Um outubro diferente, mas com a mesma vibração

Paraenses se preparam para um momento diferente, mas de muita fé!

Por Flávia Ribeiro

Conhecido como o Natal dos Paraenses, o Círio movimenta a cidade, mas a pandemia exigiu novos hábitos. Ao vivo ou à distância, os paraenses se preparam para manter a tradição da fé.

Há mais de 200 anos que o segundo domingo do mês de outubro está reservado para os paraenses: é o dia do Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Uma grande procissão religiosa que toma conta de Belém, chegando a atrair dois milhões de promesseiros nesse dia, mas que ainda tem desdobramentos em outras procissões ao longo de 15 dias, com repercussões no cenário cultural, turístico, econômico, etc. A pandemia da Covid-19, freou o mundo e a edição 228 do Círio será virtual para evitar aglomerações.

A roupa nova, a casa arrumada, o almoço e toda a tradição que envolve a época tiveram que ser renovadas, repaginadas, adaptadas... mas, no que depender da fé e da disposição dos devotos, a tradição da devoção não será interrompida.

A aposentada Paula Gonçalves Portilho, 62 anos, fala que se resguardou durante este ano porque está no grupo de risco para complicações pelo coronavírus. Para ela, que é devota, há um misto de emoções com a proximidade do círio. “Por um lado, é muito triste porque sempre me emociono com aquele mar de gente reunida com o único propósito de agradecer à Virgem de Nazaré pelas bênçãos alcançadas. Mesmo assim, entendo que no momento não pode acontecer. O Círio acontece em nossos corações e o mais importante é a nossa fé nele. Se Deus quiser, estaremos todos reunidos no ano que vem! Vamos estar todos reunidos e agradecendo por temos vencido esse momento tão difícil que vivemos no Brasil e no mundo”, comenta.

"O Círio acontece em nossos corações e o mais importante é a nossa fé nele", diz Paula Portilho, devota de Nossa Senhora de Nazaré (Arquivo pessoal)

Mesmo sem a procissão, a aposentada não abre mão do tradicional almoço do Círio. “Eu aguardo ansiosa pelo segundo domingo de outubro, para reunir amigos e a família. Mesmo sem o Círio físico, no coração vamos sentir a mesma emoção e a mesma gratidão por poder reunir as pessoas que amo e também não faltará o mesmo amor por Nossa Senhora” relata a aposentada, aconselhando que nenhum devoto fique
triste. “É preciso acreditar que dias melhores virão!”

Apesar de todas as mudanças no período, Paula fala que este momento é de agradecimentos. A mãe dela, que tem 95 anos, teve Covid e venceu. “Foram dias de muita angústia. Muito aperto no coração. Mas minha mãe saiu dessa. Além disso, há alguns meses, consegui vencer uma depressão muito forte e acredito que foi o poder de Nossa Senhora que trouxe a alegria de novo para dentro mim. O principal do domingo é agradecer e pedir mais saúde para que, no ano que vem, esteja caminhando em mais uma procissão”, diz Paula, comentando que outra felicidade é o fato de a vizinhança ter conseguido realizar as novenas que antecedem a quadra nazarena e passou a noite de seu aniversário com a imagem de Nossa Senhora em sua casa.

Fé renovada e reforçada

Mesmo sem a procissão presencial, o comerciário Wladimir Augusto Teixeira, 57 anos, fala que usará a imaginação para tentar manter a rotina de promesseiro. “Será um Círio diferente, sem a procissão, o calor humano, a corda; sem que os promesseiros cheguem em casa, ao término da procissão com a sensação do dever cumprido, sem a sensação do ‘pago’ da promessa, sem a aquela sensação da realização. Mas é o que temos para o momento. Isso não pode nos entristecer e nos deixar abalados. Temos que contornar essa situação. No domingo que seria o da procissão, logo cedo, vestirei minha bermuda e minha camiseta e me imaginarei no percurso, segurando a corda e fazendo a caminhada. Minha imaginação vai me levar no percurso todo do Círio e voltarei para casa, para almoçar com a minha família. Não posso me sentir triste porque tenho este Deus lá em cima e essa Mãe, a quem venero e festejo” relata.

"Minha imaginação vai me levar no percurso todo do Círio e voltarei para casa, para almoçar com a minha família", diz Wladimir Teixeira (Arquivo pessoal)

Ele compreende a decisão da diretoria da festa e entende que a pandemia exige medidas de segurança. Ele, inclusive, acredita que teve Covid-19 porque apresentou sintomas como a falta de olfato e de paladar, apesar de adotar as recomendações das organizações de saúde, ao sair de casa. Mesmo diante da pandemia, o momento continua dedicado aos pedidos. “Vai ser um círio diferente em seu formato e em sua logística, mas, meus irmãos, não será diferente em nossa fé, que nos moverá em um encontro sem dimensões de orações, preces, agradecimentos e pedidos. Estaremos todos juntos e, ao mesmo tempo, sem aglomerações. Deus nos deu essa incrível capacidade de nos adaptarmos às mais diversas situações e adversidades. E este momento é um deles. Nossa fé continua forte e com ela renovada e reforçada, é que iremos realizar mais um Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Nosso amor, carinho e
devoção estarão presentes e conseguiremos fazer o mais próximo possível do tradicional”.

