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'Quero viver até os cem anos!'

Lorena Filgueiras

Virginia Cavendish, convidada especial desta edição, está vivendo a melhor fase de sua vida. Ela mesma assim define seus recém-completos 50 anos. Mais jovem e feliz do que nunca, a artista afirma que “muitas peças se encaixaram” a essa altura. Reclusa, desde antes da pandemia, em razão dos inúmeros projetos que abraçou, decidiu que extrairia o melhor de si e das condições limitantes: produziu como nunca, fez faxina, revisitou lembranças. Num bate papo animado, falou sobre os planos (e eles incluem chegar aos 100 anos ainda melhor) sobre a Arte, pandemia, o amor à filha Luísa e do prazer que é ser plena!

Troppo + Mulher: Como está a mais nova cinquentona da cidade? [a atriz aniversariou no último dia 25]

Virginia Cavendish: [ela ri] Exatamente, a mais nova cinquentona da cidade! Engraçado que quando fiz trinta, chorei muito. Aos quarenta, fiquei triste e agora... eu estou plena!

(Gleeson Paulino)

T+M: Ah, que maravilha! Então quero saber em qual lugar, físico, espiritual ou emocional, te encontras? Hoje, fala-se muito que os 50 são os novos 40...

VC: É isso mesmo! Tem gente até que chama de cinquenteen! [um trocadilho com a idade e a palavra teen, do inglês, que é usada para designar a adolescência] Tem gente que diz que, aos 30, é o adulto criança; aos 40, a adolescência e os 50 marcam o adulto-adulto. Estou num momento, acho, que muitas peças “encaixaram” na minha cabeça – peças afetivas e analíticas, até porque faço análise. Fiz por muito tempo, parei e voltei tem uns dois anos... e a esta altura, todas as peças do meu Lego se encaixaram! [ela cai na gargalhada] O caminho dos 50 tem um renascimento!

T+M: Me explica melhor isso?

VC: Quando se é um jovem profissional, você tem que provar muita coisa e é muito difícil esse começo de carreira. Ser mulher, nordestina... embora tivesse casado com um homem muito bem-sucedido [o cineasta Miguel Arraes é ex-marido da atriz]. Agora, eu sabendo quem eu realmente sou, os erros e grandes acertos que conquistei. Estou muito bem de saúde e quero viver até os cem anos, se não acontecer nenhuma desgraça [ela ri]. Espero viver muitos, muitos anos com saúde – a minha parte, eu faço, além de ter uma boa genética! Me sinto muito segura como mulher e como profissional, artista. Estou cheia de projetos!

(Gleeson Paulino)

T+M: Pois então, ia eu te perguntar exatamente isso: como tem sido trabalhar na pandemia?

VC: Não parei de trabalhar, estou à todo vapor com a minha produtora – tenho espetáculos aprovados pela Lei Rouanet. Tudo que eu podia fazer, fiz e tenho feito. Tenho duas séries escritas – uma delas tem 8 capítulos. Escrevi, uma série que fala do Nordeste, com protagonismo feminino e focando nesse equilíbrio entre desenvolvimento e ecologia, Tenho muito orgulho de ter criado, escrito e agora vou tentar vender para algum lugar...

T+M: Pelo que estás me contando, tua quarentena tem sido muito criativa... mas como tem sido esse teu exercício de lidar com um mundo que se transformou, de um dia para o outro?

VC: Tudo está muito confuso, bagunçado e desequilibrado, né? Eu tava muito focada escrevendo esse material, que tive que entregar até o dia 31 de março, então, eu não estava saindo. Quer dizer, saía para ir à academia, análise. Depois, já nem saía, porque precisava me manter focada. Quando entreguei, decidi fazer uma enorme faxina na minha casa inteira. Fui em cada cômodo e passei dias jogando coisas fora. Tirei as gavetas todas do lugar, as limpei, limpei por dentro, limpei os buracos das gavetas! [ela ri divertidamente] Nesse processo, a gente vai relembrando tudo que viveu ao longo dos anos. Foi um grande “passar a limpo”, que culminou com os 50 anos...

(Gleeson Paulino)

T+M: Tem aquela teoria que diz que nosso entorno representa o macrocosmo e que quando o arrumamos, nosso microcosmo vai também saindo do caos...

VC: Então, uma das coisas que mexeu muito comigo foi a morte da Fernanda Young, que tinha a minha idade. Não éramos amigas, mas mexeu muito. Deu um estalo: “não quero morrer agora. Tem muita coisa que ainda quero fazer”. Foi um alerta! Vou morrer alguma hora e me propus a priorizar algumas coisas que são caras pra mim, não que não fossem antes, mas é que vem tanta coisa na frente, no dia a dia. Por exemplo, voltei a tocar piano. Já consigo tocar, de memória, 30 minutos. Não que eu seja pianista, eu estudo, sou atriz, mas gosto muito de tocar piano. Também estou estudando inglês, porque quero voltar a falar. Foi minha primeira língua, já que morávamos nos Estados Unidos, porque o papai estava fazendo Doutorado. Quando voltamos para o Brasil, alguém disse que eu só podia ter uma língua mãe... um absurdo, mas perdi todo o contato com a língua.

