Vaidade masculina vira negócio sério e lucrativo

Empreendedores de Belém estão empenhados

Rodrigo Cabral / Troppo

Já se vão mais de dez anos que o jogador de futebol David Beckham abriu a porteira e a mente do universo masculino para o cuidado com a aparência. Sua ousadia para ostentar penteados exóticos e roupas com cortes retos em um ambiente considerado extremante machista, influenciou o comportamento de muitos homens, no gramado e fora dele. Depois de chamar a atenção da mídia, essa tendência também encheu os olhos do mercado, que recriou o conceito da barbearia tradicional para o barber club.

Há cerca de cinco anos, dois empreendedores paraenses andavam pela movimentada São Paulo (SP) e, em meio a tantas referências da cidade cosmopolita, pinçaram uma influência para espelhar e refletir com bastante sucesso entre o público de Belém. Voltaram para a capital paraense, reestudaram o mercado local e inauguraram uma barbearia com clima retrô, especializada em cuidados masculinos e que agregava os serviços de bar e jogos de mesa. “Quando abrimos, acreditávamos muito na resposta do público, mas o resultado superou as nossas expectativas. O número de clientes cresceu bastante e se diversificou, atendemos homens de todas as idades”, conta Felipe Beckman, um dos proprietários da marca, que hoje, virou rede de franquias.

Foto: Naiara Jinknss / Troppo ()

Isso mesmo. Com a consolidação desse nicho de mercado, Felipe e seu sócio, Henrique, enxergaram que, junto com o desejo dos homens de se cuidar, cresciam oportunidades de ampliar o empreendimento. Com isso, decidiram abrir uma rede de franquias. Hoje, a marca já conta com dez estabelecimentos, sendo nove no Pará e um em Fortaleza – este último em funcionamento há quase dois anos. “Antes da expansão para a nova modalidade de negócio, contratamos duas consultorias em Belém e uma em São Paulo, que nos ajudaram a desenhar o projeto de fanquialização. Algumas unidades acrescentaram outros serviços, como o ‘Dia do Noivo’, cuidado com as unhas e alimentação, servindo cortes premium de carne”, explica Beckman.

Cuidado de pai para filho

Bruno Leonardo, 37 anos, é um adepto dessa nova configuração de barbearias. Mas o empresário do ramo de imóveis e restaurantes conta que o costume vem desde que era criança. “O meu pai sempre me levava com ele para o barbeiro. Faz mais ou menos uns quatro anos que passei frequentar esses estabelecimentos especializados no público masculino e que oferecem serviços diferenciados. Um dos principais atrativos, para mim, são a localização, o ambiente em si e a facilidade no estacionamento”.

Os anos passaram, o ambiente mudou, mas Bruno decidiu manter o hábito de ir à barbearia acompanhado. “Costumo levar meu filho e meu enteado para cortar o cabelo comigo. Enquanto eu cuido do visual, eles ficam se divertindo na área de jogos que o estabelecimento disponibiliza, é um prazer ver os dois se divertindo”, conta Bruno.

Fotos: Naiara Jinknss / Troppo ()

Ao assumir a vaidade, o contador Marcelo Antônio da Costa, passou a buscar visuais diferentes a cada ida à barbearia. “Já pintei de louro, fiz luzes, corte moicano, degradê com base na máquina zero e outros que estavam em alta em um determinado momento. Depois que me formei e passei a trabalhar, precisei manter o visual mais corporativo, o que não significa tradicional ou descuidado. Procuro um equilíbrio entre o sóbrio e o descolado, gosto de seguir a imagem dos cantores sertanejos”, conta entre risos.

Clássico ou inovador, o que prevalece é a vontade do cliente. “Sempre tem aquele homem que vai querer o mesmo corte a vida inteira, manter aquela regularidade. Mas muitos de nossos clientes chegam com o celular na mão e mostram a foto de algum artista ou jogador de futebol e nós temos que estar atentos e atualizados para atender”, arremata Felipe Beckman.

Vaidade por todos os lados

Nos últimos anos, junto aos cortes mais estilosos, o público masculino também tem valorizado o “cultivo” da barba, com diferentes padrões de volume e forma, além de impecáveis sobrancelhas. Basta sair à rua para perceber, elas estão por todos os lados, muito bem desenhadas. Por todos os lados mesmo, nos bairros centrais e nas periferias. Nas regiões mais afastadas dos centros, microempreendedores vem adaptando o conceito de barber club, oferecendo serviços especializados e com preços diferenciados.

Marcos Cordeiro, 18 anos, é um jovem empreendedor no mercado da vaidade masculina. No final de 2018, ele abriu uma barbearia no bairro da Sacramenta, motivado pela preocupação que ele mesmo sempre teve com a sua aparência. “Desde cedo, fui muito preocupado com meu bem-estar e a estética está associada a isso. Estava com o plano de me casar e em busca de independência financeira. Optei pelo curso de barbeiro. Ainda no período do curso, iniciei um estudo de mercado no ramo, com a ajuda de minha sócia e esposa, que é administradora. Decidimos abrir uma barbearia de bairro, mas que tivesse o conforto e a qualidade equiparados aos das barbearias maiores, pois, observamos essa carência de estrutura e qualidade no bairro”, detalha o empreendedor.

Os serviços oferecidos vão do tradicional corte e barba a tratamentos para crescimento dos fios, o que tem impulsionado bastante a procura pelo estabelecimento. “O termômetro de que está dando certo é o retorno dos nossos clientes. No início eu atendia sozinho. Depois de dois meses, tive que contratar um funcionário para dar conta da demanda. Em pouco tempo de funcionamento, já temos um público cativo que vai, pelo menos, uma vez por semana se cuidar conosco. E muitos homens vêm até a barbearia em busca de produtos para o crescimento de cabelos e para aumentar ou corrigir falhas na barba. Pelo que vemos no nosso dia a dia, a vaidade masculina não é uma modinha. É uma mudança de comportamento que veio para ficar mesmo”, aponta Marcos.

Segundo pesquisa realizada pela Euromonitor Internacional, só entre 2012 e 2016, o faturamento das barbearias registrou um crescimento de 539%, no Brasil. Essa é uma força que estava adormecida pelo preconceito anterior e pela dificuldade de alguns homens aceitarem a vaidade como, sim, um traço de masculinidade. “Essa mudança de comportamento é muito positiva para o bem-estar da própria pessoa e para o mercado. Mas é importante também entender que a vaidade não é uma questão de gênero. Os homens são vaidosos, sejam eles héteros, trans ou homossexuais”, conclui o barbeiro, mostrando  que é um empreendedor de visão.

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