Quase outubro: Círio é um estado de espírito e merece ser vivenciado como tal

Por Lorena Filgueiras

À medida que outubro se aproxima, tradicionalmente, paraenses vão se enchendo de expectativas – afinal, é o mês que traz boas energias e em que celebramos a padroeira do estado. Mas... o que esperar de um ano tão atípico, em que, pela primeira vez e mais de duzentos anos, o povo não sairá às ruas?

Para a funcionária pública Lúcia Pereira, 49, a ficha ainda não caiu. “Sei que a comparação é forte, mas é lidar com uma perda que ainda não decidi encarar”, diz. Acompanhada pela filha, Maria Luíza, 22, que chama sua atenção, Lúcia diz que tem se policiado para não fazer um “cavalo de batalha” deste momento. “É a Lulu [como ela chama a filha] quem fica me conscientizando de que é uma medida necessária à contenção do Coronavírus. A geração dela lida melhor com essas coisas, acredito. Ela puxa minha orelha, né, filha?”, comenta entre risos.

Maria Luíza concorda. “A gente não pode lamentar isso. É uma medida necessária”, afirma a estudante de História. Ela evoca que durante a febre espanhola, o Círio não foi suspenso e 1/3 da população de Belém adoeceu. “Muitas vidas foram perdidas. Menos mal que tenhamos aprendido com o passado – não dá pra brincar com esse vírus e com o fato de que sabemos muito pouco sobre a doença”.

Mãe e filha passaram o tempo todo da pandemia juntas. “Sem ela aqui, não sei o que seria de mim. Quando o anúncio oficial de que não haveria Círio veio, eu fiquei sem chão. É a oportunidade de rever toda a família, de juntar amigos, vizinhos. A Lulu recebeu a notícia com mais naturalidade que eu. E foi ela quem aconselhou que eu falasse mais sobre o assunto na terapia on-line”.

Em tempos de pandemia, a maior procissão católica do Norte do País precisou ser reiventada (Naiara Jinknss)

Os planos da família Pereira ainda não estão bem definidos, mas uma coisa é certa, segundo Maria Luíza, “ou fortalecemos nossa fé agora, ou podemos desistir”. “Equilíbrio e saúde mental serão grandes diferenciais para atravessarmos esse momento. Precisamos resistir porque dias melhores nos aguardam e eu, pessoalmente, acredito que teremos de aprender a conviver com esse vírus”, filosofa.

Outra família, a dos Leite, partilha da mesma opinião de Maria Luíza. O casal Márcia e André Leite decidiu juntar as escovas de dente, em abril, no auge da crise sanitária no Brasil/região Norte. “Quando vimos, ainda em março, que as coisas ficariam mais graves, conversamos seriamente sobre nossa relação. Decidimos adiantar o casamento, que estava programado para 2021. Falamos com fornecedores, conseguimos estorno de alguns valores. Com esse dinheiro, me mudei pra casa do André e passamos os últimos meses no que chamamos de ‘teste de sobrevivência’”, revela Márcia, entre gargalhadas. 

O companheiro concorda que foi a melhor decisão. “É bacana ter alguém que você ama caminhando com você. No nosso caso, ficamos parados juntos”, ele ri. Católicos e devotos de Nossa Senhora de Nazaré, decidiram iniciar a conversa com suas respectivas famílias sobre como seria o Círio deste ano. “Minha mãe estava deprimida diante da possibilidade e, depois, da confirmação de que não haverá procissão este ano. Foi necessário ‘convocar’ uma reunião com todos para explicar que mais importante era que todos estivéssemos juntos, com saúde... até porque temos inúmeros amigos que perderam familiares e, diante de perdas inestimáveis, é impossível pensar em comemorar alguma coisa”, diz.

André tem um irmão mais novo, que mora no exterior, onde estuda e ele diz que, juntos, reuniram a família – on-line. Os pais, conscientes e muito tranquilos, só lamentaram a ausência do caçula junto com eles. “Não é porque eles concordam, que o período será mais fácil para todos. Por essa razão, quase diariamente, falamos sobre o assunto no grupo no celular. Minha mãe está se sentindo um pouco triste, mas tentamos animá-la”.

A principal tônica da festividade, que é o caráter de integração do coletivo, ganhou nuances mais intimistas por conta das restrições sanitárias (Naiara Jinknss)

O autônomo José Júnior, que mora em Castanhal, não sairá, em caminhada – promessa, por graça alcançada, que ele cumpre anualmente e há quase uma década – com destino a Belém. “Não está sendo fácil, como diz a música”, ele sorri. “Me joguei nos pés de Nossa Senhora de Nazaré, buscando colo de mãe mesmo. Disse a ela que precisava que ela me perdoasse por não cumprir a promessa este ano e que esperava que Ela compreendesse. Pedi um sinal. Implorei mesmo. No dia seguinte, uma orquídea que tenho no altar, floriu. Nossa Senhora falou comigo e entendi que o melhor que posso fazer, em prol da minha fé e por respeito ao meu irmão, é ficar em casa, rezando pela humanidade e pelo perdão divino”. 

Pergunto se ele vai arrumar a casa, fazer o almoço. “Pretendo ficar em jejum, orando, mas vou lavar a casa, comprei novas fitas pra envolver os pés da imagem de Nazinha, arrumar tudo pra Ela. Gostaria de aproveitar que todos lerão minhas palavras: a fé não é algo físico e não pode ser. Círio tem uma representante, mas é um estado de espírito. Ele tem que existir 365 dias dentro de nós!”.

Troppo
.

Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo!

Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é.

Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos.

Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!