T+M: Nos períodos de maior endurecimento no isolamento(lockdown) a Arte salvou as pessoas, que intensificaram o “consumo” de filmes,de livros, música... Mas um pouco antes de a pandemia estourar, vínhamos, de um longo e tortuoso movimento de criminalização da classe artística. Como é lidar com esse julgamento equivocado de que artista “só quer se aproveitar da lei Rouanet”? Depois disso, é possível acreditar que as pessoas vão ressignificar suas visões sobre a Arte?

VC: Primeiro que antes da pandemia, vivemos as trevas, a “Idade Média” do Brasil. Vivemos um tempo de trevas, de pouco estímulo, enfim, terrível. A pandemia, por outro lado, mostrou e tem mostrado como nós, artistas, somos essenciais; como a população precisa de nós para também se manter de pé, porque a gente traz o lúdico... porque a vida sem Arte não é vida, é um cimento, um concreto vazio. Nós, os artistas, fazemos a flor brotar desse improvável chão. Esse período foi importante também para mostrar como nós nos reinventamos. Está muito difícil, sem apoio, sem qualquer incentivo do Governo Federal... mas a gente resiste! Resistiremos sempre, porque precisamos disso para viver!

(Gleeson Paulino)

T+M: Pegando gancho nesta pergunta, te preocupa o futuro do segmento, já que será um dos últimos a retomar sua “normalização de atividades”? Como deste e tens dado vazão às tuas necessidades artísticas neste período?

VC: Tenho dois projetos de Teatro, que fiz ao vivo e que tentarei transformar em projetos on-line. É o que penso em fazer... além de escrever, porque atuar, voltar ao palco, pode demorar. Mas sabe que acho que não vai demorar tanto? A vacina está chegando... [Virginia concedeu a entrevista na última quarta-feira, 2, quando o Reino Unido anunciou que iniciaria a vacinação nos próximos dias]

T+M: Melhor notícia do dia. Também vibrei muito!

VC: Pois é, eu tive Covid. Não sei quando, mas tive e fui completamente assintomática. Fiz o teste do ICG, porque fui ao Rio de Janeiro duas vezes, de carro, pra ver minha filha, pra ver o apartamento que tenho lá e quando voltei, decidi fazer. Já estava com anticorpos e não senti nada! Mas é preciso que se diga que essa é uma pandemia, dentre outras que o mundo enfrentará, então temos que nos cuidar: tentar comer coisas boas, meditar, se exercitar mais. Nosso corpo é nosso templo.

(Gleeson Paulino)

T+M: Começamos esse nosso papo falando de como chegas aos cinquenta anos mais plena, mais sabedora e orgulhosa de si. Os tempos são outros e há mais representatividade da mulher na política, como protagonista de pesquisas científicas... enfim, vivemos um momento em que a mulher é mais dona de sua própria história. És mãe de uma mulher linda [Virginia é mãe da também atriz Luisa Arraes]. Foi muito desafiador educar uma menina com outro olhar, nestes novos tempos?

VC: Sabe que não? Foi muito lindo. Nunca quis impor nada à minha filha, em relação à educação. Tudo que ela podia saber e conhecer, eu ofereci. Sempre conversamos muito e havia dúvidas da minha parte, que eu perguntava à ela. “Eu não sei como responder isso, porque só tenho 12 anos!”, ela dizia. E eu respondia: “Também não sei como responder, porque nunca tive uma filha de 12 anos!”. Sentávamos e discutíamos juntas. A gente tem uma relação linda, maravilhosa. A Luísa é o tronco da minha vida, porque foi muito [a relação] na escuta. E na escuta dela, também! Ela viveu de perto eu ser casada com o pai dela, minhas diferentes idades. Tudo isso faz parte da vida, do crescimento físico, psicológico, espiritual. A Luísa é, sem dúvida, a pessoa que mais me conhece!

T+M: Foste protagonista de filmes muito emblemáticos, como “O Auto da Compadecida”, “Lisbela e o prisioneiro”, mas também fizeste Terror em “Através da Sombra”.

VC: Não foi pensando em fazer Terror que o filme surgiu, mas foi pensando em fazer um projeto com o Walter Lima Jr. [cineasta que dirige o filme], que é um diretor brilhante do Cinema nacional, e com quem eu estava trabalhando, ao mesmo tempo, no Teatro. Fizemos, seguidamente, duas peças extremamente bem-sucedidas, que foram a “Comendo entre as refeições” e “HeddaGabler”, que a única adaptação do Rubem Fonseca para o teatro e ele fez isso especialmente para mim, o que foi maravilhoso. Perguntei ao Walter qual seria nosso próximo projeto e ele havia sugerido a gente fazer “Os Inocentes”, uma outra peça de Teatro, que já havia sido filme. Na hora, eu respondi “bora fazer um projeto de Cinema?”e ele topou imediatamente! Quando li o texto e vi que era baseado no livro “A volta do parafuso” [de Henry James], pensei que se o 1% do público brasileiro, que consome filmes americanos de terror, visse, já seria um sucesso! Precisamos expandir nossas fronteiras quando se trata de Cinema. O Brasil é um país continental e com muita história para contar!

Para conhecer mais: @virginiacavendish

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