Rainha nunca perde a majestade

Lorena Filgueiras

Maria Odete Brito de Miranda chacoalhou o Brasil na década de 80 com músicas dançantes e um rebolado inédito. O nome não soou familiar? E se falarmos em Gretchen? 

Gretchen (Fábio Pamplona)

Sinônimo de ousadia e revolução, a artista levou para indústria fonográfica um estilo muito pessoal, que lhe rendeu quase 15 milhões de discos vendidos e a impressionante marca de quase um show por dia, ao longo de três anos, fato que a colocou em uma posição confortável entre os grandes artistas brasileiros. Mais recentemente, com a popularização das redes sociais, a cantora passou a ser conhecida (e amada) por jovens que, muito certamente, não acompanharam o auge de sua carreira: ela domina, inclusive, os memes e figurinhas que se multiplicam todos os dias nos smartphones das gerações Y e Z.

Tal repercussão chamou a atenção da cantora norte-americana Katy Perry, que convidou Gretchen para gravar um videoclipe e declarou posteriormente, que “ela era a própria internet”. O que talvez poucos saibam é que nossa entrevistada especial deste domingo é uma mulher reservada e muito, muito exigente – tanto que ganhou o apelido de “general”. Apaixonada e em um relacionamento sério, Gretchen está morando em Belém junto com o companheiro Esdras de Souza, músico local. Nesta entrevista, ela se derrete em elogios para ele, naturalmente, e conta um pouco do começo da carreira, da saudade dos filhos. Revela ainda que a caçula, Valentina, adotada por ela com menos de um mês de vida, é paraense e que ficou impactada pelo Círio, tornando-se católica depois que nossa Senhora de Nazaré concretizou uma promessa – sobre a qual não fala. Foi uma entrevista por telefone, recheada de gargalhadas e com inúmeras surpresas, como vocês acompanham a partir de agora.  

Troppo + Mulher: Qual sua percepção deste momento, Gretchen?
Gretchen: Vejo que muitas pessoas começaram a mudar, a prestar atenção ao que é realmente importante na vida da gente.

T+M: Você está passando esse longo período aqui, em Belém... amando e sendo amada, como já é de conhecimento de todos. Fica mais fácil se recuperar e viver este momento desta forma?
Gretchen: Com certeza! Eu tive muita sorte que justamente nesta época, em que foi decretada a quarentena e o fechamento de muitas fronteiras, de estar aqui. Primeiro que eu me sinto muito protegida aqui neste estado. Eu me sinto muito tranquila e segura. Obviamente que não tenho saído muito à rua porque sou grupo de risco por ter 60 anos, mas quanto tenho que sair, cumpro à risca as determinações. Estou o tempo todo com o Esdras, então estamos compondo muito, escrevendo muita coisa juntos, trabalhado num EP... É muito bom estar com ele. 

T+M: Então tem novidade a caminho? Há previsão para você lançar o EP?
Gretchen: Então, como não temos saído de casa, temos pesquisado muitos ritmos, escolhendo batidas... Isso demanda muito tempo. Na última sexta-feira, ficamos por quase 5 horas fazendo isso. A vantagem de estarmos juntos, neste período, é poder trabalhar com muita calma neste projeto. 

T+M: Você mencionou ser do grupo de risco por já ter 60 anos. Em função de toda a tecnologia cosmética e avanços na Medicina, diz-se que os 60 são os novos 50. Como defines esse momento da sua vida?
Gretchen: É minha melhor fase! Com certeza é minha melhor fase, porque consegui passar muito tranquilamente pela menopausa. Aos primeiros sinais, comecei a fazer logo a reposição hormonal. Eu me trato com nutrólogo... tenho implante de hormônios, já fiz tratamento com vitamina B12. Me tratei desde o começo. A melhor idade, pra mim, de fato, é a melhor idade.

T+M: Você tem um neto que acaba de chegar [Bento, filho de Thammy Miranda], além dos filhos. Como tem sido administrar essa saudade?
Gretchen: Olha, tem sido difícil. Tenho cinco netos e sentido muita falta deles. Temos feito muitas videochamadas para tentar matar um pouco da saudade, saber como eles estão. E assim, levamos. Nós somos uma família muito consciente, sabe? Encaramos bem a realidade. Se a situação é essa, vamos enfrentá-la do jeito que ela é. 

T+M: Você se tornou a rainha da internet para uma geração que muito provavelmente não acompanhou sua carreira como cantora, as apresentações nos programas de auditório... Como vê esse lance de ser o ídolo de jovens na casa dos 20 anos? Como é trocar energia com eles?
Gretchen: Ah, tem sido incrível! Conviver com eles me traz uma energia nova, o frescor da juventude e tudo isso me permite estar muito antenada. Eu tenho filhos em idades muito diferentes, então tenho que estar ligada em tudo que está acontecendo. Inclusive, eu tenho uma de 9, que logo vai entrar na adolescência, então preciso estar preparada para quando esse momento chegar. 

