Entenda como o PCC virou alvo de Donald Trump; facção tem mais de 2 mil 'soldados', em 28 países
Organização criminosa, com presença em 28 países, representa ameaça real e crescente nos Estados Unidos, aponta documento
O Departamento do Tesouro americano classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) como a "maior organização criminosa do Hemisfério Ocidental" em um documento publicado na quarta-feira, 1º. Segundo o comunicado, a facção é hoje a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental e expandiu suas operações globalmente nos últimos anos.
O documento detalha que o PCC possui presença significativa em países como Reino Unido, Turquia e Japão. Nos Estados Unidos (EUA), a facção representa uma ameaça criminal real e crescente, explorando o sistema financeiro do país para lavar dinheiro proveniente do tráfico de drogas.
A atuação do grupo na lavagem de dinheiro, no tráfico de drogas e no contrabando de dinheiro em espécie constitui uma ameaça crescente à segurança nacional americana, conforme o governo dos EUA.
A origem do Primeiro Comando da Capital
O Primeiro Comando da Capital (PCC) teve sua origem na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, no Vale do Paraíba. Esse local, conhecido como "Piranhão", era visto pelos detentos da época como um castigo devido às condições precárias e às frequentes brigas entre os presos.
O Massacre do Carandiru, que resultou na morte de 111 presos na zona norte de São Paulo em 1992, intensificou ainda mais a tensão no presídio. A primeira demonstração de força do PCC ocorreu em 31 de agosto de 1993, durante um campeonato de futebol.
Nesse dia, oito detentos, liderados por nomes como Geleião e Cesinha, emboscaram dois presos rivais (Baiano Severo e Garcia) em uma quadra, culminando na fundação do Primeiro Comando da Capital. Na primeira década após sua fundação, o PCC caracterizou-se por uma ofensiva explícita contra o Estado, influenciada por líderes como Cesinha, Sombra e Geleião.
Ascensão de Marcola e operações internacionais
Com a ascensão de Marcola, o PCC transformou-se, adotando um caráter mais próximo ao de "irmandades secretas". A organização implementou uma regulação mais estruturada das atividades criminosas e estabeleceu proibições expressas para seus membros.
Em contrapartida, foram concedidos benefícios e proteção aos presos. Essa fase foi crucial para consolidar o PCC como a principal força do narcotráfico no Brasil.
O foco da facção mudou para a ampliação de sua presença no cenário internacional. Essa mudança foi uma resposta às condenações de lideranças históricas, às transferências de membros da cúpula para presídios federais e às novas medidas das autoridades para dificultar a comunicação prisional.
No início dos anos 2000, o uso de celulares teve um papel central na expansão do PCC.
Casos recentes de violência e envolvimento
As autoridades têm intensificado os esforços para sufocar financeiramente a organização. Histórias recentes ilustram a reconfiguração do PCC diante dessa nova dinâmica. Nomes como André do Rap, Fuminho e Cabelo Duro, influentes na Baixada Santista, ganharam destaque na organização e acumularam riquezas através do crime.
Em 2018, Gegê do Mangue, uma das principais lideranças do PCC nas ruas, proibiu o uso da estrutura da facção para fins particulares, suspeitando da atuação do trio. Gegê foi assassinado a tiros em uma suposta emboscada em Aquiraz, no Ceará. Uma semana depois, Cabelo Duro, apontado como assassino a mando de Fuminho, também foi morto.
Essa revelação abalou a organização, pois Gegê era um "irmão" batizado, e Fuminho não, o que significava que ele não poderia ter ordenado a execução de Gegê sem a aprovação da "Sintonia Final", a cúpula mais alta do grupo.
Uma das demonstrações mais recentes do poderio bélico do crime organizado foi a execução de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, delator do PCC, morto a tiros de fuzil em novembro de 2024, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo. Gritzbach era investigado por lavar dinheiro para a facção e colaborava com o Ministério Público do Estado (MP-SP).
O ataque também resultou na morte do motorista de aplicativo Celso Araújo Sampaio de Novais, de 41 anos, alvejado nas costas. As investigações revelaram o envolvimento de forças de segurança no crime organizado. O soldado Ruan Silva Rodrigues, o cabo Denis Antônio Martins, apontados como atiradores, e o tenente Fernando Genauro da Silva, acusado de conduzir a dupla, foram presos preventivamente.
Acusados por dois homicídios consumados qualificados e duas tentativas de homicídio qualificadas, os policiais militares (PMs) podem enfrentar um mínimo de 51 anos de prisão. O PCC também é apontado pelo MP-SP como mandante do assassinato do ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes, conhecido por sua atuação contra a facção.
Ruy chefiou a Polícia Civil paulista entre 2019 e 2022 e, em 2006, indiciou toda a cúpula do PCC, incluindo Marco Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola. O Ministério Público afirma que o crime foi ordenado pelo alto escalão do Primeiro Comando da Capital como vingança.
A presença global do PCC
Conforme reportagem do Estadão publicada em junho de 2025, o PCC possui mais de 2 mil "soldados" distribuídos por, no mínimo, 28 países, além do Brasil. Esse mapeamento foi realizado pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP).
Na Europa, as maiores concentrações de membros da facção são:
- Portugal: 87 criminosos
- Espanha: 26 criminosos
- França: 11 criminosos
- Holanda, Irlanda e Itália: 3 criminosos cada
- Bélgica, Inglaterra e Suíça: 2 criminosos cada
- Alemanha, Sérvia e Turquia: 1 criminoso cada
Globalmente, as maiores concentrações de "soldados" do PCC, depois do Brasil, estão em países da América do Sul. De acordo com o levantamento, que é do final de 2023, a situação era a seguinte:
- Paraguai: 699 integrantes
- Venezuela: 656 criminosos
- Bolívia: 146 membros
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