Renascer e confiar

Lorena Filgueiras

O coronavírus chegou e nos obrigou a viver, pelo nosso bem e de todos ao nosso redor, uma quarentena, evitando aglomerações. Neste cenário, a Páscoa deste ano será diferente, mas não menos intensa, porque nos convida a refletir, com maior intensidade, sobre nossos privilégios e todos os ensinamentos desta data. A Troppo + Mulher conversou com algumas pessoas que compartilham um pouco de suas rotinas e aprendizados neste período.

A publicitária Ingrid Rocha normalmente tem uma agenda de trabalho concorrida – é sua rotina. Era. 
Com a recomendação do isolamento social para conter o avanço da pandemia, ela tem se dedicado a um “exercício”, no mínimo, curioso: contemplar o silêncio. Isolada na companhia do esposo, Diego, e da filha, Gabriela, desde o dia 18 de março, Ingrid conta que adaptou seu dia a dia e que transferiu toda a operação da sua agência para dentro do apartamento, sem interromper, desta forma, o suporte aos clientes. “Nossa agência está funcionando perfeitamente no on-line. Utilizamos plataformas que nos permitem, como equipe, prestar um serviço impecável a todos. Nossa interação e organização, inclusive, melhoraram muito”, afirma. E não foi só o trabalho que melhorou: nossa entrevistada passou a ter mais tempo para contemplar a vida e aproveitar a companhia das pessoas ao seu redor. “Dou muito mais valor à vida que tenho hoje. Digo, em relação à estrutura, de amor, afeto e autoconhecimento”, diz. 

Ingrid Rocha e o esposo Diego (Acervo pessoal)

No silêncio que se instaurou na cidade, Ingrid tem redescoberto algo precioso: Deus. “Ele, que se manifesta no silêncio, quando tudo ao redor se cala, tem falado muito dentro de mim. Embora eu ache que esse mundo que vivemos mudou pra sempre, vejo isso com muita esperança. Tenho refletido muito e conversado muito com o Senhor Jesus. A vida, a alegria e tudo que Ele sempre me proporcionou tem triplicado, mesmo em meio ao caos que vivemos.

Estranho né? Mas acredito piamente que tudo acontece por um propósito maior e para o bem de todos, de alguma forma, mesmo que inexplicável. Tenho esperança dentro de mim”. A Páscoa, portanto, terá um gosto diferente, mas não menos doce. “Participo de um grupo que tem pessoas do Brasil inteiro e até do mundo. A quantidade de dores que vejo despejadas lá dentro, sobre esse período, me fez perceber o quão saudável é a vida que tenho hoje. Não de uma forma soberba, mas com muita gratidão a Deus pelo equilíbrio que tenho em meu entorno nas relações pessoais e profissionais”, finaliza.

Gabriela e Ingrid (Acervo Pessoal)

Eu, você, três filhas e um cachorro

A também publicitária Érika Horiguchi corrobora a importância deste momento para a própria família. “Nunca pensei que o isolamento social traria tanta coisa boa, aprendizado e descobertas. Estou com a minha família, marido e três filhas. Tem sido incrível o tempo que estamos passando juntos, aprendendo a dividir as tarefas, respeitando o tempo e o espaço de cada um, fazendo um dia a dia leve, sem a dureza das obrigações – o que nos torna ainda mais responsáveis com as missões que aparecem... porque, apesar de estar em casa, as meninas continuam estudando e eu, trabalhando em home office”, conta. 

Érika realmente se surpreendeu com as benesses advindas deste período. “Ser mãe de três crianças é tenso; uma culpa eterna de não poder estar mais perto. Portanto, estou mais mãe, mais produtiva, uma filha mais atenciosa e uma dona de casa muito mais realizada”, afirma. Católica, com “um pezinho no espiritismo”, como ela mesma define, a publicitária tem refletido muito sobre tudo o que está ocorrendo. “Não acho que tenha ressignificado alguma coisa... Acho que reafirmei muito! Intensifiquei e pude dar atenção para muitos aspectos que estavam pendentes e que me causavam muita frustração. Quando a gente olha pro lado, tem muita gente sofrendo, passando fome, com toda essa situação. Somos extremamente privilegiados e falamos disso todo dia. Em busca de ajudar quem precisa, vejo as pessoas muito mais solidárias, dando as mãos aos que chamavam de ‘concorrente’ ou procurando formas de ajudar ao próximo: aquela história do fazer o bem sem importar a quem. No final das contas eu só vejo evolução lá na frente, nada é por acaso, tudo tem um grande motivo”, conclui. 

