'Somos todos ridículos!'

Bianca Leão

Rir de si mesmo e da vida nem sempre é fácil. Mas encontrar humor nas próprias fraquezas e lirismo no dia a dia são métodos eficazes para uma vida saudável, recomendados por muitos especialistas da área da saúde. Em Belém, esse desafio vem sendo transposto pelos Palhaços Trovadores há duas décadas.O grupo coleciona histórias sobre os benefícios dasincontáveis piruetas e cambalhotas sobre o mau humor dos paraenses. Bravo!

Marton Maués, 58 anos, ator-palhaço (Tilinho), diretor e professor de teatro, já era professor da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (Etdufpa) em meados de 1996, quando começou a pesquisar sobre o teatro de rua.

Na época, ele estava desencantado com as dificuldades de acesso às salas de teatro da cidade e, ao mesmo tempo, encantado com o trabalho de grupos teatro como o Galpão, de Minas Gerais. “Dirigia um grupo de rua e, com ele, fui a um festival em Betim, Minas Gerais. Lá conheci o primeiro grupo de palhaças do Brasil, as Marias da Graça. Fiz uma oficina de clown com uma delas, Ana Luísa Cardoso, a quem chamo de mestra até hoje. Até então, não sabia nada sobre a linguagem do palhaço”, relembra.

Depois disso, o assunto virou foco de uma pesquisa apaixonada que culminou em uma oficina na Etdufpa. Ministrada em agosto de 1998, a oficina fez nascer o embrião dos Palhaços Trovadores, que estreou em novembro do mesmo ano. O sucesso foi tanto que a oficina passou a ser ministrada todos os anos e hoje, 20 anos depois, os Palhaços Trovadores são referência em palhaçaria na Amazônia. “Sabemos que construímos uma poética, uma maneira de fazer teatro com palhaços que utiliza como base estrutural os folguedos populares da nossa região: danças, formas cênicas, canções e poesia. É o que nos caracteriza, o que nos distingue”, esclarece.

“O palhaço me faz bem melhor a cada dia”

Para além dos palcos, Martondiz ter absoluta certeza que a arte o fez um ser humano melhor. “A convivência e trabalho em grupo fazem com que a gente vá entendendo as pessoas e entendendo a si mesmo, cada vez mais. É, muitas vezes, um processo difícil e até doloroso. Mas necessário. Exercitamos o afeto, o altruísmo, o companheirismo e as relações interpessoais”, conta.

Para ele, o crescimento pessoal também vem por meio dos estudos, uma vez que a cena exige que os atores leiam e debatam sobre muitos assuntos. “O contato com grandes autores, bons textos e personagens diversas nos fazem entender o humano em nós e crescemos com isso. Estar no lugar do outro faz com que nos entendamos mais, é fundamental. O exercício da alteridade nos constrói e nos faz crescer”, alega. Marton afirma que o palhaço exige um mergulho em si mesmo ainda mais profundo, pois é necessário encarar grandes perdas, mostrar fragilidades e aprender a rir de si mesmo. 

“Somos todos ridículos, humanamente pequenos, mas queremos ser grandes, vencedores em tudo, embora nem saibamos ao certo o que isso significa de fato: somos criados para ‘vencer na vida’, não é mesmo? O palhaço vem e nos mostra como perdedores. O público ri deste bobo perdedor, que é ele mesmo também. E juntos nos descobrimos humanos, demasiadamente humanos, com nossos defeitos, fragilidades e derrisão. O palhaço me faz bem melhor a cada dia”, comenta.

Dentre as muitas histórias emocionantes vivenciadas pelo grupo, o ator-palhaço observa que uma geração inteira os acompanha: “Crianças que tinham de 3 a 7 anos no início, hoje são adultas e levam seus filhos para nos ver. Encontramos sempre pais mostrando seus filhos e dizendo que nos viam quando crianças”.

Marton diz ter participado recentemente de uma banca de mestrado e, ao ler o trabalho, constatou que a autora da dissertação os assistia desde criancinha e, a partir de então, decidiu ser palhaça também. Hoje, a menina que observava atenta aos palhaços é uma mestra-palhaça e desenvolve um importante trabalho de educação popular. “Chorei horrores lendo o trabalho”, revela.

Para além do aspecto pessoal, o palhaço e sua arte também têm relevância social. O professor afirma que eles são essenciais para qualquer sociedade. “Oriso liberta, cura e salva. Em todas as sociedades humanas, existiram pessoas especializadas em fazer a comunidade rir, aliviar suas dores, o peso do trabalho e da própria existência. Em tempos difíceis, é também a arte, de um modo geral, e o riso que nos farão enxergar melhor os caminhos a tomar, relaxar as tensões e resistir. O riso é crítico e questionador, é também contestação e resistência política. O riso libera, é libertação”, garante.

