“Se a pessoa fica brava, é com algo que ela mesma falou!”

Lorena Filgueiras

O jovem soteropolitano Kaíque Brito é um fenômeno da internet. Com apenas 15 anos de idade (e pouco mais de um ano de atividade mais intensa nas redes sociais), Kaíque se notabilizou por vídeo-dublagens de políticos ou de anônimos com discursos “muito absurdos”, como ele mesmo tenta definir o que é determinante para virar conteúdo. Recentemente, foi convidado especial do Fantástico e interagiu com grandes nomes da comédia e dramaturgia brasileiras, além de colecionar fãs famosos como Bruno Mazzeo e Whindersson Nunes, provando que o Brasil é um campo fértil para as personalidades da internet. Dublador do presidente Bolsonaro, se surpreendeu com o bloqueio presidencial – fato que contribuiu enormemente para que seu nome se tornasse um dos mais buscados nas ferramentas de pesquisa. Conversamos com esse adolescente afiado para saber o que mais se passa dentro de sua mente inquieta. 

Kaíque Brito (Divulgação)

Troppo + Mulher: Eu estava relembrando tua estreia no instagram. És de Salvador, uma cidade que carrega todo um peso histórico e social, especialmente em função da relação com nossa história e com marco do tráfico negreiro... Teu primeiro post/dublagem foi uma ironia/crítica ao racismo reverso. Como foi que te deu esse primeiro estalo? 
Kaíque Brito: Há mais ou menos um ano atrás, minha amiga me mandou um link de um vídeo de uma menina que falava sobre racismo reverso [a teoria é equivocada, mas, com o propósito de resumir, o racismo reverso é uma alegação de que brancos sofrem preconceito pela cor de sua pele]. Assisti o vídeo inteiro com uma dorzinha, sabe? Quando saí do YouTube para o Twitter, tava rolando o mesmo vídeo por lá, mas com um corte [editado] e as pessoas comentando: “meu Deus, como assim, gente? Olha o absurdo que ela tá falando!”. Me identifiquei com tudo que estavam falando e eu, negro, perguntei à minha amiga: “será que se eu colocar no Tik Tok [rede social em alta de dublagens e performances similares] as pessoas entenderão que é ironia?”. Ela me incentivou e postei o meu vídeo. Quando dormi, tinha 10 likes e ao acordar, ele já tinha 10 mil curtidas.

T+M: Caramba, Kaíque! É muito!
KB: Demais, demais! E só foi aumentando, tanto que ele chegou a 170 mil likes!

T+M: Você é super jovem, tem 15 anos. Fala-se muito sobre política na tua casa? Quando falo de política, não quero dizer partidos e políticos – falo de políticas públicas, racismo, feminismo...
KB: Com certeza! Esses são temas que falo sempre em casa e com meus amigos.

T+M: És muito maduro – o que não é um traço muito comum de se observar na adolescência. Em que momento rolou esse “despertar”? Ampliando um pouco mais a pergunta, passaste por alguma situação de racismo ou algum preconceito?
KB: Acho que comecei a me ligar mais nesses assuntos na época das eleições, em 2018. E é como você disse: não é sobre política partidária, é uma coisa de causas sociais. Sobre o racismo.... diretamente, não, mas nas redes sociais... bem, não sei se já vi comentários de haters [expressão que designa quem destila ódio nas redes sociais]. Deve ter rolado comentários negativos, mas eu nunca vi.

T+M: Pois então, quero saber: sofres muitos ataques na internet?
KB: Então, prefiro não ver, me privar. Penso que muita gente na internet prefere não sair procurando. Prefiro não ver para me preservar mesmo. Mas do que eu já vi, não me abalei não. Entrei nisso preparado, ainda que não pensasse – e não penso – muito nisso. 

T+M: Viraste um dublador/crítico do presidente Bolsonaro e recentemente foste bloqueado [no Twitter] por ele. Como reagiste e em qual momento decidiste dublá-lo? 
KB: Sempre acompanho o que ele faz e decido gravar um vídeo sempre que vejo algo muito fora do normal. O lance mesmo é quando as pessoas saem me marcando no Twitter, mas se for algo muito absurdo e com potencial de ser um vídeo bem engraçado, ou com algum trocadilho, eu gravo.

T+M: O mais interessante é que as pessoas se aborreçam contigo quando só dublas! Sequer fazes comentários...
KB: [ele cai na risada] Não é um absurdo? Se a pessoa fica brava, é com algo que ela mesma falou!

