Saúde bucal em tempos de pandemia

Em tempos de incertezas, comumente tensão e ansiedade se manifestam de alguma forma em nosso corpo e refletem, mais do que podemos imaginar, na saúde bucal

Lorena Filgueiras

“Passei a pandemia trabalhando”, conta o médico cirurgião vascular Samuel Bentes, 52. Por conta de sua atividade numa unidade de urgência e emergência, Samuel diz que o número de atendimentos realizados nos meses de março e abril foi enorme, “um absurdo”, como ele frisa. No pico da curva, o médico estava de plantão quase todos os dias. “Não me afastei naquele período, até porque muitos colegas, infectados, tiveram de se ausentar”. Como você já pode ter imaginado – e porque muitos de nós também viveram as angústias daqueles dias mais intensos –, o médico começou a sentir dores na região do molar, as quais ele atribui ao stress. “Comecei a ranger muitos os dentes e, por causa disso também, acabei quebrando uma parte anterior de um dente”. 

No meio de uma pandemia e de um lockdown, Samuel buscou atendimento remoto com seu odontólogo, que imediatamente prescreveu algo para dor, algo que o incomodou profundamente. "Havia a questão estética, mas a dor estava bem intensa”, relata. Medicado, Bentes conseguiu aguardar até que fosse possível recorrer a uma consulta presencial para restaurar o dente quebrado.

Relatos como esse foram (e continuam sendo) muito comuns nesta época e, por conta do alto potencial de carga viral que a boca tem, muitos especialistas da Odontologia passaram um bom período de portas cerradas. Segundo um documento com orientações, emitido pelo Conselho Federal de Odontologia, datado do finalzinho de março, a entidade assinalava que “dessa forma, apenas consultas emergenciais deveriam ser atendidas pelos dentistas, já que trazem risco à vida, como sangramento descontrolado, bactéria difusa em partes moles, infecção intraoral ou extraoral com inchaço que comprometa as vias aéreas, bem como traumas faciais que resultam nesse mesmo problema”. Tudo mais deveria ser resolvido por teleconsulta, até que fosse minimamente seguro reabrir a agenda aos pacientes.

O representante comercial Alexandre Von Grapp Santos, 48, também teve de recorrer à uma teleconsulta, já que sofre de bruxismo e, por conta do cenário pandêmico, sentiu um agravamento de seu quadro. “Pela incerteza do momento, do meu trabalho, paralisação dos negócios, senti aumentar frequência do meu bruxismo, gerando dor muscular e nos dentes, assim como aumento da sensibilidade”, diz.

A sensibilidade aos gelado/quente, bem como dores musculares ficaram mais intensas. “Entrei em contato com meu médico, ao que ele me medicou e indicou um creme dental para sensibilidade, melhorando assim meu problema”. 

Alexandre tem vivido o isolamento ao lado da esposa, e trabalhou em home office do fim de março até meados de maio, após o fim do lockdown. “Saía apenas para compras em supermercado e farmácia. A Rotina normal já foi restabelecida, logicamente tomando todos os cuidados determinados, como o uso do álcool em gel, máscara”, finaliza.

O cirurgião dentista Fabrício Malcher, 40 anos, está há 18 anos no mercado e conta que percebeu o aumento de reclamações relacionadas à saúde bucal como um todo. “O Isolamento de família e amigos, a insegurança sobre negócios e/ou empregos, a incerteza sobre o amanhã de uma sociedade tão estruturada em viver aglomerada... tudo isso mexe com o emocional das pessoas. E nos faz agir de maneira inconsciente sobre pequenas tarefas do nosso dia-a-dia. Pessoas tendem a ‘descontar’ em certas atitudes e comer doce é uma delas. E juntamente com um relaxamento na escovação dos dentes, houve um aumento do número de pacientes com cárie. Fraturas de dentes, restaurações, próteses por conta de bruxismo ou apertamento, também se tornaram mais frequentes, pois estes são associados ao stress, ansiedade. Algo que vivemos bastante neste momento”, detalha.

Ele alerta que a saúde bucal merece atenção e que higiene é um fator de segurança, quando se trata de prevenção. Atentar à correta profilaxia dos dentes e língua é imprescindível. “Em relação às cáries, é necessário tratá-las o mais cedo possível para que não necessite chegar a um tratamento de canal ou mesmo perda do elemento e consequente reabilitação com implante ou prótese”, alerta.

Já sobre o bruxismo, relatado por muitos pacientes, Malcher aconselha visitar seu profissional de confiança a cada seis meses. “O dentista observa os desgastes causados, caso eles estejam acontecendo, assim como percebe sinais através de conversas com os próprios pacientes e acompanhantes. O relato do(a) parceiro(a) é importante pois ele está ao lado. Mas pra quem vive sozinho existem sinais como dor muscular ao acordar, dentes doloridos”, esclarece.

Um novo normal
O dentista conta que suspendeu os atendimentos a partir do dia 20 de março, quando o vírus começou a se espalhar com mais força em Belém. “Durante esse tempo, realizei tanto procedimento de urgência no consultório como atendimento remoto por telefone ou via aplicativo de mensagens. Mas de forma apenas a orientar paciente com incômodos leves”, relata. Com a reabertura paulatina e progressiva do mercado, o cirurgião dentista também teve de se adequar à nova realidade do “novo normal”. “Os ajustes que fizemos foram os recomendados pelo Conselho e Associações da nossa área. Alguns foram reforçados, pois já faziam parte do protocolo de biossegurança de uma clínica odontológica, como higienização completa do consultório entre pacientes. Adotamos uma conversa prévia com o paciente sobre sintomas de Covid-19 e estamos atendendo apenas em horário previamente agendado, assim como espaçamos os horários pra não haver aglomeração em sala de espera, adoção de máscaras e protetores faciais pela equipe o tempo inteiro e obrigatoriedade de uso pelo paciente e acompanhante, menos dentro do consultório, claro.

Disponibilizamos álcool em gel por toda a clínica, além de viabilizar formas de pagamentos com menos contato com o dinheiro, privilegiando transferência bancária, boleto bancário enviado para o celular dos pacientes”, finaliza.

Troppo
.

Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo!

Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é.

Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos.

Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!