Riscos aumentados

Lorena Filgueiras

Este domingo, 31, marca o dia mundial sem tabaco, que foi criado em 1987, pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O objetivo, então, era alertar sobre as doenças e mortes evitáveis relacionadas ao tabagismo. Este ano, em razão da Pandemia, a data tem um peso diferente, uma vez que além de ser um fator de risco para o câncer, fumar aumenta consideravelmente o perigo dos sintomas graves da Covid-19. Dados da OMS revelam, inclusive, que o número de fumantes passivos disparou.
 
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, o tabaco mata aproximadamente 8 milhões de pessoas a cada ano. Mais de 7 milhões dessas mortes resultam diretamente do uso do tabaco. Mais de 1,2 milhão de mortes, entretanto, são de não-fumantes, expostos à sua fumaça nociva – ou seja, quase 17% das vítimas do tabaco não levam um único cigarro na boca, mas aspiram toda sua toxicidade. De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil tem aproximadamente 21 milhões de fumantes. Aplicado o percentual de parâmetro para o mundo, destes, quase 4 milhões de pessoas são fumantes passivos.

Com o advento da Pandemia, enquanto se busca uma vacina definitiva para o mal que assola a humanidade, médicos e cientistas observam cuidadosamente o comportamento e a evolução do vírus no corpo humano. Muitas incertezas ainda cercam a doença, mas sabe-se que o fumo representa um risco a mais, uma vez que ele deixa seu usuário extremamente vulnerável ao desenvolvimento de sintomas mais graves decorrentes da Covid-19. 

Mesmo sabedora dos riscos, a dona de casa Suzy Freire, 51, diz que nunca pensou em parar de fumar – hábito que ela adquiriu ainda na adolescência. Ela conta que consumia uma carteira de cigarros por dia, antes da pandemia. Em isolamento social, entretanto, com a crescente tensão e a impossibilidade de sair de casa, ela tem fumado o equivalente a duas carteiras diariamente. “Às vezes, até duas e meia”, admite.

Suzy perdeu o pai e o tio para o câncer de pulmão. Ambos eram fumantes inveterados. “Eu sei que o cigarro faz muito mal, mas realmente não consigo parar”, diz. “Agora com a Covid, parece que aumentou [a intensidade do hábito]. Não sei se é tensão ou se é pânico”. Em 2018, nossa entrevistada revela que foi diagnosticada com Síndrome do pânico. “Eu estava voltando de Altamira e minha pressão foi a 21x14. Procurei uma cardiologista e não deu nada no coração. Ela me pediu para procurar ajuda com psicóloga, mas não fui. Foi diminuindo [a crise] aos poucos, mas agora voltou com tudo por causa da pandemia”, revela.

Em casa, isolada e com diagnóstico positivo para a Covid-19, a dona de casa tem consciência do risco que correu (e que ainda corre). Apesar dos alertas, ela afirma estar tranquila. “Estou com o vírus, mas estou bem, graças a Deus. Senti só um pouco de falta de ar”.

Suzy tem sorte e consciência disso. Segundo o oncologista clínico Sandro Cavallero, 44, além dos 17 tipos diferentes de câncer, o cigarro também pode ocasionar, ao todo, mais de 50 tipos diferentes de doenças, entre elas: enfisema, bronquite, infarto, AVC, impotência sexual, doenças reumáticas, úlceras gástricas, alterações visuais, alterações na memória, e complicações na gravidez. “Em relação à Covid, sabemos que as pessoas com doenças respiratórias e com câncer são pertencentes aos grupos de risco. Como o tabagismo é o principal causador de ambas as doenças, os mesmos estão mais propensos a se contaminarem, assim como de evoluírem para as formas mais graves. Importante ressaltar que muitas vezes as doenças respiratórias causadas pelo tabagismo ainda não causam sintomas no paciente, mas estes já pertencem aos grupos de risco para Covid”, explica.

Já a probabilidade de um fumante desenvolver câncer depende muito da quantidade de cigarros que consome por dia e há quantos anos fuma. “Sabemos que este risco é dose/dependente, ou seja, quanto maior a quantidade de cigarros por dia e tempo em que a pessoa fuma (a carga tabágica), maior a probabilidade de desenvolver o câncer”, explica Cavallero. O risco também varia de acordo com o tipo da doença. “O tabagismo tem relação direta com 17 tipos diferentes de câncer, mas o principal, sem dúvida, é o câncer de pulmão (em média 90% dos casos desta neoplasia), que tem seu risco aumentado em aproximadamente 80 vezes. Algo importante a salientar é que o fumante tem um risco maior tanto de desenvolver o câncer, quanto de morrer do mesmo quando comparados aos não-fumantes. Em relação ao fumante passivo, os estudos, infelizmente, também mostram um risco aumentado que varia de 16 a 25% aptos a desenvolverem o câncer, quando comparados às pessoas que não convivem com fumantes”, detalha.

