'Ser artista é um salto de fé!'

Lorena Filgueiras

Tainá Müller é um dos nomes mais festejados da atualidade. A artista brasileira é protagonista da série “Bom dia, Verônica”, que estreou no Netflix já encabeçando as 10 maiores e mais assistidas produções mundiais. No thriller, adaptação do livro de Ilana Casoy/Raphael Montes, Tainá interpreta uma escrivã da Delegacia de Homicídios de São Paulo, que se vê em uma caçada arriscada e enigmática – e mergulha numa investigação para elucidar dois casos intrigantes. Na TV aberta, é possível revê-la em “Flor do Caribe”, da TV Glovo. Na trama, a atriz interpreta Ludmila, uma jovem romântica e mimada de uma grande cidade que passará por uma bela transformação interna na Vila dos Ventos: de mimada à generosa, de egoísta à humanista.

A transformação também atravessou a vida da atriz, em meio à pandemia que assola o mundo. Com mais tempo para refletir e repensar o mundo ao seu redor, Müller, que é jornalista e filósofa, dedicou um tempo para nos atender, em uma entrevista permeada de reflexões profundas e enorme generosidade. Dentre os inúmeros pensamentos que ocupam os dias dela, nossa convidada especial falou sobre a política brasileira e a felicidade de ver novos rostos chegando ao poder; violência contra mulher e rememora o dia em que viveu na rua. Foi um bate-papo delicado e de mergulhos intensos, como conferirão a partir de agora. 

(Gustavo Zylbersztajn)

Troppo + Mulher: Gostaria de começar pelo factual, já que acabamos de sair de uma corrida eleitoral cheia de emoções... algumas, ainda não findaram: como enxergas essa mudança no cenário político brasileiro, em que a diversidade e a pluralidade se fazem mais presentes? 
Tainá Müller: Eu enxergo como um caminho sem volta, porém não óbvio ou retilíneo. Estamos dando muitas curvas até admitir a diversidade não só como direito, mas como algo desejável em nossa sociedade. Estamos vindo de uma onda conservadora intensa, que trouxe à tona preconceitos e estruturas opressoras de poder arraigadas há séculos na nossa cultura e que agora já não cabem mais. Dizem que toda a velha estrutura enrijece antes de ceder e parece que foi exatamente isso que aconteceu nos últimos anos. Mas 2020 parece estar sendo um ano muito transformador nesse sentido. Os protestos antirracistas pelo mundo foram o exemplo de um grito por mudança de uma grande parcela da população que já não aguenta mais essas estruturas. No Brasil, o anseio por representatividade se tornou voto em mulheres, pessoas negras, pessoas trans, pessoas com deficiência, indígenas. Mesmo que essa mudança ainda não tenha chegado em peso no executivo, ter um legislativo mais diverso já é o começo da realização desse desejo de ter outras visões de mundo, outros lugares de fala na hora de decidir os rumos do nosso país. Ainda temos um longo caminho para ter uma diversidade considerável em cargos de liderança, tanto no público quanto no privado, pois ainda vemos a figura do homem branco normativo como o ocupante da maioria dos espaços de poder. Mas acredito que chegaremos em um ponto em que será óbvio que a pluralidade beneficia a todos, num ideal de democracia.

“No Brasil, o anseio por representatividade se tornou voto em mulheres, pessoas negras, pessoas trans, pessoas com deficiência, indígenas. Mesmo que essa mudança ainda não tenha chegado em peso no executivo, ter um legislativo mais diverso já é o começo da realização desse desejo”

T+M: Além de atriz, você também tem formação como jornalista, filósofa... em qual momento cada uma das formações se apresentou como uma necessidade a você?
TM: Eu sou jornalista, mas como filósofa ainda me considero só uma estudante apaixonada [risos]. Sempre gostei de estudar, de pensar o mundo ao meu redor, de conhecer as mais diversas vertentes de pensamento para que eu pudesse formular o meu próprio com mais "estofo'". O jornalismo foi muito importante pra me dar uma visão ampla do mundo, foi a base de um olhar mais desprendido e crítico que me serve até hoje. Já a filosofia tem me proporcionado uma revolução existencial, na medida em que reconstruir a história do pensamento é pegar um "fio da meada" do que a gente é, enquanto humanidade. Foram tantos filósofos que dedicaram a vida ao exercício de tentar tocar alguma verdade, que, pra mim, não dá pra passar por esse planeta sem ao menos conhecer alguma coisa de todo pensamento que nos trouxe até aqui. Acredito que é fundamental estudar essas "linhas de raciocínio", pra construir um novo pensamento, tanto no plano individual quanto no coletivo, ainda mais no ponto crítico em que estamos: o de falências múltiplas.

