Quando a educação começa no berço

Cada vez mais, crianças tem iniciado a vida escolar mais cedo. Vale a pena? Ouvimos depoimento de pais e profissionais que destacam os benefícios desse processo

Por Rodrigo Cabral

O período da licença maternidade está acabando e começa a bater aquele desespero. E agora? Como voltar ao trabalho e deixar o bebê aos cuidados de outra pessoa durante o dia? A saída é recorrer à família? Contratar uma babá? São vários os questionamentos...

A militar Ailin Borges, 35, é mãe da pequena Júlia, de 1 ano e meio. Quando a filha tinha seis meses de vida, depois de avaliar todos os cenários, a luz no fim do túnel apontou para a creche-escola. “O pai dela e eu saímos muito cedo de casa para trabalhar, às 6h30, e só retornamos por volta das 18h. A logística para ter pessoas cuidando dela em casa nesses horários seria muito complicada. Além disso, eu queria ficar próximo da Júlia também, para conseguir chegar rápido, caso precisasse dar alguma assistência. A creche que escolhemos fica há 10 minutos do meu trabalho. É uma decisão difícil, mas, hoje, vejo que foi a melhor coisa que fizemos”, conta.

 Ailin Borges e a filha Júlia (Antonio Couri por Lumière Photo & Arte)

 

 

 

 

 

Após a opção pelo ambiente escolar, vieram etapas importantes na busca do espaço mais adequado aos anseios dos pais e às necessidades da criança. “Eu precisava de uma creche próxima do meu trabalho e que aceitasse crianças menores de um ano – que são poucas em Belém. Recebemos indicações de amigos, que nos deram ótimas referências da escola, visitamos o espaço e nos encantamos com o tratamento que é dado às crianças, o cuidado com a alimentação e o trabalho pedagógico desenvolvido com os bebês a partir dos 6 meses. A Júlia é uma menina muito esperta: canta várias músicas, já sabe contar até 10, imita todos os animais e adora dançar. Reconhece seus amiguinhos da escola e tem um grande carinho por eles. Com menos de dois anos, ela aprendeu valores sociais, sabe dividir, cuidar de outras crianças. É muito observadora, concentrada, não tem problema em acordar cedo e ir pra escola, tem rotina. Eu super recomendo esse contato com a vida escolar logo cedo”, afirma a militar.

A pedagoga Aline Queiroz, 28, destaca os benefícios da iniciação escolar precoce: “quanto mais cedo as crianças tiverem experiências em diferentes linguagens, como a música, leitura, artes, maiores são as possibilidades de ganhos no desenvolvimento cognitivo no curto prazo, a melhora nos níveis de aprendizado no médio prazo e na escolaridade no longo prazo. Quando iniciam a vida escolar nos primeiros anos de vida, elas têm a possibilidade de adquirir um amplo vocabulário. Além da criatividade, também
apresentam o gosto pela leitura e desenvolvem o raciocínio lógico por meio das experiências proporcionadas”, explica.

Aline, que atua como coordenadora pedagógica, reforça que frequentar espaços coletivos estimula os pequenos a interagirem com seus pares. “Por meio da nossa documentação pedagógica, podemos citar o quanto eles desenvolvem a oralidade, além da importância da interação com o outro e as outras descobertas do cotidiano. Assim, a criança vai elaborando a compreensão de si e do mundo social no qual interage. À medida em que as experiências são proporcionadas, elas vão descobrindo as diferenças e semelhanças entre as pessoas que convivem, adquirindo confiança e avançando na sua autonomia. Nesse processo, é fundamental que os pais analisem se a escola propõe um espaço acolhedor, seguro, limpo, desafiador para a criança, com profissionais qualificados, que prioriza o cuidado e a educação e acima de tudo e que respeita o tempo de cada criança”, orienta.
Na busca pela independência da criança.

Zoé Rell, de um ano e três meses, ingressou na escola com nove meses de vida. Desde sempre, essa era uma convicção para a sua mãe, a defensora pública Franciara Lemos Rell. “Quando eu pensava no meu retorno para o trabalho, colocar a minha filha na escola era a primeira opção, por ter absoluta certeza que a quantidade de estímulos que ela receberia lá seria infinitamente maior do que em casa, com uma babá.

 A defensora pública Franciara Lemos Rell e a filha Zoé (Naiara Jinknss)

 

 

 

 

 

Ademais, o nosso estilo de criação preza pela independência e autonomia dela, incluindo o modo de se alimentar. O único receio que tínhamos era, justamente, com relação à alimentação dela, já que a Zoé já comia sozinha e não queríamos perder a mão nesse ponto. Então, entre as opções que se colocavam, encontramos uma escola que, além de oferecer uma estrutura formidável, respeitou nossas decisões e a forma que criamos nossa filha. Os profissionais de lá toparam o desafio e continuaram a fazer, na escola, do mesmo jeitinho que a gente faz em casa. Achei isso maravilhoso e nos deu mais segurança ainda”, relata Franciara.

Tudo indica que essas singularidades garantiram uma adaptação mais tranquila ao ambiente escolar. “Em três dias, a Zoé estava adaptada. Já eu, obviamente, não. Mas a coordenação e a direção da escola cuidaram até de mim, que cansei de cair aos prantos lá por ter que me separar da minha filha tão cedo. Hoje, tenho absoluta confiança nelas. Com certeza, foi a melhor decisão que tomei. A Zoé é sociável, alegre, adora ir pra escola, brinca exaustivamente, interage com todos, desde o segurança até a tia que serve a  água. Quando a minha filha iniciou na escola, ainda mamava - como mama até hoje - e as profissionais de lá sempre me incentivaram, fornecendo uma sala ou um cantinho, onde eu pudesse amamentar tranquilamente. Isso foi e é muito importante pra mim, encontrar uma instituição escolar que nos respeitasse enquanto família, que fornecesse os cuidados que a Zoé estava precisando naquele momento e que a estimulasse a ser independente, como já fazíamos em casa”.

Dicas para uma adaptação mais tranquila

Sem dúvida, a fase de adaptação da criança ao ambiente escolar é um importante período de adaptação para a família também. E esse processo tem tempos diferentes para cada caso. A pedagoga Aline Queiroz explica ser fundamental que os pais estejam disponíveis para ter essa experiência junto com os filhos. “A adaptação requer tempo, tanto para a criança quanto para a família. É preciso passar confiança aos filhos, fazê-los sentir que vai ficar tudo bem. Uma dica é conhecer o nome da professora, dos colegas da turma e, assim, no caminho para a escola, já preparar a criança para o que ela vai encontrar. Outro cuidado é articular com a escola o tempo de permanência nos primeiros dias. Comecem com um curto período e depois aumente esse tempo gradativamente”, destaca.

A pedagoga Aline Queiroz (Naiara Jinknss)

Esse é um processo claro de estabelecimento de confiança e falar a verdade é muito importante, como ressalta a coordenadora pedagógica: “nunca se deve dizer que vai ao banheiro e sair escondido. Se tiver que sair, comunique para a criança, diga que vai voltar e faça exatamente como falou. O choro faz parte da adaptação dela, por estar mais sensível. Nesse momento, é fundamental reforçar que a escola é importante, que os pais entendem o que a criança está sentindo e que ela vai ficar bem. Vale ressaltar que,
embora seja difícil, as crianças vão aprender a lidar com as emoções e frustrações”, conclui.

Troppo
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