Butantan anuncia R$ 1,8 bi para ampliar oferta de vacinas e Padilha fala em 'resposta a Trump'
O Instituto Butantan anunciou nesta segunda-feira, 9, investimentos de R$ 1,8 bilhão para ampliar e modernizar sua produção de vacinas e soros. Cerca de R$ 1,4 bilhão virá do governo federal, por meio do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e o restante virá de recursos do instituto.
Os principais focos são uma nova plataforma de produção de vacinas de RNA mensageiro (mRNA), com aporte de R$ 76,1 milhões do Ministério da Saúde, e a construção de uma fábrica para produzir imunizantes contra o papilomavírus humano (HPV), com R$ 495,9 milhões destinados pelo governo federal.
Também estão previstos, segundo o ministério, R$ 550,7 milhões para a reforma da unidade de produção da vacina DTpa, que protege contra difteria, tétano e coqueluche, e R$ 232,5 milhões para a expansão da unidade de produção de soros, permitindo dobrar a capacidade anual de 600 mil frascos para 1,2 milhão, e a criação de uma nova área de envase e liofilização. Com o novo espaço, o instituto terá capacidade para envasar anualmente 5,2 milhões de frascos na forma líquida e 7,1 milhões de doses na forma liofilizada, tanto de soros como de vacinas.
Vacinas de mRNA e a resposta a Trump
Uma das mais promissoras da atualidade, a plataforma vacinal de RNA mensageiro permite a produção de vacinas em larga escala de forma rápida, como ocorreu na pandemia de covid-19. Diferentemente das vacinas convencionais, que são produzidas a partir do próprio agente infeccioso morto ou atenuado, a vacina de mRNA é produzida de forma sintética utilizando parte da sequência genética do microrganismo.
"A gente quer se apropriar dessa tecnologia", disse o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, na cerimônia de assinatura das ordens de serviço para início das obras, realizada nesta segunda-feira, em São Paulo. "É um tipo de tecnologia que rapidamente pode prover vacinas para patógenos de comportamento desconhecido, sem vacinas. Podemos ter uma resposta rápida para situações de pandemia", completou.
Segundo Padilha, a construção de plataformas industriais de vacina de mRNA e o financiamento em pesquisa e produção desses imunizantes também representam uma reposta à política de Donald Trump, que cortou investimentos públicos na área.
"Hoje, Trump lidera um governo antivacina e negacionista, a ponto de ter feito algo que eu nunca imaginei que iria ver nos Estados Unidos", criticou o ministro, mencionando a quebra do contrato do governo norte-americano com a empresa que pesquisava vacinas de mRNA devido a uma tese conspiratória. "Por conta disso, eles pararam de produzir, estão perseguindo quem pesquisa vacina RNA mensageiro, cortaram os financiamentos, e o mundo está dando a resposta para isso."
Padilha também afirmou que pesquisadores norte-americanos que estão sendo perseguidos nos EUA e que tiveram seus recursos cortados já estão colaborando com o Butantan, a Fiocruz e universidades brasileiras.
"Vai ser difícil convencer a sociedade a voltar a tomar vacina como antigamente, mas temos que (tentar) até que a gente convença as pessoas de que tomar a vacina significa evitar a possibilidade de que, em algum momento, a natureza possa atrapalhar a vida", acrescentou o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante evento.
Inicialmente, a unidade de desenvolvimento e produção de vacinas mRNA será utilizada para a elaboração de um imunizante contra covid-19 e outro contra raiva e terá capacidade produtiva de 15 milhões de doses.
Segundo Esper Kallás, diretor do Instituto Butantan, o objetivo é terminar a obra em aproximadamente um ano. "Ela acomodará a vacina contra a covid-19 (fruto de uma Parceria de Desenvolvimento Produtivo com a Moderna) e o Butantan tem a ambição de ser um dos principais centros de desenvolvimento dessa tecnologia, não apenas para vacinas, mas para diversas áreas, incluindo a produção de resposta imune para o enfrentamento do câncer."
Vacina HPV
A vacina HPV protege contra os tipos mais frequentes do papilomavírus humano (HPV), associado a um dos cânceres que mais matam mulheres no Brasil, o câncer do colo do útero, e a tumores de vulva, vagina, pênis, ânus e orofaringe.
O prédio que será construído com o investimento viabilizará a produção do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) diretamente no Instituto Butantan e terá capacidade produtiva para 20 milhões de doses ao ano.
Atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece a crianças, adolescentes e grupos prioritários a vacina quadrivalente, que protege contra quatro tipos do vírus. Padilha disse não descartar, porém, a oferta da versão nonavalente, hoje disponível apenas na rede particular.
"Esses investimentos permitirão que possamos diversificar e aumentar nosso fornecimento ao SUS de produtos essenciais para a saúde das pessoas, como a vacina contra o HPV, que protege as mulheres contra diferentes tipos de câncer, e desenvolver nossa plataforma de mRNA, tecnologia de ponta que nos permitirá dar respostas mais rápidas às exigências da saúde pública", afirmou Kallas.
"A vacina é uma das principais armas de redução da desigualdade. A estimativa é que no mínimo 6 milhões de crianças e outras pessoas imunodeficientes morreriam todo ano não fossem as vacinas", reforçou o infectologista.
Além da assinatura simbólica para início das obras, o evento também marcou o começo da vacinação contra a dengue para os profissionais de saúde e para os voluntários que fizeram parte da pesquisa para desenvolvimento do imunizante. A Butantan-DV foi desenvolvida para proteger contra os quatro sorotipos da dengue e é a primeira do mundo em dose única.
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