(Gustavo Zylbersztajn)

T+M: Recentemente você revelou que, quando estava atuando mais diretamente no jornalismo, passou 24 horas com moradores de rua. Adoraria te ouvir falar um pouco mais dessa experiência e quais foram as lições e aprendizados que tiraste dela? Mudou sua vida? Como?
Tainá Müller: Agradeço até hoje a grande oportunidade que foi ter tido essa vivência. Eu era repórter do programa "A Liga" e minha tarefa era passar exatas 24 horas acompanhando uma família de moradores de rua, comendo onde eles comiam, dormindo onde eles dormiam, ou seja, fazendo tudo o que eles faziam. Foram 24 horas intensas porque descobri que em primeiro lugar, é quase impossível dormir quando se está na rua. Estávamos deitados debaixo da marquise de um banco na paulista, que era onde o casal entrevistado e suas duas crianças estavam instalados, quando os seguranças do banco chegaram e nos expulsaram de forma truculenta de lá. A criança mais nova vomitou de nervosa e mesmo assim fomos obrigados a sair. Quem mora na rua não pode nem se deitar pra dormir, pois ou é expulso ou corre sério risco de vida. Fomos comer no "bom prato" da cracolândia e lá encontramos mais confusão, presenciei uma briga no restaurante popular que foi assustadora. Rose, a nossa entrevistada, se mostrou uma mãe zelosa, que amamentava os dois filhos já grandinhos para que eles tivessem pelo menos uma boa fonte de alimentação. Os educava de uma forma muito amorosa e desejava um futuro melhor para eles. O marido, Adriano, era um homem grande que estava com dificuldade de achar um sapato para o tamanho do seu pé e esse detalhe o impedia de conseguir qualquer outra coisa. Descobri que uma pessoa mal vestida, sem banho e sem sapato não consegue entrar nem no banheiro da lancheria pra poder fazer suas necessidades, quanto mais trabalhar. A rua é um círculo vicioso de maus tratos, de exclusão social, de desamparo. Tudo o que essa família queria era sair dessa condição, mas o próprio viver na rua os impedia disso. Foi muito triste também receber os olhares dos passantes na rua. Estava debaixo do meu cobertor ao lado deles e pela primeira vez não me senti olhada como uma pessoa, mas como algo desagradável que não deveria estar ali. Até hoje tenho outra relação com moradores de rua. Sempre que dá, paro, converso, olho no olho, e dou dinheiro quando me pedem. O mínimo que você dá realmente pode definir se aquela pessoa vai comer ou não naquele dia.

“Até hoje tenho outra relação com moradores de rua. Sempre que dá, paro, converso, olho no olho, e dou dinheiro quando me pedem. O mínimo que você dá realmente pode definir se aquela pessoa vai comer ou não naquele dia”.

T+M: Você está em “Bom dia, Veronica”, que chegou ao Netflix já como uma das 10 produções mais assistidas. A temática é absolutamente necessária, atual e urgente, porque o país é o dos que mais mata mulheres. Embora o feminicídio tenha sido tipificado muito recentemente, as estatísticas não param de crescer – sendo assim, pergunto: você se assustou? Teve contato com algumas dessas mulheres? 

TM: Eu tive contato com fotos de cenas de crimes e vídeos de interrogatórios de feminicidas, para entender melhor como esse crime acontece. Foi bastante assustador sim, principalmente por me dar conta que os muitos crimes bárbaros que vi ali, sequer foram noticiados, ou seja, as estatísticas têm tantos rostos, que a imprensa não dá conta. Isso tudo foi muito chocante pra mim e difícil de digerir durante o processo, mas ao mesmo tempo me deu gás pra fazer a Verônica ainda com mais garra.

(Gustavo Zylbersztajn)

T+M: Ainda há, infelizmente, inúmeras barreiras e dificuldades no acolhimento de mulheres vítimas da violência de gênero. Estamos falando de crimes mais visíveis, mas há as violências do dia-a-dia: médica, obstétrica, diferenças de salários... você já sentiu na pele isso, Tainá? Acho que todas nós temos alguma história a contar...
TM: Sim, todas nós, infelizmente, temos histórias para contar. Você citou a obstétrica, que é um horror no Brasil. É muito violenta essa cultura da cesárea que temos aqui, de desestimular o protagonismo da mulher em um momento tão importante da vida. Até hoje desconfio que meu filho não precisava ter seguido tantos protocolos do hospital, como ficar por duas horas em uma incubadora logo após nascer e não nos meus braços. Ele nasceu prematuro, mas não era extremo e nasceu super bem, respirando direitinho. Hoje tenho certeza de que eu poderia ter aquecido ele no meu corpo mas, ao invés disso, o levaram pra longe de mim, nas suas tão sagradas primeiras duas horas de sua vida. Isso porque eu estava em hospital particular e bem orientada, mesmo assim não consegui escapar dessas situações que me entristecem até hoje. Por isso que hoje entendo as mulheres que optam por parir em casa. Eu faria exatamente isso se tivesse outra oportunidade e tivesse tudo certo comigo e com o bebê.

