Santa Dulce dos pobres

Lorena Filgueiras

No domingo em que celebramos mais um Círio de Nossa Senhora de Nazaré, do outro lado do mundo – mais precisamente no Vaticano –, outro grande momento promete deixar o dia ainda mais especial e significativo: o Papa Francisco canonizará Irmã Dulce, a freira baiana que dedicou sua vida inteira aos menos favorecidos.

Ainda em sua vida terrena, Irmã Dulce já era chamada de “o anjo bom da Bahia”. A freira, que dedicou sua vida inteira aos mais pobres, será canonizada às 10h da manhã (horário italiano. 14h, aqui no Brasil) pelo Papa Francisco. É a primeira vez que uma mulher nascida no Brasil, será canonizada – o que torna o evento mais especial. Foram os milagres atribuídos à Irmã Dulce. O segundo, entretanto, foi determinante para que o Decreto de Canonização fosse assinado pelo chefe supremo da Igreja Católica e, em tempo recorde, já que todo o processo foi o terceiro mais rápido (ainda que tenha levado 27 anos) da história da Santa Sé.

Para entender um longo e complexo processo que leva da beatificação à canonização, o Vaticano impõe quatro exigências, para que uma graça seja considerada milagre. São elas: ser preternatural (que foge toda e qualquer explicação da Ciência); ser instantâneo, ou seja, ocorrer após o pedido em oração; ser duradouro e, por fim, ser perfeito.

O primeiro milagre – ou a beatificação 
Ocorreu em 2011 e foi o mesmo defendido no processo de beatificação da freira e ocorreu em Sergipe, na cidade de Itabaiana. Cláudia Cristina dos Santos deu à luz ao seu segundo filho, Gabriel, no dia 11 de janeiro daquele ano. E sofreu uma forte hemorragia por 18 horas. Passou por três cirurgias. Diante do quadro, o médico Antônio Cardoso, avisou os familiares que só “uma ajuda divina” poderia salvar a vida de Cláudia. Desenganada, os familiares decidiram chamar para ministrar a extrema unção dela. O Padre José Almí, no entanto optou por fazer uma oração pedindo a intercessão de Irmã Dulce e deu a ela uma pequena relíquia do Anjo Bom – foi quando a hemorragia cessou de pronto! O caso de Cláudia Cristina dos Santos foi avaliado e analisado por dez peritos brasileiros e seis italianos. Após inúmeras avaliações, o milagre foi reconhecido com autenticidade de forma unânime em todos os estágios.

O segundo milagre e a canonização
José Maurício Moreira passou 14 anos cego e voltou a enxergar no dia 10 de dezembro de 2014. “Graças a Irmã Dulce”, afirma. Nascido em Salvador, José recebeu um diagnóstico grave aos 22 anos: um glaucoma, em estado avançado, e que comprometeu o nervo óptico. Embora tivesse se submetido a um tratamento, que durou nada menos que 10 anos, os esforços não surtiram efeito. O nervo óptico fora seriamente comprometido e no réveillon de 2000, ele ficou totalmente cego – dos dois olhos. Em 2014, morando em Recife, o protagonista desta história, teve uma conjuntivite grave e, mesmo sofrendo com fortes dores, agarrou-se à imagem de Irmã Dulce que pertencerá à sua mãe e pediu, com todo fervor, sua intercessão. “Clamei ao Anjo bom que aliviasse as dores da conjuntivite”. Dormiu vencido pelas dores e ao acorda, já no dia seguinte, conseguiu enxergar a própria mão. “Naquele mesmo momento, entendi que Irmã Dulce havia operado um milagre! Ela me deu muito mais do que eu pedi e voltei a enxergar!”, declarou.

O segundo milagre foi determinante para a canonização de Irmã Dulce.

"Nós somos como um lápis com que Deus escreve os textos que Ele quer ditos nos corações dos homens"

De Maria Rita à Irmã Dulce
Nascida em 26 de maio de 1914, segunda filha de Augusto Lopes Pontes, dentista e professor da Faculdade de Odontologia, e de Dulce Maria de Souza Brito Lopes Pontes, irmã Dulce recebeu o nome de Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes. Nascera no bairro do Barbalho, na freguesia de Santo Antônio Além do Carmo.

Na infância, era uma menina alegre. Adorava brincar de boneca, mas era apaixonada por futebol e empinava pipa. O futebol, aliás, sua paixão, a fez torcer pelo Esporte Clube Ypiranga, time formado por trabalhadores e excluídos sociais.

Aos sete anos, Maria Rita perdia sua mãe, Dulce. E fez sua primeira Comunhão. A vocação para trabalhar em benefício da população carente teve a influência direta da família, uma herança do pai que ela levou adiante, com o apoio decisivo da irmã, Dulcinha. Aos 13 anos, graças a seu destemor e senso de justiça, traços marcantes revelados quando ainda era muito novinha, Irmã Dulce passou a acolher mendigos e doentes em sua casa, transformando a residência da família – na Rua da Independência, 61, no bairro de Nazaré, num centro de atendimento. A casa ficou conhecida como ‘A Portaria de São Francisco’, tal o número de carentes que se aglomeravam a sua porta. Também é nessa época que ela manifesta pela primeira vez, após visitar com uma tia áreas onde habitavam pessoas pobres, o desejo de se dedicar à vida religiosa.

Em 08 de fevereiro de 1933, logo após a sua formatura como professora, Maria Rita entra então para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, na cidade de São Cristóvão, em Sergipe. Em 13 de agosto de 1933, recebe o hábito de freira das Irmãs Missionárias e adota, em homenagem a sua mãe, o nome de Irmã Dulce.

"É preciso que todos tenham fé e esperança em um futuro melhor. O essencial é confiar em Deus. O amor constrói e solidifica"
 
Um galinheiro que virou hospital
Considerado o principal legado de Irmã Dulce, as Obras Sociais Irmã Dulce realizam quase 4 milhões de procedimentos, em saúde, por ano. E o hospital nasceu em um galinheiro. Como não havia espaço para abrigar 70 doentes, ainda em 1949, Irmã Dulce pediu permissão à Sua Superiora para abrigar os doentes no galinheiro ao lado do Convento de Santo Antônio – nascia sua maior obra e o maior hospital da Bahia.

Nós, da Troppo + Mulher, vamos acompanhar de perto o Círio de Nazaré, maior manifestação pública da fé do mundo, mas estaremos conectados, em orações e pensamentos com o mundo inteiro e com orgulho indisfarçado (pedimos perdão) por comemorar também a primeira santa brasileira!

Troppo
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