Mais tempo e brincadeiras

O jornalista Ronaldo Penna comemorou seu aniversário de cinquenta anos no último dia 29 de março, juntamente com a esposa, Isadora, e os dois filhos, Gabriel, 20, e Rafael, 6. A celebração teve de ser ajustada e mais “restrita”, em função do isolamento social – nem por isso, menos charmosa e feliz, refletindo o próprio estado de espírito da família. “Estamos encarando com tranquilidade essa situação inédita”, revela Penna. “Meu caçula está adorando ficar em casa. Tem conversado muito com os colegas da escola, usando um aplicativo, brinca bastante, vê muitos vídeos, filmes e voltou a estudar, agora on-line. Compramos uma piscina de plástico pra ele curtir na sacada e tenho tido mais tempo de brincar com o ele, que me cobrava muito isso. O mais velho é que tem sentido mais falta de sair. Também tenho tentado ampliar a convivência com ele, mas ainda perco feio pro celular. Com minha mulher tem sido muito bom. Temos conversado mais, visto filmes, feito mais coisas juntos. Pra mim, isso tudo é qualidade de vida. É um privilégio esse maior convívio familiar. Claro que todos sentimos muita falta dos outros familiares, dos amigos, de abraçar as pessoas que amamos, que não moram com a gente, mas estamos tentando compensar pelo telefone, com chamadas de vídeo, nos comunicando com maior frequência, dando mais atenção, mesmo que de longe”, detalha. 

Para Ronaldo, o período tem sido muito importante para retomar alguns hábitos suprimidos em função da rotina normal. Leitura e reflexão têm sido alguns deles. “Estou lendo Escravidão, do Laurentino Gomes. Comecei antes do isolamento social e agora - finalmente - estou tendo mais tempo. Tenho lido um pouco, todos os dias, o que é uma maravilha! Essa situação surreal nos faz pensar em muita coisa, como, por exemplo, ver todo mundo do mesmo barco: pobre, rico, brasileiro, europeu, norte-americano. Um banqueiro morrer sem que a família, cheia de dinheiro, pudesse fazer nada. Espero que a gente aprenda um pouco sobre igualdade e humanidade com essa pandemia”, diz. A Páscoa, naturalmente, reforça os desejos de esperança. “Só mesmo a fé em Deus pode nos dar uma vida nova. Tenho que continuar tentando, junto com as pessoas que mais amo, a me fortalecer na fé e no amor”.

Isolamento com muitos

A psicóloga Liège Almeida está vivendo um isolamento “não muito isolado”. “Estou em casa com meu marido; minha filha, seu marido e um casal de filhos gêmeos de 1 ano e 8 meses; além de duas funcionárias que aceitaram vir morar conosco enquanto durar esse processo. Mantemos uma conivência muito boa, que apresenta as contradições naturais das relações humanas: alegrias e tristezas, bom ânimo e medo, paciência e irritação... Mas o que prevalece é a confiança mútua e a esperança ‘do verbo esperançar’, como diz o Mário Cortela [filósofo]”, inicia. A família é maior: há ainda mais duas filhas e um filho, casados e com filhos, morando em Belém e em Minas Gerais. “Estamos sempre conectados por celular, grupos e vídeos... Assim com os demais parentes e amigos”, detalha.

Espírita e voluntária em uma entidade, Liège revela que tem realizado as mesmas ações, mas com uma “infraestrutura diferente”. “Sei que por fazer parte do grupo de risco, afinal tenho 64 anos, ainda precisarei permanecer com restrições por mais tempo. Então, estou respirando e mentalizando paciência, resiliência e esperança. A vida profissional igualmente precisou ser ajustada a esse meio e minha participação voluntária em uma instituição de assistência social, tem exigido reuniões e acompanhamento de processos, realizados neste mesmo formato”.