(Fábio Pamplona)

T+M: EM uma live com o Fábio Porchat, em meados do mês de março, você declarou que achava ter contraído a Covid-19, por conta de toda a sintomatologia, que lhe lembrou a malária – doença que você também disse ter tido na época em que fez shows em Serra Pelada. Você lembra quando foi isso?
Gretchen: Olha, o ano eu não lembro com exatidão, mas faz muito tempo... deve ter uns 30 anos. Não foi bem em Serra Pelada, mas nos garimpos de Itaituba. Trabalhava lá e nas cidades próximas, então peguei malária nessa época. Inclusive, eu fui tratada por esse médico, que está tratando da cloroquina, o doutor Marcos Boulos. 

T+M: O universo dos programas de auditório, período muito prolífico para esse segmento na TV brasileira, foi vivido intensamente por você e por muitos outros artistas da sua geração. Muitos desses nomes decidiram falar, mais recentemente, sobre assédio e coisas que rolavam nos bastidores desses programas. Você sofreu isso? 
Gretchen: Olha, eu tive muita sorte quando comecei a minha carreira, porque eu tive um divulgador, que era irmão de uma cantora muito famosa na época, a cearense Kátia Cilene, que me ensinou e ajudou muito. Ele me ensinou a lidar com as pessoas. Pedia que eu me resguardasse... eu tive um guardião, com quem aprendi tudo nesse campo. Mas, respondendo à sua pergunta, lógico que eu fui assediada. Não era um assédio tão escancarado quanto os que vejo hoje – havia uma pressão velada. 

T+M: Falando em programas de auditório, qual foi o papel deles na tua carreira?
Gretchen: Foram todos muito importantes, mas eu realmente apareci e fui reconhecida quando participei do “Qual é a música?” [a primeira versão do programa é de 1976 e foi capitaneada por Silvio Santos, logo após sua saída da Globo]. Quando entrei no programa, comecei a ganhar [havia uma competição entre famosos] e passei seis meses no ápice! Foram 25 semanas de competição! Passei muitas vezes pelo Chacrinha, no Globo de Ouro, mas o “Qual é a música?” fez toda a diferença na minha vida. 

T+M: Você é mãe de um ativista político, com uma história incrível para contar [no fim de 2014, Thammy Miranda assumiu sua real identidade de gênero, como homem trans, e iniciou sua transição]. Como mãe e cidadã, qual sua visão da trajetória política do Thammy? Aliás, costumam falar sobre política?
Gretchen: A gente não fala sobre política, porque ele sabe que não gosto. 

T+M: Mesmo?
Gretchen: É verdade! Sou muito verdadeira em minhas entrevistas. O Thammy será de grande valor para a política, porque ele é candidato pela cidade de São Paulo e penso mesmo que ele será um exemplo de político... porque como homem, eu sou suspeita de falar, afinal, eu o criei e eduquei. Aliás, todos os meus filhos são assim. O Thammy, em especial, por ser trans. Eu Criei meus filhos para que fossem homens de verdade, que valorizassem suas mulheres. Sou muito chata com essas coisas, tanto que em casa, meu apelido é “general”! Sou pior que o capitão Nascimento! [ela ri]

T+M: Estou surpresa com o apelido.
Gretchen: Eu tive uma criação muito rígida. Fui educada em colégio de freiras, muito ao contrário do que as pessoas pensam. Eu estudei, fiz faculdade. Sou formada em Letras. Muito dificilmente as pessoas querem saber quem eu sou. Querem saber que eu casei não sei quantas vezes... e nem foi tudo isso, porque se eu tivesse casado o número de vezes que as pessoas acham, eu não teria feito tantas outras coisas na vida.

T+M: Faz sentido, mas, Gretchen, se você tivesse casado 15 vezes, isso é algo que só lhe diz respeito – e a mais ninguém. 
Gretchen: Isso!

