Troppo relembra quando Clarice Lispector morou na mangueirosa

Dominik Giusti

Às vésperas das celebrações pelos 100 anos de nascimento de Clarice Lispector, a Troppo + Mulher revive o período em que a escritora morou em Belém – no já extinto Grande Hotel – quando era uma autora iniciante e vivia a angústia das primeiras críticas à sua obra, então recém-lançada.

Há 75 anos, a escritora Clarice Lispector veio morar em Belém. Ela acompanhava seu então marido, Maury Gurgel Valente, diplomata, transferido para trabalhar na capital paraense em 1944. Aqui o casal ficou por seis meses e ela era ainda uma autora iniciante: havia lançado seu primeiro livro, “Perto do Coração Selvagem”, um ano antes, e foi aqui que recebeu as primeiras notícias das críticas à sua obra.

Os seus dias abrigada no Central Hotel, onde hoje localiza-se um outro hotel, no coração da avenida Presidente Vargas, foram de imersão em títulos literários de autores como Marcel Proust, Rainer Maria Rilke e Gustave Flaubert. “Tenho lido o que me cai nas mãos”, escreveu em carta a um amigo. 

Também aproveitou, quando por aqui, para participar de encontros literários organizados pelo professor Francisco Paulo Mendes, que indicou a ela os referidos autores - e foi um importante mentor intelectual no início do século XX, do qual tornou-se amiga. Outra amizade construída aqui também foi com o professor e filósofo Benedito Nunes, que anos depois se tornaria um dos principais estudiosos da obra da autora, com publicações inteiras dedicadas à compreensão entre a Literatura de Clarice e os embates filosóficos das narrativas, com base em autores como Heidegger, Kierkegaard, Jean-Paul Sartre, entre outros.

“Ela reconhecia que em Belém existiam pessoas da maior autoridade literária e que conheciam muito bem sobre Arte e Literatura em geral. E ela nunca se desligou desse grupo. Quando Clarice esteve aqui, ainda não era reconhecida nacionalmente, então, foi um período de muita leitura e produção, pois ela não tinha ocupação. Depois, ela voltou duas vezes à Belém, para praticamente ‘grudar’ no professor Francisco e no Benedito”, comenta a professora e crítica literária Amarílis Tupiassu - também estudiosa da obra da autora.

Angustiada com as críticas, ela escreveu ao autor modernista Mário de Andrade. Era 27 de junho de 1944 e ela estava no Central Hotel: “O fato do senhor não ter criticado meu livro serve evidentemente de resposta e eu a compreendo. No entanto, gostaria de bem mais do que o silêncio, mesmo que para sair deste, sejam necessárias certas palavras duras”, sentenciou Clarice em sua correspondência, com a marca de sua escrita elegante e afiada. “Peço-lhe que interprete minha carta como quiser, mas não veja nela falsa humildade. Desejo muito sinceramente que sua saúde esteja boa. Clarice Lispector. Meu endereço agora é Belém, onde estou por tempos: Clarice Gurgel Valente. Central Hotel – Belém do Pará”, finalizou, assinando com o nome do marido – com quem havia casado em 1943, e que também assinou como jornalista posteriormente. 

Nessa época, os críticos a comparavam de forma excessiva com James Joyce e Virginia Woolf. O título de seu livro de estreia, que já havia recebido negativas das editoras Amerique Edite e a José Olympio, nasceu de uma frase de Joyce: “Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida”. Mas, a despeito das comparações, ela continuou escrevendo e se tornou uma das maiores escritoras brasileiras, um expoente da nossa literatura no mundo inteiro. Em 2020, por sinal, celebra-se o centenário de seu nascimento. De origem Ucraniana, ela veio para Brasil com apenas dois anos, pois seus pais fugiam das repressões da 1ª Guerra Mundial. 

A professora Amarílis conta que em um desses retornos de Clarice Lispector a Belém foi para participar de um evento no antigo Centro de Letras e Artes, na Universidade Federal do Pará (UFPA) - já como autora notadamente um sucesso de crítica e público. “Foi uma grande agitação. Mas no auditório faltou luz. Era final de tarde e ela teria dito para irem todos ao relvado. Então, levaram cadeiras para a beira do rio e ficaram todos sentados entre as árvores. Foi muito bonito e poético. Os alunos faziam perguntas a ela e ela respondia que quem sabia era o professor Francisco Paulo Mendes”, comenta. 

Cartas

Outro episódio marcante, para Clarice em Belém, foi a recepção da então primeira-dama dos Estados Unidos, Eleanor Roosevelt, esposa de Franklin Roosevelt. Em carta às irmãs Teresa e Tania, a escritora comenta o fato (que pode ser encontrado no livro “Clarice Fotobiografia”, de autoria Nádia Battella Gotlib e publicado pela Editora da USP): 

“A senhora Eleanor Roosevelt passou por aqui. Fomos convidados para recebê-la no aeroporto e para ir à recepção dada a ela. Fui com meu vestido preto. Ela é simpaticíssima, muito simples, vestida com muita modéstia, bem mais bonita pessoalmente do que nas fotografias e no cinema. No dia seguinte, ela deu entrevista coletiva à imprensa, eu fui, mandei noticiário telefônico para ‘A Noite’, mesmo estando de licença porque não queria perder a chance”. 

Seu sentimento em relação à cidade também era tema de correspondências. “Estou cansada de pessoas e sozinha me aborreço. Eu mesma não sei o que quero; (...) quanto ao meu trabalho, ando horrivelmente desfibrada: tudo o que tenho escrito é bagaço (...)”. Escrevendo especificamente à Tania, chega a dividir os itens da carta: “5) Tenho descansado depois do almoço. 6) Tenho livros para ler; aqui há uma boa livraria onde há tudo menos meu livro... 7) Já engordei uns dois quilos, mas os 58 estão longe; estou feia e sem graça, mas estou com boa saúde. (...) 10) Ainda não consertei o vestido de baile, tenho preguiça de mandar limpar meus sapatos, de tudo. Mas eu sempre fui assim e tudo me custa” - excertos que podem ser encontrados no livro “Correspondências/Clarice Lispector”, com organização de Teresa Montero, lançado em 2002.

Clarice e Benedito

A professora Lília Chaves recorda que Benedito Nunes também escreveu sobre a Clarice mulher, esposa, num texto chamado apenas “Dona Clarice” - como ele a chamava - em que descreve os dias da autora pela capital paraense. “Esse pequeno texto foi lançado em 2000, depois de muito se dedicar à obra dela. O Benedito é uma mistura de crítico literário com teórico e filósofo. E ele dizia que era isso mesmo. Esse livro fala da relação deles, que se conheceram depois, pois quando ela esteve aqui ele tinha 14 anos”, comenta a professora. 

Para saber mais, leia:
Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector
Correspondências, Clarice Lispector
O Drama da Linguagem - Uma Leitura de Clarice Lispector, de Benedito Nunes
Clarice Fotobiografia, de Nadia Battella Gotlib
Clarice, uma biografia, de Benjamin Mose

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