Tabagismo versus ansiedade

Sabe-se que o vício (seja do cigarro ou de qualquer outra substância) representa uma forma de fuga do stress e da ansiedade. É o caso do personal chef Hugo Corrêa, 24, fumante há 8 anos. “Lembro que acendi meu primeiro cigarro após uma discussão com minha mãe. Antes disso eu ouvia muitas pessoas falarem que era relaxante e tirava o stress. Desde então, estou nele”, conta. 

Apesar de acreditar que ajuda a relaxar, o personal chef não nega os malefícios. “Fiquei com problemas nas amígdalas e acaba me prejudicando no lado respiratório, uma vez que estou acima do peso também. Muitas das vezes sinto dificuldade ao respirar. De resto, me sinto bem, mas confesso que desde quando comecei a fumar, até hoje, nunca fiz uma tomografia no meu pulmão. Não imagino como esteja, mas fico bem preocupado quando lembro que preciso fazer. Quando estou fumando, sempre tento afastar as pessoas do meu lado para que não inalem a fumaça. Porém, nem sempre as pessoas ficam distantes. Evito fumar ao lado de crianças e de asmáticos e gestantes para não prejudicar a saúde delas. Quando acendo um cigarro, sempre me afasto e prefiro fumar sozinho até porque é um momento para relaxar”.

Ao contrário de Suzy, Hugo afirma ter tentando parar de fumar inúmeras vezes. Da última vez, chegou a ficar por quase 4 meses sem um único cigarro. “Comecei até praticar esportes, alimentação diferente. Procurava fazer de tudo pra ver se esquecia um pouco. Buscava conselhos de pessoas que se livraram dele”.

Ele conta ainda que ficou tão nervoso com as notícias tristes, que durante uma única reportagem na TV, fumou “uns dez cigarros: um atrás do outro”. “Fico sempre muito aflito e preocupado com minha família, amigos. Ainda sou do grupo de risco. Tinha dias nesta quarentena, que eu fumava duas, três carteiras. No começo eu tentei segurar, por conta do grande risco e aí as notícias foram vindo e percebi queestava fumando mais”.

A mãe de Hugo chama sua atenção o tempo todo. “Nesse momento que estamos não vai ser bom e vai te prejudicar muito!”, ele reproduz.

Se chegou até aqui e pensou em parar de fumar...

É importante ter acompanhamento psicológico e médico (clínico). Por ser uma espécie de fuga, o oncologista Sandro Cavallero alerta: é muito comum transferir o objeto do vício. “Muitos fumantes, quando cessam o seu hábito, acabam engordando, pois têm a tendência de deslocar sua atenção para os alimentos. Por isso é muito importante discutir com os fumantes, principalmente neste momento de pandemia, todos os riscos que o tabagismo causa ao usuário. Não é fácil largar o vício, mas o primeiro passo é que o fumante queira parar de fumar. Partindo desta conscientização, todo o processo se torna mais eficaz. Então, o primeiro passo é conscientizar da importância de parar de fumar e o segundo passo é procurar ajuda especializada. Sozinho é cada vez mais difícil largar o vício”, finaliza.

Como buscar um tratamento ou saída ao vício num período tão limitante quanto o que vivemos? O oncologista Sandro Cavallero responde:

“Desde 2002, o Instituto Nacional do Câncer, juntamente com o SUS, disponibiliza, de forma gratuita, programas de cessação do tabagismo. No momento atual, o mais recomendado para algumas pessoas é exatamente ficar em casa, então o mais importante é procurar ajuda de casa mesmo. A UFPA está disponibilizando atendimento psicológico gratuito on-line. Existem várias aulas disponíveis na internet para ajudar a manter o corpo saudável. Além disso devemos ocupar nossa mente e pensamento com coisas produtivas e positivas. A internet está cheia de cursos à distância, aulas de meditação e yoga – que ajudam muito. ‘A melhor forma de prever o futuro é criá-lo’, diz o Peter Drucker. Não podemos mudar o passado, mas podemos criar um futuro muito mais próspero, que dependerá de nossas atitudes aqui no presente. Mantendo hábitos saudáveis e responsáveis, com certeza, o futuro será muito mais próspero e com saúde”.

Informações úteis:

A UFPA criou um site para tornar ainda mais acessíveis os serviços que a Instituição colocou à disposição da população neste período da pandemia. Para saber mais, acesse: https://coronavirus.ufpa.br/apoio-a-populacao.

O Hospital Barros Barreto colocou à disposição atendimento psicológico por telefone: (91) 98389.0147

A Clínica Psicológica Virtual da UFPA também oferece atendimento: psicologiavirtual.ufpa.br

Troppo
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