T+M: Agora que já sei da tua fama de general, és muito exigente contigo mesma?
Gretchen: Sou extremamente organizada e ensinei meus filhos a serem também. Sempre fui os orientei para que fossem “presos” à realidade da vida, porque eu não sei quanto tempo eu vou durar e não durarei a vida inteira. Eles têm que se virar sozinhos enquanto eu não estiver. Por isso, tive que ser bem dura com eles. A de 9 anos, quando acorda pela manhã, arruma a própria cama, toma banho, se arruma e faz o próprio café dela. Vai para escola e quando ela volta, tira o sapato fora de casa e passa direto para o banheiro. Dobra a roupa limpa, se tiver; coloca a roupa suja no cesto para ser lavada. O quarto dela é impecável. Assim ensinei todos eles, que têm que saber fazer as coisas e não depender de ninguém. Assim foi a vida inteira – em relação às vidas deles, estudos. Inclusive, eu não cobro boletim deles, mas sempre deixei claro que eu sou formada, já estudei e quem tem que tirar nota alta são eles, não eu. “Se não passarem de ano, o problema é de vocês”. Sempre digo isso.

T+M: Me adota, Gretchen? [risos]
Gretchen: [ela cai na gargalhada] Tenho duas que são adotadas. A mais nova, inclusive, é paraense [Valentina, de 9 anos, que mora na França]!

T+M: Que maravilha! Sabia que você tinha adotado, mas não fazia ideia de que havia uma paraense.
Gretchen: Essa é uma das inúmeras histórias de amor e carinho que tenho com a terra de vocês. Eu a adotei quando ela tinha apenas 10 dias de vida. Ela mora na França e estuda no sistema francês. Mas ela também já disse que um dia quer conhecer o Pará.

T+M: E como tem sido morar aqui?
Gretchen: Bom, como é de conhecimento público, estou em um relacionamento sério [com o saxofonista Esdras de Souza], que é um músico muito conhecido em Belém. Ele tem um talento único e nasceu com algo que faz toda a diferença: carisma. Não é porque eu estou me relacionando com ele, que digo isso, mas é que Papai do céu foi muito bom comigo. Ele foi músico da Fafá de Belém e ela pode falar bem mais a respeito dele, já que trabalharam juntos por muitos anos. Quando o convidei para trabalhar comigo, eu tinha um projeto de música eletrônica e quando o ouvi, pensei que ele seria perfeito para o trabalho. Logo depois do carnaval deste ano, a gente se “descobriu”. Hoje estamos completamente assumidos e não tem necessidade de a gente se esconder, porque ele era solteiro e eu também. Nosso relacionamento é sério e esperamos que continue assim, como está, por muito tempo. 

T+M: Em qual momento você começou a olhar de maneira diferente para ele?
Gretchen: De tanto as pessoas falarem! As pessoas diziam “ele seria perfeito para você”. E eu não dava muita atenção. De tanto falarem e pelo fato de estarmos trabalhando lado a lado, uma hora eu olhei. [risos] Aí quis conhecê-lo, não mais apenas como profissional, mas como pessoa. Ele é um homem extremamente gentil, inteligente, educado, respeitador. Ele valoriza cada detalhe mínimo do que eu faço, até quando levo um copo d’água para ele. São qualidades masculinas não muito comuns, né? Isso me chamou atenção e percebi que ele era assim com todos da minha equipe: com os bailarinos, com o staff à nossa volta. Enfim, é lógico: que mulher não se encantaria por um homem assim? Aí nossa parceria profissional evoluiu para a pessoal e ambas dão muito certo! É uma delícia dividir o dia a dia com uma pessoa maravilhosa e que, ainda por cima, fala a mesma língua que eu profissionalmente.

T+M: O Pará tem uma relação muito profunda com o espiritual e o religioso. Não faz muito tempo que você foi apresentada ao Círio. Como foi esse encontro? Sem perder a oportunidade, já ouviu aquela música do Pinduca que diz que “quem vai Pará, parou/tomou açaí, ficou”, né? O que provaste aqui do Pará, que te fisgou o estômago, além do coração?
Gretchen: [ela solta uma gargalhada super gostosa] Conheci o Círio por causa da Fafá no ano passado. Vim e fiz uma apresentação com ela. Aliás, preciso contar que eu não era católica, mas, a partir do momento em que eu conheci o Círio... na hora em que ela passou na minha frente, eu caí de joelhos no colo dela. Tenho uma história muito íntima com Ela, de uma promessa enorme que fiz, mas que, infelizmente, não posso contar. Foi uma das promessas mais importantes da minha vida e que se concretizou em menos de um mês. É uma coisa muito profunda. Eu a levo no meu peito. Em qualquer foto que façam minha, desde então, é possível vê-la pendurada no meu peito, no meu coração e na minha vida. É uma questão de fé mesmo! Em relação ao que eu provei... bom, eu provei o melhor músico do Pará! [ela cai na gargalhada]

T+M: Mas esse é um prato, com o perdão da palavra, que só tem na sua casa...
Gretchen: Só na minha mesmo!!! [Ela continua rindo]


Para conhecer mais:
@mariagretchen

Troppo
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