram devidamente habilitados e certificados, somando mais de 5 mil horas de voo, com treinamentos e avaliações médicas atualizados.
Desde o início das investigações, a Voepass colaborou integralmente com as autoridades. Disponibilizou documentos, diários de bordo, registros operacionais e relatórios técnicos ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e à Polícia Federal.
A companhia compreende que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória. Ela aguardará os próximos desdobramentos processuais e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa.
A Voepass reitera sua solidariedade às famílias das vítimas e reafirma que permanece à disposição das autoridades e instituições.