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Actínio-225: como é o material radioativo roubado em São Paulo

A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear alerta que a abertura da embalagem e o contato com o conteúdo podem provocar exposição à radiação

Estadão Conteúdo

5 de outubro de 2026 às 18:42

Imagem ilustrativa

Imagem ilustrativa ( Foto: Andrew R. Burgoyne/Wikimedia Commons )

Um veículo que transportava material radioativo para uso médico foi roubado na manhã de quinta-feira, 2, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Segundo a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), o Citroën Jumpy-Furgão, de placa GGJ3G06, levava Actínio-225 (Ac-225), utilizado em tratamentos médicos. De acordo com a ANSN, o material, na forma como está acondicionado, não oferece risco à população. A autoridade, porém, alerta que a abertura da embalagem e o contato com o conteúdo podem provocar exposição à radiação.

O veículo foi localizado parcialmente desmontado em Ferraz de Vasconcelos, mas a carga de Actínio-225 ainda não foi localizada.

O Actínio-225 é um isótopo radioativo que se tornou uma das maiores promessas da medicina nuclear moderna. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e o Departamento de Energia dos Estados Unidos, o elemento é uma arma de precisão contra tumores cancerígenos agressivos. Embora seja seguro quando devidamente encapsulado e administrado em doses médicas controladas, o Actínio-225 é uma substância de altíssima toxicidade se manipulada incorretamente.

Diferentemente de outros elementos usados em diagnósticos (como exames de imagem convencionais), o Actínio-225 é empregado essencialmente para o tratamento terapêutico de cânceres avançados. O elemento é um emissor de partículas alfa.

Essas partículas são altamente carregadas de energia, mas têm um baixíssimo poder de penetração. Elas viajam a uma distância equivalente a poucas células humanas (40 a 100 micrômetros). Por conta dessas características, o Ac-225 funciona como um "sniper" celular: ele descarrega uma energia brutal e destrutiva concentrada estritamente no alvo, sem danificar os tecidos saudáveis ao redor.

"O Actínio-225 tem sido usado no tratamento de câncer de próstata porque seu decaimento radioativo emite partículas extremamente energéticas (radiação alfa), que destroem o DNA das células cancerígenas muito eficientemente", explicou o físico Alexandre Bergantini, apoiado pelo Instituto Serrapilheira. "Adicionalmente, essas partículas alfa viajam apenas frações de milímetros no organismo do paciente antes de perderem sua energia, isso significa que essa radiação tem pouquíssima probabilidade de danificar células não-cancerígenas no organismo do paciente."

O Actínio-225 é usado na chamada Terapia Alfa Direcionada. O isótopo é acoplado a um vetor biológico (como um anticorpo ou peptídeo específico) que funciona como uma chave capaz de reconhecer e se ligar apenas às células tumorais. Atualmente, o uso clínico mais difundido é para o tratamento do câncer de próstata com metástase.

Quando ligado à molécula PSMA (Antígeno Prostático Específico de Membrana), o Actínio-225 viaja pelo sangue, se fixa nas metástases ósseas e viscerais, e destrói o DNA do tumor. A terapia tem demonstrado sucesso mesmo em pacientes que não respondem mais à quimioterapia convencional.

O elemento também é usado contra tumores neuroendócrinos muito avançados e/ou inoperáveis. Estudos clínicos avaliam também a eficácia do tratamento contra a leucemia mieloide aguda, câncer de mama e mieloma múltiplo.

Embora seja seguro quando devidamente encapsulado e administrado em doses médicas controladas, o Actínio-225 é uma substância de altíssima toxicidade se manipulada incorretamente fora do ambiente hospitalar.

Enquanto mantido lacrado em suas embalagens de transporte (geralmente contêineres blindados com chumbo), o Actínio-225 não oferece risco à população ao redor. Se o material for violado (como em casos de roubo de carga radioativa ou vazamento industrial), o perigo muda de figura.

A radiação alfa emitida pelo Ac-225 é facilmente bloqueada pela própria pele humana ou por uma blindagem simples. O perigo real ocorre se o material for ingerido, inalado ou entrar em contato com ferimentos abertos.

Dentro do corpo, sem barreiras protetoras, o isótopo se fixa nos tecidos (como os ossos) e bombardeia órgãos internos continuamente, destruindo o DNA celular e causando falência orgânica ou desenvolvimento severo de câncer a longo prazo.

A orientação unânime de autoridades regulatórias de segurança nuclear é nunca abrir, tocar ou manipular qualquer recipiente suspeito de conter esse material, devendo isolar a área e acionar imediatamente os órgãos de proteção radiológica.

"O fato de a carga ter sido roubada tem potencial muito pequeno de trazer riscos para a população em geral, e a razão é justamente o fato da radiação alfa não se propagar grandes distâncias. Além disso, a meia-vida desse isótopo é de apenas 10 dias, ou seja, em pouco tempo o material deixa de ser radioativo, pois a cada dez dias a radiação cai pela metade", explicou o físico. "O risco existe apenas se um indivíduo abrir a embalagem do material e segurar o isótopo com as mãos nuas, ou, o que seria pior, ingerir o material."

Embora pareça improvável, vale lembrar que em 1987, no caso do Césio-137, o material radioativo foi manipulado, afetando a saúde de milhares de pessoas, naquele que é considerado o maior desastre radioativo da história do País.

Naquela ocasião, um aparelho de radioterapia desativado foi abandonado nas instalações do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), no centro de Goiânia. Catadores de sucata retiraram a cápsula com cloreto de césio-137 de dentro do equipamento e venderam para um ferro-velho. A substância em pó emitia uma forte luz azul no escuro, o que atraiu muitos curiosos que manipularam o material sem saber do perigo.