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DIA DA AMAZÔNIA

Quando fumaças encobrem as celebrações do dia

O dia 5 de setembro é dedicado à Amazônia, embora especialistas afirmem que não há motivos para comemorações.

Flávia Robeiro

5 de setembro de 2020 às 16:00

( Foto: Christian Braga / Greenpeace )

Desvalorizada, desmatada, ignorada, desconhecida e com sua área e importância diminuindo a cada dia. Pode não parecer, mas estamos falando da maior reserva natural do planeta e que também é também um dos patrimônios naturais mais valiosos de toda a humanidade: A Amazônia. O dia 5 de setembro deveria ser de celebração, mas em 2020 a região tem registrado recordes de desmatamento e a devastação só aumenta.

Mais do que a floresta, a Amazônia é um bioma que abrange não só o Brasil, mas também Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Paraguai, Peru, Suriname, Bolívia e Venezuela. No Brasil, infelizmente, a importância da Amazônia vem sendo minimizada. “O dia é importante para informar e conscientizar as pessoas sobre a importância da Amazônia e estimular o debate sobre os problemas atuais, que são muitos. Há uma crise socioambiental no planeta e os cientistas reconhecem que a participação da Amazônia nessa crise está relacionada ao desmatamento, à degradação florestal, às queimadas advindas de práticas predatórias de usos da terra e aos crimes cometidos contra indígenas e populações tradicionais e seus territórios. Então, não dá para comemorar esse dia. Vamos aproveitar e nos informar sobre a situação atual da Amazônia e ajudar de alguma forma a reverter esse quadro sombrio” analisa a ecóloga Ima Vieira, uma das maiores autoridades sobre o assunto.

Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal

A pesquisadora ajuda a demonstrar a grandeza que temos na região, que comporta o maior sistema hidrográfico do planeta: a Bacia Amazônica, responsável por 15-16% da água doce que chega aos oceanos. Essa bacia suporta a maior diversidade de espécies de peixes de água doce do planeta (cerca de 3.000 espécies); os sistemas aquáticos e suas espécies são vitais para a população que vive na Amazônia, funcionando como fontes de proteínas, geração de renda, e rede de transporte e água potável para consumo para populações rurais e urbanas.

“Embora não seja o pulmão do mundo, a importância da floresta amazônica é enorme. A Amazônia possui alta diversidade sociocultural e linguística, berço de inúmeras nações indígenas e onde vivem mais de 30 milhões de pessoas. Ainda mais importante que a questão do oxigênio, a Amazônia retém cerca de 20% do carbono mundial, contribuindo assim para a regulação dos níveis de C02 atmosférico e, portanto, na regulação da temperatura do planeta; além de ser a maior reserva de biodiversidade e oferecer bens e serviços para a humanidade. A destruição da floresta amazônica poderá desregular o clima de toda o continente e, também, gerar alterações no clima na escala mundial”, alerta Vieira.

Quando se fala de Amazônia deve-se ainda ter em mente a complexa diversidade cultural que é característica do lugar. E que também é preciso valorizar o conhecimento tradicional de centenas de povos sobre os usos e a forma de explorar a floresta sem esgotar seus recursos e sem destruí-la. “Um estudo publicado recentemente na revista Science constatou que 85 espécies de árvores da região amazônica foram domesticadas pelos indígenas e isso nos mostra que a biodiversidade amazônica está fortemente relacionada à ocupação humana desde tempos pré-colombianos. Além disso, os territórios que essas populações ocupam atuam como grandes obstáculos ao avanço do desmatamento e, consequentemente, evitam significativas emissões potenciais de gases de efeito estufa. Essa população é guardiã de nosso patrimônio biológico e seus territórios devem ser respeitados” afirma a pesquisadora.

Atividades predatórias e ilegais são alguns dos desafios para que o bioma se mantenha conservado e abrigando todas as vidas que abriga, mas este ano até a pandemia tem influenciado de alguma maneira nessa situação. “A pandemia pelo novo coronavírus não parou o desmatamento e a destruição. Há saques, roubos e violência na Amazônia acontecendo debaixo do nosso nariz - estão aí os números da CPT de violência no campo e do INPE, mostrando as altas taxas de desmatamento e queimadas. As atividades de mineração, garimpo e extração ilegal de madeira, que estão em curso, levam risco às comunidades amazônicas e impactam o território e seu povo. A construção de um futuro sustentável para a Amazônia exige um movimento de reversão do desmonte da legislação ambiental e de revitalização dos órgãos responsáveis pela gestão do meio ambiente. Qualquer modelo de desenvolvimento para a região - e temos visto que até Bancos privados estão apresentando os seus planos para a Amazônia - tem que ser baseado em Ciência e devemos ter instituições científicas sólidas, fortalecidas com um aumento efetivo de recursos humanos, orçamentários e de infraestrutura laboratorial”, ressalta Ima.

