Alerta: A reportagem abaixo trata de temas como suicídio e transtornos mentais. Se você está passando por problemas, veja ao final do texto onde buscar ajuda.
Um laudo do Instituto de Criminalística de São Paulo (IC) revelou que Gustavo Muniz de Santana, de 20 anos, foi atingido por ao menos 12 tiros. Ele morreu em uma abordagem policial em Moema, na zona sul de São Paulo, no início do mês.
O documento indica que os policiais militares realizaram 45 disparos durante a ação. Gustavo morreu no local. Após o caso, os agentes envolvidos foram afastados de suas atividades pela Secretaria da Segurança Pública (SSP).
A SSP informou, em nota, que "não tolera desvios de conduta de seus agentes e apura com rigor as circunstâncias do caso". Quatro dos disparos que atingiram Gustavo foram fatais, sendo três no tórax e um no abdômen. Os outros oito atingiram a vítima de raspão.
Detalhes da Ocorrência e Investigação
Câmeras de segurança registraram o momento em que Gustavo Munis de Santana foi atingido por quatro policiais militares no dia 10 de outubro. A versão dos agentes no boletim de ocorrência (BO) afirma que a equipe foi acionada por uma pessoa "transtornada" que ameaçava tirar a própria vida.
Segundo o registro policial, o jovem se abrigou em um imóvel e, ao sair de uma área escura, correu em direção aos policiais com os braços estendidos, apontando um "objeto escuro". As imagens das câmeras de segurança mostram Gustavo levando as mãos à cintura, pegando um celular e apontando-o na direção dos policiais.
O BO relata que os PMs confundiram o celular com uma arma de fogo e atiraram 45 vezes. As imagens também mostram que Gustavo foi baleado quando já estava no chão. Um dos policiais efetuou 14 disparos, enquanto as pistolas calibre .40 têm capacidade para até 15 tiros. O boletim registrou que Gustavo foi atingido por ao menos 27 tiros.
Gustavo Munis de Santana não possuía antecedentes criminais. Ele morava com a família, fazia tratamento psiquiátrico e usava antidepressivos desde o ano passado. A morte gerou revolta entre familiares e amigos.
Em entrevista, a mãe de Gustavo, Santiana Munis, questionou a conduta dos agentes: "Em caso de suicídio, você vai lá e mata?". Ela defendeu que os policiais estavam diante de alguém em surto psicológico, não de um criminoso.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) reiterou que não tolera desvios de conduta e investiga as circunstâncias da morte com rigor. A pasta garantiu que eventuais irregularidades resultarão em punição.
Os policiais envolvidos foram afastados das atividades operacionais. As armas foram apreendidas para perícia e as imagens das câmeras corporais estão em análise. O caso é investigado pela Polícia Civil, por meio do DHPP, e pela Polícia Militar, que instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) com acompanhamento da Corregedoria da PM.
Revisão do Protocolo de Abordagem Policial
Após três pessoas em situação de surto serem mortas em abordagens policiais em 15 dias, incluindo o caso de Gustavo Munis, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), admitiu a necessidade de rever o protocolo de abordagem da Polícia Militar.
"A gente tem conversado e esses casos nos fizeram refletir sobre os procedimentos", afirmou o governador. Ele mencionou uma reunião com o comando da Polícia Militar para revisar procedimentos e treinamentos, visando impedir excessos.
Tarcísio ressaltou que as circunstâncias de cada morte estão sendo investigadas separadamente para esclarecer a reação dos policiais. Ele reconheceu que há situações em que agentes enfrentam ameaças, mas enfatizou a necessidade de avaliar a atuação da corporação, afirmando que "a polícia tem que proteger a sociedade".
A declaração ocorreu após a morte de uma mulher com comportamento alterado e uma faca na mão, baleada na cabeça por um policial militar em Pirituba, zona norte de São Paulo, no dia 15 de outubro.
O protocolo estabelece que policiais devem priorizar o diálogo e a preservação da vida. A orientação é acionar equipes especializadas e profissionais de saúde sempre que possível. A resposta policial deve considerar as circunstâncias, permitindo intervenção imediata com arma de fogo como último recurso, respeitando necessidade e proporcionalidade, diante de ameaça iminente.
Outro caso de morte em abordagem policial neste mês foi o de Antônio Nunes Batista, de 40 anos, baleado e morto na Vila Dionísia, zona norte de São Paulo. A PM atirou 24 vezes. Segundo a família, Batista tinha esquizofrenia.
Onde Buscar Ajuda e Apoio
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar apoio:
- Centro de Valorização da Vida (CVV): Serviço gratuito de apoio emocional com atendimento 24 horas. Contato por e-mail, chat no site ou telefone 188.
- Canal Pode Falar: Iniciativa do Unicef para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. Contato via WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.
- SUS (Caps): Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde para atendimento de pacientes com transtornos mentais. Endereços na cidade de São Paulo disponíveis em página específica.
- Mapa da Saúde Mental: Site com mapas de unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Também oferece materiais de orientação sobre transtornos mentais.