“É muito violenta essa cultura da cesárea que temos aqui, de desestimular o protagonismo da mulher em um momento tão importante da vida”.

(Gustavo Zylbersztajn)

T+M: Como tem sido, para ti, vivenciar o fato de que a série é uma produção nacional que estreou, logo de cara, para o mundo inteiro? Como tens lidado com isso?
TM: Poxa, é muito legal. É um sonho realizado ter um trabalho com tamanha abrangência. Não tem como não lembrar da minha origem e das tantas batalhas que tive que enfrentar pra chegar até aqui. Eu trabalho desde os 16 anos, comecei como animadora de festa infantil, me fantasiava de personagens em aniversários de crianças em Porto Alegre. Lembro de sentir o estômago roncar e não poder comer o cachorro-quente logo ali na mesa, porque só nos era permitido comer o que sobrava da festa depois que ela acabava – e sempre na cozinha. Enfim, ao mesmo tempo, eu nunca achei que não daria certo quando peguei minha mala e fui pra São Paulo só com passagem de ida. Ser artista no Brasil é quase uma loucura, tamanho o salto de fé. Ainda mais pra quem nasceu fora do eixo Rio-São Paulo. Mas quem quer seguir esse caminho tem que acreditar muito em si pra, conseguir persistir até que algo realmente grande aconteça. Me agradeço todos os dias por ter persistido [risos].

(Gustavo Zylbersztajn)

T+M: Sem perder o foco da factualidade, como tens vivido esse período pandêmico, uma vez que nossas rotinas foram completamente alteradas? 
TM: Olha, eu tenho achado essa pandemia uma purga mundial. É muito estranho ficar em casa, saber das pessoas adoecendo e morrendo todos os dias sem se afetar por isso. Não tem como tudo isso não mexer e muito com a nossa cabeça. Mas estou encarando, pelo menos, como uma grande oportunidade de transformação. Tenho repensado muita coisa, redirecionando desejos e prioridades. A vida é muito frágil e essa realidade tem batido cada vez mais insistentemente na nossa porta, seja com o vírus ou com a enxovalhada de notícias às quais estamos expostos. Então "é preciso estar atento e forte", como cantam Gil e Caetano. Não temos tempo de temer a morte, mas que ela seja uma grande professora, pra que consigamos saber aproveitar de verdade o tempo que temos aqui.

T+M: Nesse compasso de espera que a pandemia nos impôs, quais planos teus foram momentaneamente adiados?
TM: Eu tinha duas séries para gravar esse ano, fora o lançamento de Bom Dia, Verônica. Acabou que as duas foram adiadas pro ano que vem. Também queria muito ter feito uma viagem grande em família, aliás, queria estar nesse momento em Alter do Chão, com meu filho e marido.

T+M: O que fica de lição deste momento/ano?
TM: Que precisamos mudar nossa relação com o meio ambiente e entender que somos parte de um todo. Esse vírus, assim como a maioria que apareceu nos últimos anos são zoonoses, ou seja, apareceram só porque nossa relação com os animais e o ambiente onde vivem é desrespeitosa e irresponsável. Ou reinventamos novos jeitos de viver, de forma mais simbiótica com a natureza, ou já era.

(Gustavo Zylbersztajn)

T+M: A Arte salvou a vida de todos nós em momentos de maior rigidez, mas tal como as pessoas, temos debatido muito como o fazer artístico sairá diferente... tendo que se adaptar, formatar. Nesse sentido, quero saber se refletiste a respeito e se tua relação com fãs/internautas mudou. Como você mesma sai desse período?
TM: Para falar a verdade, nunca gostei de ver as pessoas que gostam do meu trabalho como "fãs", por mais que elas carinhosamente se autodeclarem assim. Sempre vejo como pessoas que tem algo para trocar e gosto de conversar com elas na internet, sempre que posso respondo no direct também. É claro que quando lanço um trabalho a demanda fica gigante e como sou eu mesma que administro minhas redes fica impossível atender todo mundo, ainda mais em tempos de pandemia e com filho pequeno. Mas faço o que posso para estar presente e ter essa troca, gosto de saber quem são essas pessoas que me seguem, o que pensam e acabo aprendendo muito com elas. Sempre tento ao menos ler o que comentam.

T+M: Qual o papel maior da arte: resistir, entreter ou provocar debates?
TM: Tudo isso e nada disso ao mesmo tempo [risos]. Acho que a arte não pode ser pensada de maneira utilitária, mas ao mesmo tempo ela por si só acaba virando útil enquanto provocação.

Para conhecer mais:
@tainamuller

Troppo
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