TNeto / Pixabay
TNeto / Pixabay

Neste cenário, a produção de conhecimento pode ser um importante instrumento, a despeito de todo o desmonte de instituições sérias de pesquisa, como Inpe, UFPA e Museu Goeldi - só para citar algumas - que tem sido promovido pelo governo federal. “Infelizmente ainda é grande a desinformação, porém não é por falta de pesquisa. Além disso, temos um problema na divulgação da informação e isso tem a ver com um processo que envolve todo o ciclo educacional. O que as instituições produzem precisa se transformar em conhecimento acessível a quem está no ensino médio, educação básica, à formação de professores e esse ciclo se expandir ao volume de informação para toda a sociedade”, fala o professor André Farias, do Núcleo de Meio Ambiente da UFPA.

André Farias
André Farias

Uma das formas de estimular o conhecimento e a informação de qualidade sobre a região deveria começar as escolas, mas infelizmente, o assunto não recebe a devida atenção. O professor defende que o assunto seja abordado nos projetos político-pedagógicos, dos municípios, dos estados e até no ensino superior. Afinal, até mesmo a História da Amazônia é pouco conhecida até mesmo pela população amazônida.

Ele ainda propõe que se repense a vida nas cidades amazônicas, que passam por um processo de precarização, de assentamentos subnormais, crescentes periferias e que tudo isso traz mazelas como a violência, tráfico de drogas, exploração infantil, etc. “Precisamos pensar um outro modelo econômico e político que parta do local. Belém pode ser uma referência, se adotar outro modelo e outras relações políticas, relacionadas a políticas públicas com sustentabilidade. O meio ambiente não é parte: é o todo. Ele precisa ser pensado na educação, no saneamento, na mobilidade urbana, nas casas de lei, como Câmara Municipal e Assembleia Legislativa, com ampla participação da sociedade e controle social para evitar corrupção e gastos desnecessários e que esse projeto atenda o bem viver da população. É preciso transformar a esperança em realidade”, pontua Farias.

BOX

O desmatamento aumentou 34%

Dados do sistema Deter, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados no último dia 07 de agosto, mostram que, entre agosto de 2019 e julho de 2020, houve um aumento de 34,5% nos alertas de desmatamento em relação ao mesmo período do ano anterior. Ao todo, foram 9205 km² desmatados, o equivalente a 1.100.000 campos de futebol. O mês de julho de 2020 registrou 1654 km² desmatados.

Além da área total com alertas de desmatamento entre agosto de 2019 e julho de 2020 ser um recorde, houve um número expressivo de grandes polígonos de alertas de desmatamento, com áreas de 3 mil, 4 mil e até 5 mil hectares derrubadas nos últimos 12 meses. 

Como explica Rômulo Batista, porta-voz da Campanha da Amazônia do Greenpeace Brasil, esses dados indicam que o desmatamento da Amazônia não é fruto da pobreza e do desespero de pessoas em situação de grande vulnerabilidade. Na verdade, trata-se de um esquema organizado, patrocinado por grandes proprietários e grileiros de terra que sentem-se protegidos pelo derretimento das políticas de proteção ambiental e do combate ao desmatamento. 

Entre junho e julho deste ano, houve um aumento de 59,2% das áreas de alertas de desmatamento, porém o índice de julho é menor quando comparado a julho do ano passado. Ainda assim, os dados totais continuam apontando para um desmatamento recorde na Amazônia. “Apesar dessa queda do desmatamento em julho, quando comparado ao ano anterior, esse mês apresentou, vergonhosamente, 1.654 km². A verdade é uma só: o desmatamento está fora de controle na Amazônia. Essa queda em julho não significa um ganho, mas sim uma perda um pouco menor. Afinal, desde agosto de 2019, foram onze meses seguidos de escandalosos aumentos mensais”, complementa Batista. 

O período observado para esta análise compreende o intervalo utilizado pelo Inpe na elaboração do índice anual de desmatamento, o Prodes – de agosto de um ano até julho do ano seguinte – que costuma ser divulgado sempre em novembro. Apesar de o Deter ser um sistema projetado para registrar alertas de desmatamento, seus números são um forte indicativo de qual será o resultado do Prodes, que, com base em anos anteriores, pode ser até 40% maior que o estimado pelo Deter, já que conta com um sistema mais preciso de imagens. 

“Os números mostram, mais uma vez, a verdade que o atual governo tanto tenta esconder. O combate ao desmatamento se faz com transparência, investimento em ciência, resguardo de unidades de conservação e terras indígenas, investimento em órgãos especializados em combate ao desmatamento e queimadas e controle social. Ou seja, tudo o que o governo Bolsonaro refuta reiteradamente. Estamos vivendo um ano e meio de atraso com a política desumana de destruição promovida pelo governo, que estimula os que se beneficiam com a destruição da floresta e intimida os que lutam para mantê-la em pé”, conclui Rômulo.

Assim como nos últimos anos, os próximos meses serão os mais críticos para as pessoas que vivem na Amazônia. A preocupação é com a necessidade de atendimento médico devido aos problemas respiratórios causados pela fumaça e pelas cinzas da floresta queimando. Esse cenário, somado à crise do sistema de saúde decorrente da pandemia, pode levar o sistema de saúde à sobrecarga ou mesmo ao colapso, esmagando vidas.

Fonte: Greenpeace Brasil

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