Um bonde chamado saudade

Lorena Filgueiras

Na semana em que aqueles que já nos deixaram foram celebrados, a Troppo + Mulher decidiu compreender melhor o que é saudade – sob diferentes pontos de vista – e quando é que a ela pede atenção.

Comecemos esta matéria com um esclarecimento imprescindível, aos que, como eu, cresceram ouvindo e acreditando que a palavra ‘saudade’ só existe na língua portuguesa. Não é bem assim. Segundo a revista “Língua Portuguesa”, o termo está presente nas línguas românticas, que derivam do Latim. Desta forma, o espanhol tem soledad. O catalão traz o verbete soledat. Em ambos os casos e, mesmo para os portugueses de Portugal, saudade tem um significado bem distinto do nosso, que é uma “nostalgia do lar”.

Poucos, aliás, sabem falar de saudades como os portugueses. De tanto lançarem-se ao mar do desconhecido, deixando em terra firme “mães e noivas”, a saudade parece ser estar no DNA de nossos irmãos. Ao desconhecido rumavam, longas cartas escreviam e, nem todos conseguiram voltar. Daí o mar de Portugal ter sido alimentado, ao longo dos séculos, pelas lágrimas de quem aguardou o retorno... e de quem ficou de voltar.

Cruzando o oceano e os séculos que nos separam daquele momento, por aqui, na terra brasilis, a saudade assumiu contornos mais tristes e multifacetados. O excesso da presença da ausência seria uma tentativa de definir saudade. Muitos tentam e acabam acrescendo mais definições (e sentimentos) ao termo. Para Chico Buarque, saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu; a metade amputada. Para mim, saudade é o membro amputado que insiste em coçar. 

O poeta Fabricio Carpinejar conversou conosco sobre saudade. “Onde a saudade mora, pode também existir a culpa”, sentenciou. “Mas dentro da saudade, mora também um pedido de desculpa”, ameniza. “Saudade é tudo que já aconteceu. Não soube cuidar de alguém e corre atrás, não comunicou a sua forte ligação e está inundado de lembranças, não confessou o seu carinho e passou da hora”. Pergunto a ele do que sente mais saudades, ao que ele responde que é dos avós. Questiono-o se faltou-lhe dizer algo a eles. “Não, não. Sinto saudades deles, mas é importante que se diga que enterro as pessoas que amo dentro de mim”.

Na semana em que vivemos, com maior intensidade, a saudade dos que já foram, é quase impossível não recordar que Belém tem um monumento histórico dedicado à ela: o Cemitério de Nossa Senhora da Soledade, incrustrado, tal como as joias mais preciosas, no coração da cidade. Inaugurado em 1850, o cemitério funcionou por apenas 30 anos. Segundo o IPHAN, “em meados do século XIX, uma epidemia de febre amarela assolava a cidade de Belém, tornando-se necessária a construção de outro cemitério, pois o existente, no Largo da Campina, era usado apenas para escravos e indigentes, enquanto a elite continuaria sendo enterrada nas igrejas (apesar da proibição). Então, em janeiro de 1850, foi inaugurado o novo cemitério no bairro de Batista Campos, com capela de Nossa Senhora da Soledade, em estilo neoclássico e construído por Joaquim Vitorino de Sousa Cabral”. Desde antes de sua construção, a necrópole já apresentava problemas, especialmente porque estava localizado no centro da cidade, sendo pequeno (os apenas 30 anos de funcionamento estão aí para provar que esgotaria rapidamente a capacidade) e contribuindo para contaminação do lençol freático (problemas de higiene). Após uma epidemia de febre amarela e espanhola, o local encerrou sua capacidade. 
Segundo informações do IPHAN, “em 1880, foram encerrados os sepultamentos, mas a visitação ainda continuaria disponível. Sendo muito frequentado tanto por parentes dos sepultados, quanto pelo dia das almas nas segundas-feiras. Entre os monumentos funerários famosos está o jazigo do General Hilário Maximiliano Antunes Gurjão. Construído na Bréscia, com escultura feita por Allegretti, professor do Instituto de Belas Artes de Roma”. 

Há quase 170 anos, o Soledade observa em silêncio o barulho da urbe, tendo sua monotonia quebrada apenas às segundas-feiras, dia tradicionalmente dedicado ao culto às almas, uma cultura bem forte em Belém. Ali, entre as mangueiras mais libertas de Belém, jazem algum dos santos populares mais queridos, como o menino Zezinho. Ricamente esculpida em mármore de lioz, o pequenino, falecido aos 7 anos de idade, vítima de febre, é o “morador” mais ilustre do famoso quadrilátero. Semanalmente, recebe mimos infantis e muitos registros de gratidão pela graça alcançada. Passear pelo Soledade, por mais noir que possa parecer é um vagar entre recordações e saudades. Tombado pelo IPHAN, em 1964, em silêncio o Soledade aguarda o dia em que, finalmente, será transformado em cemitério-parque.

Saudade demais pode afetar o corpo e a alma
Mesmo sendo inevitável sentir saudades de alguém que partiu ou saiu de nossas vidas, o médico psiquiatra Geraldo José Ballone, considerado um dos maiores especialistas do Brasil sobre o tema, alerta que, se mal trabalhado, o sentimento pode ser prejudicial e apontar um grau de ansiedade. Os sintomas nem sempre são óbvios, mas devem ser observados com cuidado. Nesses casos, temos “excesso de passado alcançando-nos até o presente”. 
“A saudade obsessiva tem efeito crônico e pode ser um indício de ansiedade exagerada”, afirma. Nestes casos, é importante que o paciente admita que seu mal é de fundo emocional e que, por isso, precisa de ajuda.
As lembranças ruminantes, continua, que insistem em invadir a consciência podem ser sintomas de obsessão e depressão e devem ser tratadas por um profissional especializado.

Portanto, neste final de semana em que lembramos e louvamos aqueles que não estão entre nós, a saudade não precisa ser palavra triste.

O Liberal
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