Quando a natureza inspira o sexo

Com a maior biodiversidade do planeta, a Amazônia estimula todos os sentidos e oferece ingredientes especiais para temperar a relação a dois (ou mais...)

Rodrigo Cabral

Por sua própria natureza, a Amazônia é repleta de intensas sensações. Quente e úmida, com o calor do sol e o encanto da chuva, detêm a força das correntezas e o afago das florestas. E, quando o assunto é estimular a relação sexual, do mesmo chão, onde vicejam ervas milagrosas, brotam também (as muitas) possibilidades. As garrafadas preparadas pelas erveiras do mercado do Ver-o-Peso, por exemplo, têm história e o reconhecimento popular de “levantar até defunto”. A gargalhada peculiar da dona Coló, famosa vendedora de ervas da feira, fica ainda mais intensa quando o assunto é assim, digamos, mais picante. Sempre muito bem-humorada, ela ensina o passo a passo para uma receita que, segundo ela, é infalível: o viagra natural.

“É bem fácil de fazer e o resultado é garantido. O viagra natural leva marapuama, cipó ferro, açoita cavalo, arranca toco [ervas e cipós da Amazônia]. É só lavar bem lavadinho e misturar no vinho. Deixe apurar por uma semana e, depois, tome uma colher por dia. Serve para o homem e para a mulher ficarem mais fogosos. Esse preparado também é um poderoso energético; diminui o cansaço e é muito bom para o esgotamento físico. Serve para tanta coisa que as pessoas até usam como desculpa para chegar na feira e pedir o viagra. Quando chega dizendo que tá com esgotamento físico, já sei que o problema é outro (risos)”, satiriza Dona Coló.

De acordo com a professora e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Educação Indígena da Universidade do Estado do Pará (UEPA), Ana Lídia Nauar, “a maioria das mulheres que trabalham no setor de ervas do Ver-o-Peso detém o conhecimento a partir de uma herança que foi passada de geração em geração. Algumas delas já estão na quinta geração de uma mesma família”, afirma. Ana, hoje, é doutora em Antropologia Social e, na época de seu mestrado, realizou uma pesquisa, entre os anos de 2000 e 2002, para entender o cotidiano de trabalho das mulheres populares nas ruas, mercados e feiras de Belém no século XIX. Além de consultar fontes documentais de mais três séculos atrás, realizou uma etnografia [método antropológico de pesquisa] no mercado e, em particular, no setor das ervas.

O saber tradicional que envolve a manipulação das plantas combina elementos das culturas indígena e africana. “Especialmente na Amazônia brasileira, essas duas culturas se encontraram à época da escravidão. Índios e negros africanos construíram fortes relações de identidade, pois fazem parte dos costumes dessas populações o conhecimento e uso de raízes e ervas para tratamentos e curas de doenças do corpo e da alma. Para fins sexuais, uma das mais usadas é a raiz de marapuama. Conhecida como o ‘viagra da Amazônia’ é muito utilizada pela clientela masculina para a garantir a potência sexual. Outra bastante procurada e usada pelos homens é a seiva de jatobá, para curar inflamações de próstata. Segundo as vendedoras de erva, as mulheres são as principais clientes que buscam por banhos ‘atrativos do amor’. Existem inúmeros tipos de ervas que são utilizadas no preparo de tais banhos e perfumes para passar em todo o corpo, ou para atrair os amores ou também para afastá-los quando se tornar indesejados”, detalha a pesquisadora da UEPA. 

Jambu para tremer a cama
A rainha do carimbó chamegado já cantou aos quatro ventos que “o tremor do jambu é gostoso demais”. Dona Onete sabe das coisas. Na letra de “Jamburana”, a cantora descreve – com um leve toque de luxúria – que a erva possui efeito surpreendente: “vai descendo e vem subindo” até chegar ao céu da boca. Realmente, o jambu faz tremer e tem provocado um verdadeiro terremoto na vida sexual de pessoas de várias partes do Brasil e de outros países. Que diga Guilherme Simi, 40 anos. Ele é cozinheiro, nasceu em São Paulo (SP) e mora em Brasília (DF). Casado, experimentou o óleo de jambu há um ano e garante: “a sensação é muito boa, apimenta o ato do sexo de forma diferente e gostosa”.

Pela sua profissão, Guilherme já sabia da potência do jambu na gastronomia e ficou bastante intrigado com a erotização da planta. “Eu já conhecia a culinária paraense, mesmo antes da ascensão que ela teve para o resto do país e para o mundo. No ano passado, estava procurando por cachaça de jambu e cheguei até uma marca regional do Pará, que vendia artigos diferentes derivados dele. Ao ver o catálogo de produtos, o concentrado de jambu [indicado para atividades sexuais] me chamou a atenção. Comprei para experimentar. Como sexo se trata de sensações, quis agregar a ideia do jambu. A sensação de tremor me despertou a curiosidade e a libido”, afirma o cozinheiro.