A doutrina espírita tem sido sua companheira inseparável ao longo dos anos e, ainda mais presente neste momento. “O espiritismo é uma doutrina cristã e tem em Jesus, não um salvador que tira os pecados do mundo, mas um mestre que se ofereceu a nós como modelo. Veio à Terra para demonstrar e ensinar. Assim como um dedicado professor ou professora, pega na não da criança com delicadeza ajustando a posição do lápis...  Cabe a nós continuar nosso aprendizado, exercitar a escrita, construir o nosso próprio texto.

Neste momento de pandemia, muitas coisas já foram refletidas por todos nós. Recebemos muitas mensagens de mudança, de novos tempos que se aproximam. Menos egoísmo, menos ambição por dinheiro e poder, menos violência... Mais água limpa, mais gentileza, mais tempo para amar e criar beleza”, pondera.

Um Papa no meio do caminho

A pesquisadora Ima Vieira teve um inesquecível ano de 2019. Convidada a integrar a seleta comitiva de pesquisadores para o Sínodo da Amazônia, em Roma, Ima conheceu (e conversou) pessoalmente o Papa Francisco, uma experiência marcante para ela. 

Vivendo o isolamento na companhia dos dois filhos, Murilo e Tomás, a pesquisadora diz que tem trabalhado em casa (além de cumprir o horário de trabalho), mas alternando com alguns serviços domésticos, que não fazia antes, como cozinhar. “Como cientista, sei que o isolamento se impõe como único meio de desacelerar a transmissão do Coronavírus, preservando a capacidade de ação dos sistemas de saúde. É a única arma que temos para nos defender, então aceitei bem este período de isolamento e tento manter uma rotina saudável e produtiva. Isso exige disciplina e a superação de medos e incertezas. Não é fácil, mas estou conseguindo”, diz.

Viagens foram adiadas e as reuniões, mantidas virtualmente, bem como as defesas de teses de seus orientandos de mestrado e doutorado. Embora a rotina seja cansativa, Ima não abre não de acompanhar as notícias e as pesquisas científicas sobre a Covid-19. “Logo que acordo, leio as principais notícias e, pelo procuro interagir com colegas sobre os últimos dados da pandemia, fazer algumas reflexões e depois acesso alguns sites específicos para seguir o que a ciência está produzindo. E fiquei surpresa com a quantidade de estudos novos, [produzidos] até março de 2020: são cerca de 650 artigos, ou seja, 1 a cada 3 horas. E isso é espantoso e espetacular!”, afirma. 

“Isolamento só de contato físico! Mantenho contato com a minha família e amigos/as por meio de mensagens chamadas de vídeos. É uma forma de demonstrar o amor que sinto por eles e de abraçá-los com palavras e gestos. Além de rir muito com piadas e posts engraçados, que adoro curtir”, relata. Ela revela ainda que tem formado redes de solidariedades e tem refletido ainda mais sobre a pouca informação que chega às comunidades amazônicas. “A fragilidade do sistema de saúde me preocupa sobremaneira, pois as condições precárias e desiguais de tratamento podem resultar em uma taxa de mortalidade maior que em outras regiões do Brasil.

Neste sentido, tenho ajudado com informações e orientações uma série de comunidades rurais e no momento estou criando uma campanha #FICANARESEX, voltada para as comunidades das Reservas Extrativistas, que, assim como outras, enfrentam um cenário de risco, com pouco acesso ao sistema de saúde. A ideia é conscientizar as comunidades sobre os perigos da doença e divulgar como evitar o vírus, quais os sintomas e os cuidados que eles devem ter”. Com o advento da Páscoa, Ima convida a refletir sobre a vida. “Precisamos viver da melhor forma possível nessa crise e, para isso, precisamos nos redescobrir. As pressões são enormes, a finitude está do lado.

O isolamento impõe que nos adaptemos e encontremos novas formas de nos divertir, de rir e viver bem, somente em casa. Aproveito como uma ótima oportunidade de melhorar o autoconhecimento. Busco aquecer a alma com as coisas que me fazem bem e me trazem esperanças. Passei a usar mais cômodos da casa e isso me ajudou a ressignificar a importância do espaço e do tempo em nossas vidas”

Troppo
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