Ranger dos dentes, o bruxismo, já acomete 30% da população mundial

No Brasil, índice de atingidos chega a 40%

Vanessa Van Rooijen

Ranger dos dentes, principalmente durante o sono, não é comum. O bruxismo, dependendo da ocorrência, pode ser um comportamento do sono, uma atividade produtora ou ainda sinalizadora de alterações sistêmicas do corpo. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o problema atinge 30% da população mundial. No Brasil, aproximadamente 40% das pessoas sofrem desse distúrbio.  

A advogada Juliane Vieira Azancot, 36 anos, descobriu que a filha, Fernanda, de 5 anos, estava com bruxismo há aproximadamente um ano. A descoberta ocorreu de noite, durante o sono da criança e, a partir daí, Juliane começou a fazer pesquisas sobre o assunto. Após entender que o bruxismo pode ter diversas causas, a advogada decidiu levar a filha em um especialista.  

Fernanda (Naiara Jinknss)

Fernanda não teve nenhuma mudança alimentar e bucal em razão do bruxismo, já que não acorda durante a noite e nem têm insônia, mas Juliane afirma que procurar um dentista foi fundamental. "Logo que percebi o bruxismo, levei-a ao dentista para a verificação de possíveis desgastes nos dentes ou qualquer outro tipo de distúrbio dentário. Procuro sempre profissionais qualificados logo que noto algum desconforto em minha filha. Acho que um tratamento precoce sempre evita complicações futuras", afirma. 

E Juliane tem razão. De acordo com a odontopediatra Karlena Moura de Souza, o bruxismo infantil é considerado um transtorno involuntário e inconsciente do movimento, caracterizado pelo excessivo apertamento ou ranger dos dentes, podendo ocorrer durante o sono ou em vigília. Fatores que podem causar o distúrbio são: patologia do sistema nervoso central (epilepsia e down), genética, doenças cirúrgicas (rinite e asma), estresse, ansiedade, refluxo gastroesofágico, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), dentre outros. "É preciso fazer uma investigação individual para avaliar e descartar as diversas causas. Normalmente as crianças mais ansiosas, com nível maior de estresse, falta de concentração; pacientes com necessidades especiais como portadores de síndrome de Tourette; crianças que tendem a ficar concentradas na internet antes de dormir, estimulando a insônia; e pacientes com síndrome do respirador oral e uso de medicamentos são as mais propícias para desenvolver o distúrbio", pontua. 

Karlena (Naiara Jinknss)

A dentista explica que existem tipos de bruxismo. "No bruxismo primário, do sono, pode haver influência genética, parecendo um distúrbio crônico persistente. Já o bruxismo secundário, da vigilância, está relacionado com a ansiedade, estresse e concentração", descreve.  

O diagnóstico do bruxismo pode ser feito a partir dos sinais clínicos, como desgaste dos dentes, língua edentada e hiperqueratose; ou por meio do exame de polissonografia, mas também pelo auto-relato dos pais. "Os pais conseguem ouvir o ranger dos dentes dos filhos durante a noite. Este é o principal sinal. O ranger envolve um enorme contato entre os dentes superiores e inferiores, seguidos de movimentos da mandíbula, produzindo sons desagradáveis, enquanto o apertamento se caracteriza por contatos dentários silenciosos, fortes e sem movimentos mandibulares", explica.  

O tratamento pode ser psicológico com aconselhamento, psicoterapia, técnicas de relaxamento ou medidas paliativas com protetores de dentes ou placas que irão proteger os dentes, aliviar o sistema mastigatório e reduzir a atividade elétrica muscular causadora da tensão. "Como as crianças estão em processo de crescimento e desenvolvimento, as trocas destes dispositivos devem ser periódicas, sob supervisão do dentista", explica a especialista. 

Após prestar atenção no sono do filho, Julia Azancot, 34, também percebeu que Pedro, de 6 anos, apresentava sintomas do bruxismo enquanto dormia. Segundo Julia, o ranger dos dentes não parava. A enfermeira conta que até o momento não iniciou o tratamento, mas percebe que a dentição do filho está ficando irregular o que já fez ela pensar no uso de aparelho ortodôntico. "Percebi o ranger dos dentes quando meu filho tinha 4 anos. Sempre estimulei uma higiene bucal e alimentação conforme as necessidades da idade, mas em nenhum momento fiz alguma alteração em decorrência do bruxismo", afirma. 

Julia e o filho (Naiara Jinknss)

Julia orienta os pais a prestarem atenção nos filhos e buscarem informações em especial aos transtornos advindos do bruxismo. "Dou como dica atentarem durante o sono dos filhos, tirar um momento da noite e observar se tem alguma alteração para assim não se intensificar caso tenha, e entender que além da saúde, a estética também pode sofrer alterações", afirma. 

Tratamento na fase adulta

A jornalista Melina Marcelino, 32 anos, foi diagnosticada com bruxismo e apertamento bucal aos 10 anos de idade, mas só começou o tratamento depois dos 20. Ela ia de 6 em 6 meses ao dentista e sempre era alertada sobre o desgaste nos dentes inferiores da frente que apresentava. 

Ela conta que nas consultas à dentista reconstruía as áreas desgastadas com resina e assim permanecia. "Eu fazia o procedimento, mas meses depois a resina caia de tanto ranger os dentes e apertar. A orientação inicial foi colocar aparelho, mas aí houve uma resistência minha. Eu não queria usar aparelho e minha mãe acabou cedendo. Depois dos 20 eu comecei a sentir sensibilidade nos dentes, dor de cabeça, no rosto, no maxilar e até no pescoço. Então tive que buscar tratamento", lembra. 

O tratamento de Melina começou com o uso de uma placa dentária para dormir, o que, para ela, foi bom no início. Ela sentiu alívio quanto ao desgaste dos dentes. "Eu lembro que a dentista fazia umas massagens no maxilar e no pescoço, colocava umas sementinhas atrás da minha orelha, acho que era algum ponto de tensão que, com essas sementes, iria me relaxar. Depois de uns 3 anos com a placa a dentista percebeu que a pressão do apertamento e o bruxismo não tinha diminuído tanto. Os meus dentes da frente estavam trincando então tive que colocar o aparelho para modificar a minha mordida e diminuir o impacto e desgaste. Uma coisa que minha dentista sempre orientou foi buscar atividades que me ajudasse a diminuir o estresse e a ansiedade e tentar levar uma vida mais tranquila", conta.

Melina Marcelino (Naiara Jinknss)

A jornalista afirma que o bruxismo afetou mais a questão estética durante a infância porque os dentes passaram a sofrer modificações. "Ficavam meio quadradinhos nas pontas e eu tinha sempre que ir ao dentista refazer a resina. Também não queria usar aparelho porque achava feio", afirma. O que Melina não sabia era que uma das causas do bruxismo era a ansiedade. "Eu não tinha muita noção de que a ansiedade era a causa disso e nem como isso ia me afetar no futuro. Se eu pudesse voltar atrás, procuraria tratamento ainda na infância. Mas não só ortodôntico, algum tratamento para diminuir a ansiedade e aprender a controlar melhor esses efeitos também", afirma.

Melina orienta a todos que apresentem os sintomas a buscarem cuidados odontológico e psicológico. A odontopediatra, Karlena Moura de Souza, reafirma que o tratamento é muito importante. "Fazer o tratamento de forma adequada protege a dentição, reduz o ranger dos dentes, alivia as dores faciais e temporais, além de promover qualidade de sono para as crianças", conclui.  

Troppo
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