Razões para acreditar

Dois pacientes curados e um médico, que atua diretamente no combate à doença nos contam histórias inspiradoras e nos enchem de esperança

Lorena Filgueiras

Sem vacina até o momento e com um alto poder de letalidade, a Covid-19 não distingue pessoas. Nesta matéria especial, conversamos com dois pacientes curados e um médico, que atua diretamente no combate à doença – de quebra, tivemos a oportunidade de conhecer a avó dele, dona Iolanda, curada aos 90 anos. São histórias inspiradoras e nos enchem de esperança.

O empresário Clodoaldo Rocha, 61 anos, fez aniversário no último dia 24 de abril. O maior (e melhor) presente veio em forma de cura, depois de ter sido diagnosticado com a Covid-19. “No dia 16 de março, tirei uma pedra da bexiga com laser. Tive alta no mesmo dia e voltei para casa, com a receita do antibiótico, que tomei. Uma semana depois, fui tomar a vacina contra a gripe. Tive febre pelos três dias seguintes. Melhorei no final de semana da febre, mas continuava muito mal. Na segunda-feira, minha esposa insistiu que fôssemos à emergência do meu plano de saúde. Contei para a médica da cirurgia de lasere ela disse que podia ser uma infecção urinária, mas que, em todo o caso, faríamos todos os exames”, conta.

A médica, de posse do resultado dos exames, pediu que Clodoaldo fizesse um outro exame: o de pulmão. Quando a médica retornou, perguntou se o empresário estava com acompanhante e pediu que ambos entrassem no consultório. “Ela disse que eu estava com Covid e que quase 50% dos pulmões estavam afetados. Foi um susto danado porque nunca, em toda a minha vida, coloquei um único cigarro na boca! Aquilo, pra mim, foi uma sentença de morte”, relata.

Internado imediatamente em uma ala destinada ao tratamento dos infectados pelo novo coronavírus, Rocha conseguiu ser transferido para um leito, em hospital especializado, ainda na madrugada. Embora se sentisse muito cansado, felizmente, ele não teve falta de ar. “Minha esposa ficou comigo o tempo todo e, dois dias depois, a médica entrou no quarto e disse que eu estava recuperado e que teria alta. Tive vontade de tirar tudo e abraçá-la”, revela entre gargalhadas. “O que eu posso dizer é que quando volteipra casa, me isolei por quinze dias. Faltei até aos aniversários de dois filhos meus que ainda moram comigo. Eu fiz a minha quarentena e queria que todos fizessem as suas, porque essa doença não é brincadeira”, alerta.

Clodoaldo Rocha completou 61 anos no último dia 24 de abril. O maior (e melhor) presente veio em forma de cura, depois de ter sido diagnosticado com covid-19

Pergunto se, em algum momento, ele temeu pela vida. “Muito! Na hora em que recebi o diagnóstico, já conversei com a minha esposa e passei orientação para tudo, em relação aos meus filhos, enfim, falamos de tudo! Achei que não sairia mais de lá, mas Deus é grande e os médicos que cuidaram de mim, incansáveis e maravilhosos! Se você me perguntar se o medo passou, te respondo que não. Sinto muito temor, porque não tenho certeza de que estou imune. Aliás, ninguém tem essa certeza”, diz.

Quando ele vê a quantidade de pessoas que estão nas ruas, bate uma angústia enorme. “O vírus é muito forte. Temi pelos meus filhos, por minha esposa e família. Se você não quer ficar em casa por você, que pense neles. Esse ano, a gente precisa deixar dinheiro de lado e preservar o que há de mais valioso. Vai ser muito bom se, na virada deste ano, em primeiro de janeiro de 2021, todos estiverem reunidos. Quero aproveitar para fazer um apelo à Saúde Pública, para que deem mais atenção aos mais pobres, às pessoas desassistidas. Vai ser um mundo melhor se todos puderem ver um irmão no mais próximo”, finaliza emocionado.

Olhar atento

O médico e emergencista Cláudio Henrique Neves, 40 anos, é um dos médicos à frente do combate ao Coronavírus, desde que o primeiro caso foi notificado no Pará.Ele integra, desde então, um time responsável pela adequação do material de produção (os EPIs) e treinamentos das equipes diretamente envolvidas.

Para além de salvar vidas de centenas de anônimos, Caíque, como é carinhosamente apelidado por amigos e familiares, salvou a vida da avó, Iolanda Oliveira, de 90 anos. Ao perceber a maneira com que a avó respirava, uma luz amarela acendeu dentro dele. “Por se tratar de uma doença nova, nem sempre os sintomas são os mesmos. Nesse caso, o que me chamou a atenção foi a frequência respiratória que estava o dobro do normal mesmo ela estando em repouso e sem queixas”, relata.

Ao diagnosticar a Covid-19, o médico afirma ter ficado apavorado, em função da idade dela, mas não perdeu tempo: iniciou as medicações rapidamente e dona Iolanda teve alta essa semana. Um caso a ser duplamente comemorado, já que a aposentada integra um grupo de risco e, graças ao olhar observador do neto, pode se tratar e recuperar plenamente.