T+M: Kaíque, a partir dos alcances, das curtidas e, naturalmente, do número de seguidores, há a possibilidade de monetização e remuneração por esses conteúdos – já conseguiste montar uma poupança própria?
KB: Ah, então, como sou menor de 16 anos, tenho um probleminha com isso. No YouTube, eu só tenho dois vídeos e eles não tem qualquer propaganda – agora que estou começando com ele. Já no Twitter, instagram e Tik Tok, você precisa, basicamente, fazer publicidade com alguma marca [os publis ou publiposts, como os influenciadores chamam] e, por eu ser menor de 16 anos, preciso, antes de fazer qualquer publicidade, pedir autorização na Vara da Infância e Adolescência. Esse é um trabalho que, geralmente, as marcas não querem ter, porque demora, em média, 30 dias. Por isso tudo, não fechei nada concreto até agora, mas estou no caminho com algumas coisas, na verdade. Falta pouco para fazer 16 anos [Kaíque aniversaria em setembro], isso vai parar e eu não precisarei pedir autorização. No início, eu não sabia que precisava da Vara da Infância e da Adolescência e não tinha qualquer agência para me assessorar, então cobrava um valor que não é o meu valor de agora – já descobri como fazer esse cálculo. Respondendo à sua pergunta, recebi, sim, algum dinheiro, mas era pouco para o que sei que valho agora.

Kaíque Brito (Felipe Gonçalves/Brasil 247)

T+M: Teremos festa, se a pandemia já estiver controlada!
KB: Exatamente, tudo depende da Covid! Queria muito, mas veio o Coronavírus...

T+M: Com esse pouco que ganhaste, realizaste algum sonho de consumo?
KB: Logo no início, quando ganhei um dinheirinho, comprei um celular novo. A tela do meu antigo estava toda rachada...

T+M: Muito justo considerando que é teu instrumento de trabalho.
KB: Isso, querendo ou não! Eu tava louco para comprar um melhor.

T+M: Falando em sonho de consumo, chamaste atenção de alguns dos nomes mais importantes da comédia brasileira, como o Bruno Mazzeo, o Paulo Vieira... Bruno, inclusive, declarou ser teu fã. O que passa na tua cabeça?
KB: Cara... eu nunca fui desse mundo. Sempre fui adolescente, gosto de estar com meus amigos. Depois dos meus vídeos, muita gente adulta e importante, personalidades da TV começaram a me seguir e eu fiquei sem acreditar. É muito bacana começar nisso já sendo reconhecido por eles. Tem gente que luta uma vida inteira por isso e comigo, rolou de um jeito que jamais esperava e que nunca planejei!

T+M: E quem é teu ídolo entre os nomes dessa galera?
KB: Ah, com certeza o Whindersson [Nunes, humorista e YouTuber], que me seguiu desde o primeiro vídeo. Tem a Maísa, que comentou e curtiu meu primeiro vídeo, mas não chegou a me seguir – em seguida eu a conheci em um evento da Netflix. Aliás, conheci Maísa, Gretchen, Lucas Rangel, que já me conheciam e eu fiquei meio em choque. Muito feliz.

T+M: Antes de começarmos a entrevista, comentavas que moras com tua mãe e irmã. Tua mãe se preocupa muito com esse assédio? Ouviste alguma recomendação ou conselho dela?
KB: Eu sou mais preparado para essas coisas da web que ela. Ela me ajuda com a parte burocrática e com coisas que tornam viável a minha atividade: constituição de empresa, nota fiscal. Me acompanha mais como fã, inclusive, do que como conselheira. Quem me dá dicas é minha [mais velha, que tem 19 anos], mas [ele ri], não sou muito de aceitar conselhos e críticas. Sigo a minha intuição! 

T+M: Falando sobre a vida futura, já consegues vislumbrar o que queres fazer profissionalmente? 
KB: Engraçado que na escola, sempre me dei muito bem com Física e Matemática, sabe? Nada a ver com tudo que eu já faço, então já penso em fazer algo na área da Comunicação, talvez Publicidade e Propaganda ou Audiovisual. Cinema, talvez. Quero continuar gravando meus vídeos!

T+M: Torço por isso!
KB: [ele cai na gargalhada] eu também!

T+M: Como vocês têm passado a pandemia? Como têm se cuidado física e emocionalmente?
KB: Quando tudo isso começou, achávamos que duraria uns 15 dias. Acho que todo mundo pensou assim. Eu pensei que seria tranquilo. No início, pensei mesmo em usar a quarentena para gravar vídeos... até que vi que muita gente teve picos de criatividade ou não. Eu tive muita vontade de gravar várias coisas e postar tudo de uma única vez. Aqui em casa, estamos seguindo rigidamente. Saíamos, no máximo, para ir ao mercado, mas cercados de cuidados. Mentalmente falando, juro que tento passar menos tempo na internet. Na escola, eu ficava sem celular e agora, até a aula é on-line! Tento ficar fora, ver TV. Minha mãe é educadora e tem uma escola, então ela fica também on-line acompanhando as aulas do colégio dela. Enquanto isso, minha irmã também tem tido as aulas da faculdade on-line. Estamos todos muito conectados e não há como fugir disso!    

T+M: E qual a primeira coisa que pensas em fazer quando for seguro sair de casa?
KB: Antes de pandemia, sempre tinha algum compromisso em São Paulo e acho que vou pra lá! Mas quero ir pra rua, ver gente, embora eu ache que ainda vai demorar bastante!

Para conhecer mais:
@kaiquebritor

Troppo
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