Apesar de dizer que sente que a sociedade “tem andado pra trás” no Brasil e no mundo, ele enfatiza que o amor é mais forte que a intolerância, o preconceito, o autoritarismo e o ódio. “Os palhaços vão tomar conta do mundo”, declara.

Avó, mãe, artesã e palhaça

Rosana Darwich Coral, 55 anos, é mãe, avó, artesã e é também a palhaça Bromélia. Ela também diz acreditar fortemente que os palhaços – e as palhaças – vão dominar o mundo. Rosana comemorará 20 anos de pertença ao grupo Palhaços Trovadores em março deste ano. “A palhaçaria entrou na minha vida através do Marton, diretor do grupo, que foi meu professor na Escola de Teatro (Erdufpa). Ele me convidou para assistir um ensaio do grupo e, quando fui, ele fez eu colocar o nariz vermelho, quase morro... Na época, nunca imaginei que pudesse ser uma Palhaça”, relembra.

Ela diz ser muito grata pela oportunidade de integrar o grupo.“Amo ser Palhaça, mãe e avó. Para mim, é algo sublime, gratificante e transformador”, ressalta.

Segundo ela, no decorrer dessas duas décadas, não apenas Bromélia e sua trupe emocionaram o público, mas muitos depoimentosde admiradores marcaram sua história.“Uma delas é a de um fã dos Trovadores que levava sempre sua mãe que estava doente para ver nossos espetáculos. E, todas as vezes que ela ia, sentia-se muito melhor e feliz!”, conta.

Pode rir alto, se quiser

Entre o respeitável público dos Palhaços Trovadores está a advogada Ananda Figueiredo, 30 anos. Quem a conhece sabe que uma das características mais marcantes de sua personalidade é a gargalhada fácil e...peculiarmente. “As pessoas me veem como uma pessoa risonha. Inclusive, muitos já me apelidaram de ‘Risadinha’. Mesmo assim, não consigo me enxergar como alguém que ri por rir. Na verdade, sempre tento manter o pensamento positivo e evitar reclamações desnecessárias, focando na parte boa de tudo que me acontece. Assim, o sorriso vem por consequência”, explica.

Para ela, o sorriso é um importante instrumento no exercício da gratidão e da resiliência diante das dificuldades diárias. “Quando estamos inspirados por esses sentimentos positivos, conseguimos conduzir a vida de forma mais sadia e harmônica”, garante. Ananda relatater presenciado algumas apresentações dos Palhaços Trovadores em espaços públicos e achado interessante a capacidade que eles têm de envolver crianças e adultos.

“Em especial, os adultos reagem com uma leveza que, no dia a dia, já não conseguem transmitir. Os palhaços aguçam a ternura e ingenuidade das pessoas. E esse efeito é muito importante para nos reconectarmos com a leveza da nossa alma, que é sufocada por nossa sociedade embrutecida, onde a aspereza é mais valorizada que a doçura”, assevera.

Remédio para a alma

O poder da arte também é atestado pelo médico e ator de rua Vitor Nina, 30 anos. Da mesma forma que Rosana, a palhaça Bromélia,ele é um dentre vários artistas diretamente influenciados pelos Palhaços Trovadores. “Minha iniciação à palhaçaria foi com uma trovadora, Alessandra Nogueira, a palhaça Neguinha. A meu ver, os Palhaços Trovadores abrem caminho para muita arte potente em Belém, espetáculos, formações e produzem circuitos dos mais variados modos, da rua ao hospital, no picadeiro e no palco, sem falar da Casa do Palhaço”, opina.

Vitor começou a ter contato com apalhaçariacom o intuito de trabalhar em hospitais, ainda como estudante de medicina. “Daí em diante, o nariz vermelho atravessou toda minha experiência de formação, nas enfermarias e nas comunidades. Meu palhaço me levou a lugares distantes, em praça, em igreja, em manicômio, em biqueira... O palhaço se tornou um modo de relação com as pessoas, especialmente no âmbito do cuidado e da vida que eclode das paixões alegres. Hoje ele anda comigo por onde vou, mesmo sem máscara, como uma parte colorida da minha sombra e me assalta de súbito se a rotina e a seriedade ameaçam tornar-me máquina”, relata.

De acordo com ele, a arte influencia positivamente na saúde das pessoas. “A arte atravessa os corpos com intensidades que ampliam os modos de expressão, os repertórios de linguagens, as relações com o prazer e com a dor, com os outros, consigo e com o mundo, enfim, produz rupturas e novas conexões por toda a trama de produção de saúde mental, faz eclodir conteúdos capazes de potencializar a vida”, explica.

Para ele, é por meio do riso que a vida triunfa sobre a morte: “Ontem mesmo o velho Chaplin me fez chorar de novo! Há palhaços e comediantes por todos os lados e seu número aumenta conforme a injustiça e o medo avançam, porque é no riso que a vida eclode, insubmissa, ri da morte e é eterna- antes que a cortina se feche!

Troppo