Tradição e devoção de mãe para filha

A festa católica ainda mexe com outros setores, como a economia, por exemplo. Para muitas pessoas, este momento é de reforço no orçamento. A estudante e artesã Ana Luísa Bagot, 18 anos, começou a vender guirlandas no mês de agosto e se surpreendeu com a resposta dos clientes. Ela inclusive já se programa para continuar as vendas e abranger o período natalino.

Ana conta que desde criança era influenciada pela mãe e pela avó a fazer lembranças do Círio para presentear vizinhos, amigos e familiares, mas que as vendas só começaram neste ano, como forma de ajudar nas crises de ansiedade. “Meu foco era estudar para Medicina, que é meu grande sonho. Minha mãe me influenciou e me ensinou a fazer guirlandas para o Círio, para ocupar minha mente e de alguma forma ter um contato, mais forte do que eu já tinha, com Maria. Nossa Senhora de Nazaré me curou e pretendo, daqui em diante, fazer as minhas guirlandas para vender todos os anos”, afirma ela.

A produção das guirlandas é dividida com a mãe, Alessandra Pinto Bagot, 47 anos, funcionária pública, que também ensinou a devoção à padroeira dos paraenses. “Minha mãe foi a pessoa que mais esteve ao meu lado! Ela me mostrou de uma forma religiosa, e me aproximando de Maria, que eu seria curada. Devo muito a ela também.

"Minha mãe me incentivou em tudo, foi ela que acreditou que as guirlandas me curariam e ajudariam a minha família", testemunha Ana Luísa (Arquivo pessoal)

Minha mãe me incentivou em tudo, foi ela que acreditou que as guirlandas me curariam e ajudariam a minha família. Ela é muito guerreira e batalhadora, sabe? Foi difícil para ela entender tudo sobre ansiedade, mas esteve comigo e com Maria o tempo todo”, pontua a estudante.

Para dar conta dos pedidos, Ana acorda antes de amanhecer e só consegue parar aos domingos. Ela ainda divide a rotina com os estudos. A renda extra ajudou a família, em contas fixas, como de energia elétrica, água, supermercado e ainda houve despesa extra com medicamentos, já que muitas pessoas ficaram doentes, incluindo ela mesma, e algumas, faleceram. O Círio não vai ser o mesmo, mas a família vai se unir novamente. O plano é fazer a novena no sábado da Trasladação, com os devidos cuidados, e no domingo de Círio, o almoço. “O amor de Maria é inexplicável. Eu não consigo explicar o que eu sinto, mas eu sei que tenho muita fé nela e me sinto muito grata”.

Efeito Círio

Segundo um estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socio-Econômicos (Dieese-PA), todos os setores econômicos são impactados pelo chamado “Efeito Círio na Economia do Estado do Pará”, principalmente o Setor Serviços (onde o principal destaque é o turismo religioso), o comércio, a indústria e a agropecuária.

A quadra nazarena já contou com a participação de cerca de 2 milhões de pessoas, vindas de outras regiões, de outros estados e até do exterior. Em, 2019, estivera aqui mais de 80 mil turistas, que injetaram na economia paraense aproximadamente U$ 31,2 milhões de dólares (equivalente a aproximadamente R$ 120 milhões de reais no câmbio da época).

E já que falamos do almoço do Círio...

Os paraenses terão que pagar mais caro, segundo o Dieese. Os patos vivos, até a o dia último dia 16, só foram encontrados em pequenas quantidades em duas feiras livres: Ver-O-Peso e Rômulo Maiorana, pesando entre 2,5 Kg e 3 Kg, com os preços oscilando entre R$ 60 a R$ 100 a unidade. Já o pato congelado, pode ser encontrado na maioria das redes de supermercados da Grande Belém, com os preços em torno de R$ 18 o quilo.

A expectativa é que a oferta do produto aumente a cada semana. Em relação ao mesmo período do ano passado, a alta no preço chega a mais de 10%. Outro ingrediente muito usado, a maniva, que é a base para a maniçoba, também estaria mais cara. Nas feiras livres o quilo do produto moído e cru está sendo comercializado a R$ 5, em média. Já, a versão pré-cozida está custando entre de R$ 6 e R$ 7. Nos supermercados, a pré-cozida ou cozida pode custar passar de R$ 6, dependendo do local de compra.

Troppo
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