Desde então, esse ingrediente exótico – e erótico – não pode faltar na despensa. “Eu compro pela internet e, também, conto com a ajuda de amigos que viajam para Belém e trazem o produto pra mim”, conta. Guilherme trabalhou, anteriormente, em uma empresa nacional de geração de energia que possui sede em Brasília e operações no Pará. Nesse intercâmbio, fez muitos amigos paraenses. 

Mas nem só de exportação de prazer vive o nosso jambu. Por aqui, o tremor da erva também saiu da mesa para temperar a cama. A arquiteta Júlia Pina, 44 anos, se entregou às sensações eletrizantes do concentrado de jambu e não se arrependeu. “Soube do produto através de uma amiga, comprei por curiosidade e superou todas as minhas expectativas”, revela. Júlia conta que já usou outros produtos para incrementar a relação, mas nada que possa se comparar com sua recente descoberta. “O óleo de jambu é diferente, provoca uma sensação incrível, que prolonga o ato sexual. Quando o produto acaba, eu sempre tenho outro na bolsa. Meu namorado adorou e sempre estamos usando”. Cem por cento natural, é aplicável e comestível, permitindo aos consumidores liberar a imaginação para viver intensamente o pecado da carne trêmula. 

Se na boca é bom, imagina no sexo
Foi essa provocação que mexeu com a cabeça da arquiteta Tatiana Sinimbu, 42 anos, como uma estimulante preliminar, que teve seu ápice na criação do famoso concentrado de jambu. Há três anos, ela fundou uma marca de produtos à base da planta, inicialmente focada em alimentos e bebidas. “As pessoas queriam muito ter o sabor do jambu fora de Belém e eu fiquei obcecada por encontrar uma forma de fazer isso sem perder as propriedades tão características dele. Foi quando comecei a produzir a flor de jambu em conserva, que proporciona uma verdadeira explosão de sensações. Tu colocas na boca e o sabor explode. Foi um sucesso. Já vendi até para Portugal e recebi depoimentos incríveis. Uma pessoa me agradeceu por ter revivido, ao provar a flor, o sabor do nosso tacacá”, diz.

Do prato para o copo, foi um caminho natural. A família de Tatiana é do município de Igarapé-Miri, no interior do Pará, e já possuía uma tradição na produção de cachaça. “Então, decidi valorizar essa história familiar e investi na produção da cachaça de jambu, que já tinha boa aceitação no mercado. Acrescentei cumaru na fórmula para dar um toque feminino e, também, foi um belo acerto. Certa vez, o estilista Ronaldo Fraga, ao provar a bebida, me fez uma provocação: ‘imagina isso no sexo’. Pronto, não parei de pensar em como levar essa sensação para melhorar a vida sexual das pessoas, considerando, claro, que esse seria um processo muito mais complexo”, lembra.

Depois de vários testes, ela lançou o óleo concentrado de jambu que, posteriormente, viria a ser batizado de “Tremidão”. “No sexo, é uma maravilha. Basta uma gota para se ter uma experiência incrível. O jambu possui 66 funções diferentes já descobertas. O produto retarda a ejaculação e estimula a lubrificação. Não é uma combinação perfeita? E o melhor, não possui contraindicação. A não ser que a pessoa tenha algum tipo de alergia ao jambu. É preciso testar antes. Até para regular a intensidade, eu costumo orientar os clientes a primeiro testar nos lábios, para saber dosar a quantidade que será mais confortável, e só depois aplicar nas partes íntimas”, explica a empresária.

Com o tremor do jambu, Tatiana chegou lá. E seguiu além. Com o projeto do Tremidão, ela foi selecionada para cursar o mestrado profissional em Engenharia Industrial da Universidade Federal do Pará (UFPA). “É um mestrado voltado para inovação na criação de produtos para empresas. Em uma turma de 10 alunos, eu sou a única mulher e, ainda, com um trabalho voltado para o uso do jambu no sexo. Sinceramente, me sinto muito à vontade com isso. Lá, estou estudando a viabilidade de criar novas fórmulas, talvez com a inclusão de novos ingredientes”.

 

 

O Tremidão também causou frisson durante a edição especial do programa Saia Justa, da GNT, transmitido ao vivo do Theatro da Paz, em Belém, no mês de outubro do ano passado. Na ocasião, as apresentadoras Gaby Amarantos e Astrid Fontenelle levaram a plateia à loucura ao afirmarem que já usaram o produto e aprovaram. “O jambu você come e pode passar em outros lugares também. Eu tenho uma amiga, a Tati Sinimbu, que tá aqui, ela inventou o óleo afrodisíaco de jambu. Eu usei e foi maravilhoso. Potencializou tudo!”, afirmou a cantora Gaby. “Eu também usei e o negócio funcionou, mana”, disparou Fontenelle.

Como se pode sentir, os adeptos da sensação eletrizante do concentrado de jambu só aumentam. E a criadora comemora o fato de que o prazer proporcionado pela erva paraense esteja chegando a outros corpos mundo afora. “A demanda está muito grande mesmo. Tem gente querendo revender no Chile, já recebi e-mails dos Estados Unidos e da Espanha também”, destaca Sinimbu

Troppo
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