Vai gastar com o quê?

Lorena Filgueiras

A pandemia, que colocou boa parte de nossos planos em compasso de espera, também impactou enormemente na maneira como gastamos dinheiro, como lidamos com o consumo de bens não-duráveis. Quando for seguro sair à rua, será que olharemos nossos hábitos do mesmo modo?

Logo que a pandemia foi decretada, em meados de março, uma discussão tomou conta da rede social Twitter. Diante de tamanha incerteza e imprevisibilidade, o debate girou em torno de uma única pergunta: “Você vai gastar R$50 em um único hambúrguer depois que a pandemia passar?”. Lembro de ter acompanhado alguns tweets, ao passo em que eu mesma fiquei pensando e concluí: não sairíamos os mesmos deste período tão desafiador.

Desde então, tenho conversado muito com estudiosos, economistas, para tentar, de alguma forma, elucidar dúvidas pessoais e, quiçá, dos leitores. Entre trocas de ideias, percebo que novas relações de consumo se interpuseram no cenário.

O servidor público municipal Lucivaldo Costa dos Santos, 45, por exemplo decidiu cancelar o cartão de crédito, deixando ativo tão somente o da esposa, Vanessa. “Assim ficou melhor de controlar os gastos familiares”, afirma. E esse não foi o único item da “lista de revisão”. O servidor passou a deixar o carro na garagem por mais tempo, para economizar com combustível. Os filhos do casal, Larissa, 18, e Lucas, 8, passaram a dormir no mesmo quarto, numa tentativa de baixar a conta de energia elétrica. Outra mudança de hábito (também em função do isolamento e lockdown) girou em torno da mesa da família, que costumava ir bastante a restaurantes. “Tive também que melhorar meus dotes culinários e procurar recreação em casa”, revela. 

Lucivaldo Santos (Acervo pessoal)

Os bons resultados foram conferidos na ponta do lápis e no bolso. “Senti, sim, grande resultado. Essa nova readaptação me fez ir menos aos shoppings e restaurantes, além de me fazer criar recreações em casa para, assim, passar mais tempo com a família”, diz Lucivaldo. Embora sempre seja impactante cortar gastos, os ganhos são inegáveis. “Desde que começou o isolamento social, minha vida sofreu uma transformação. Primeiro, passei mais tempo com os meus filhos e passei a ver as necessidades deles, tanto físicas, como emocionais e espirituais. Com isso, passei a me inserir mais no âmbito familiar a fim de ajudá-los”, finaliza, não sem antes compartilhar um ensinamento pessoal. “Certifique-se de que aquilo que você vai comprar ou fazer realmente é necessário, além de planejar bem os custos e evitar gastos a longo prazo”.

Cautela é palavra-chave

Para o professor Alexandre Damasceno, coordenador do Grupo de Educação Financeira da Amazônia, vinculado à Universidade Federal do Pará, as incertezas, inerentes ao período, aumentam se não há a prática da educação financeira e, sem ela, não há minimamente um fundo de reserva. “No aspecto individual, da microeconomia, é imprescindível rever nossos hábitos de consumo”. Se por um lado, os custos fixos aumentaram com o isolamento (água, energia elétrica), economizou-se no consumo de roupas, de gastos com transportes. O estudioso alerta, entretanto, a um possível efeito rebote, a título de uma espécie de “compensação” por tudo que deixou de ser consumido/comprado. “Essa é uma preocupação comportamental a que temos que estar atentos, porque a compensação pode indicar uma fragilidade psicológica”. Se diante da perspectiva do isolamento, pintar uma necessidade de compensar isso com consumo, o comportamento precisa ser acompanhado de perto – e, de preferência, por um especialista.
    
Segundo Damasceno, é muito mais importante estabelecer uma cultura de educação financeira, desde cedo. “Há escolas que trabalham isso ainda nas primeiras séries. Nós somos frutos, e eu me incluo, de uma geração que aprendeu na base da observação. Hoje já se ensina. Você me perguntou se há uma idade mínima e há autores que defendem que é possível transmitir e introduzir os primeiros conceitos a partir dos 8, 9 meses de idade. Se você me perguntar como, eles afirmam que é possível trabalhar tempo, espera. Educação financeira não é sobre dinheiro apenas, mas sobre bem-estar”, explica.

Com a “segunda onda”, advinda do desemprego e do impacto econômico, ser cauteloso é natural. A autoproteção e diminuição de consumo são esperados. “É uma crítica que, inclusive, faço ao governo: acho que ele está demorando muito a olhar e trabalhar isso. O Serasa acaba de lançar uma pesquisa sobre empreendedorismo. No Brasil, embora seja um alto índice, ele é ligado à sobrevivência momentânea, entrando no aspecto da informalidade e a informalidade é um problema à economia. Vamos condenar a informalidade? De jeito nenhum! Trata-se de uma necessidade, mas ela gera impactos”.

Alexandre Damasceno diz que os economistas mais otimistas estimam que o mercado se recuperará entre 6 meses e um ano. Já os menos otimistas, dizem que essa recuperação pode se estender para até quatro anos. 

Uma coisa, entretanto, fica de preciosa lição: o momento fez com que as pessoas voltassem suas atenções à uma educação financeira. “Mas uma dica eu sempre dou: a pandemia também tem de servir para que todos pensem minimamente num fundo de reserva!”. Embora a literatura especializada defenda que deve-se poupar/guardar, em média, 30% dos ganhos, Damasceno afirma que é possível iniciar com muito menos, 2% ou 5% - o processo de poupar passa a ser de viés multiplicador no psicológico. “Comece com um cofrinho e logo vai ser um ‘vício positivo’. Logo, a poupança, em todos os sentidos, será um hábito”.

Se você chegou até aqui, conseguindo cortar custos e economizando, o professor aconselha que busque mais informações, junto ao seu banco, sobre opções de investimentos, para aumentar os lucros do dinheiro guardado.  

Sem delivery e com planilha 
A auxiliar de escritório Rafaella Brandão, 22, é outro exemplo de como fazer limonada a partir dos limões que a vida, volta e meia, oferece. “Devido à pandemia, no início, eu estava gastando de maneira exacerbada com aplicativos de comida e percebi que, além de ter hábitos alimentares ruins, estava gastando desnecessariamente. Aprendi a organizar e anotar todos os meus gastos, sejam eles de menor ou maior valor, fazer planilhas e, assim, pretendo levar os novos hábitos para depois da pandemia, pois me tornei uma pessoa mais organizada na questão financeira”, comemora.

O isolamento mudou profundamente seus hábitos de consumo diante de uma nova perspectiva pessoal. “Transformou meu modo de ver a vida e hábitos do cotidiano que, muitas das vezes, eram desnecessários”, sentencia.

A educação financeira ficou como um legado positivo. E, mesmo sendo recente, Rafaella dá uma aula de bom exemplo. “Ter planejamento, ser realista e estabelecer metas de longo prazo são muito importantes. Quando você começa a exercitar mentalmente se aquela compra é realmente necessária, você se torna mais disciplinado, e, em tempos difíceis, saber se organizar financeiramente é essencial”.

Para conhecer mais:
@gefamufpa

Troppo
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