É difícil até imaginar a rotina de um profissional da saúde, nestes tempos de caos pandêmico. Caíque diz que tem dormido pouquíssimo e que sente temor, como qualquer outra pessoa. “Além do perigo de contaminação, também tem o medo de levar a infecção para outros fora do ambiente hospitalar.Somente casa e trabalho!”, afirma.

Pergunto como ele faz para desacelerar, ao que ele responde que não tem dormido bem. “O estado de alerta, mesmo fora do hospital, dificulta o sono. Optei por me isolar em casa sem visitas, tenho uma roupa exclusiva para os plantões que é lavada separadamente com produtos próprios para desinfecção e estou afastado de parentes e amigos”, relata.

A angústia também gira em torno da saturação do sistema de saúde. “O colapso do sistema chegou antes do esperado. Pacientes voltando pra casa sem atendimento, filas, hospitais fechados, medicamentos sumindo das prateleiras das farmácias... nunca me imaginei nesta situação!Minhas saúdes, tanto mental quanto física, são minhas preocupações, pois o desespero de acompanhantes e pacientes em querer atendimento imediato faz com que tenham reações inesperadas. Há relatos de colegas que foram agredidos e ofendidos”.

Sem perder as esperanças, nosso entrevistado diz que a dor maior, neste momento, é perceber que os números de óbitos começaram a se tornar nomes de conhecidos, amigos ou colegas de trabalho, mas que ver a avó “driblando” a doença e voltando para casa, renova as forças. “O risco iminente de perder alguém próximo me faz querer voltar ao trabalho para usar esta mesma determinação e amor com todos, assim como fizcom Iolanda”.

O primeiro caso, a primeira recuperação

O advogado Paulo Roberto Bentes, 37 anos, foi o primeiro paciente confirmado com a Covid-19. Ele sentiu uma irritação na garganta no dia 08 de março e febre. Quando o isolamento social foi decretado, no dia 12 daquele mês, ele foi à unidade de urgência e emergência de seu plano de saúde para exame e coleta. Como os sintomas se agravaram, ele foi internado.

Os exames atestaram negativo para H1N1 e para outros vírus respiratórios. O resultado para a Covid-19 ainda não tinha saído, quando seu estado de saúde melhorou e ele teve alta na manhã do dia 18 de março. Naquela mesma tarde, o exame feito dias antes, atestara positivo para a Covid-19. Recuperado, ele diz que sempre foi tranquilizado pelos médicos – mesmo diante do posterior resultado positivo – diante da ausência de sintomas graves.

“Creio que essa doença, se ainda não mudou, vai ou, pelo menos, deveria mudar a maneira de todos verem o mundo, onde não importa cor ou classe social. Todos são interdependentes e a ação ou omissão de um interfere, sim, na vida do outro... não só negativamente, mas, sobretudo, positivamente nos diversos exemplos de solidariedade que vimos.As medidas de prevenção como o distanciamento social são essenciais para proteção de si próprio si e dos demais”, diz

Casado, pai de 2 filhos (“uma menina de 9 anos, que fez aniversário no último dia 4 de abril e que teve uma festa on-line”, ele complementa), e um menino de 5 anos. “Estou completamente bem, trabalhando de casa e inclusive já voltei a fazer atividade física em casa também. Após a alta, fiquei isolado no quarto.Minha esposa, minha filha e meu irmão, com os quais tive contato anterior, tiveram febre e fizeram testes, que deram negativos. Os demais familiares, amigos e colegas de trabalho não tiveram nenhum sintoma. Os que tiveram contato e fizeram testes, também deram negativo”, finaliza.

É uma doença difícil e, pelo aspecto mutante do vírus, conforme preconizou a pesquisa brasileira, embora haja grupos de risco, é impossível prever a violência com que ele vai atacar os organismos de outros grupos, como crianças, adolescentes, adultos saudáveis. Até que se descubra (e se produza) uma vacina para debelar essa praga, o isolamento social é considerada a medida mais eficaz até aqui, sendo necessário para conter a disseminação da doença. Como disse nosso primeiro entrevistado, o empresário Clodoaldo Rocha, “se não for para ficar em casa por você, que fique por sua família e filhos. Sempre haverá motivos para a gente acreditar em dias melhores”. 

Os números e as subnotificações

Até o fechamento desta edição, na última quinta-feira, 30, o site da Secretaria de Estado de Saúde do Pará, trazia informações de 150 óbitos, em meio a 2.470 casos confirmados (além de 325 casos em análise) e 1.250 pacientes curados.

O problema da subnotificação no Brasil (e no mundo) é um dos agravantes da crise. Segundo dados do portal Covid-19 Brasil (uma iniciativa que reúne, em um único local, cientistas de inúmeras instituições brasileiras), publicados pelo jornal O Globo, no último dia 30 (tendo por base os dados de 28 de abril), “o número total de infectadospelo coronavírus no Brasil chegaria a 1.201.686 (podendo flutuar entre 957.085 e 1.494.692), número 16 vezes maior que o oficial naquela data, de 73.553 (que considera somente doentes graves e mortos).

Troppo
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