Promesseiros em tempos de pandemia

Mesmo sem procissões, a fé em Nazaré não se abala e os promesseiros buscam alternativas de manter o compromisso firmado com a padroeira

Flávia Ribeiro

O sonho da casa própria, a vaga na universidade, a doença curada... São inúmeras as histórias de milagres e graças alcançadas pela intercessão de Nossa Senhora de Nazaré. Em momentos de dificuldades, católicos paraenses recorrem à sua Padroeira e é no segundo domingo de outubro, nas ruas de Belém, que muitos escolhem para demonstrar o agradecimento. A pequena imagem comove uma multidão de mais de dois milhões de pessoas, que paravam um fim de semana inteiro em sua homenagem. Mas no ano em que a pandemia de Covid-19, o novo Coronavírus, parou o mundo, não haverá procissões. Mesmo assim, a fé dos promesseiros é inabalável e permanece viva, buscando alternativas para manter o compromisso firmado com a Santa.

A família da professora Virgínia Célia Franco da Silva, 61 anos, por exemplo, recorreu à tecnologia para inovar na homenagem. “Como não vai haver a procissão doCírio, resolvemos homenagear a Santa fazendo um vídeo, entregando a santa um para o outro: cada um na sua casa” explica.
Para agradecer por todas as bênçãos recebidas, ela fez a promessa, com o marido, de todos os anosassistirem à passagem da imagem natravessa Quintino Bocaiúva. “Não temos como pagar a promessa porque não haverá procissão, mas continuamos com o pensamento na santinha o tempo todo”, diz Virgínia, falando ainda que os familiares mandaram fazer camisas e máscaras especiais para o momento e que também estão realizando novenas, mas cada um na sua casa e só entre eles.

No tradicional almoço do domingo, o plano é de que algumas pessoas da família se encontrem, na casa da sogra da professora. Todos tomarão os cuidados recomendados porque a dona da casa é do grupo de risco para as complicações da pandemia. Alguns familiares não vão ficarão para o almoço, vão compartilhar o alimento sair. “O Círio é uma festa religiosa que faz com eu nos reencontremos com nossos parentes e amigos e com a fé que temos em nossa senhora, conseguimos muitas coisas em nossas vidas. Não só pela festa, mas pela religiosidade. Como devota, todo ano vou com a blusa da santinha. Este ano não vai ser possível, mas achamos um jeitinho para nos precaver, desataca a professora.

Foi em função de um problema na saúde que o administrador Luiz Paulo Pina, 43 anos, se aproximou ainda mais de Nossa Senhora de Nazaré. Em março de 2019, ele se submeteu a uma cirurgia de vesícula. Mas ainda no pós-operatório, foi detectado cálculo renal e com presença de fortes dores. “Sendo que cinco meses depois, ficou quase insuportável. Era necessário operar novamente. Então, pedi muito para que isso não acontecesse, pois havia passado por uma cirurgia havia poucos meses. Pedi que Ela me livrasse do procedimento, porque era uma coisa desconfortável. Eu teria que passar cerca de vinte dias com uma sonda, com todas as dores do pós-operatório... Graças à Nossa Senhora, consegui expelir a pedra sem a necessidade de cirurgia e eu fiquei bem” relata o administrador.

Ele deveria levar velas para a Basílica Santuário, mas em função da pandemia, teve que procuraruma nova forma de pagar promessa este ano: doou a cera para que outra pessoa deixasse lá, em seu lugar.“O Círio é o momento em que nós, paraenses, louvamos a Nossa Mãe e Nossa Padroeira. É momento de agradecer à Nossa Senhora de Nazaré por todas as graças alcançadas e renovar nossos pedidos com muita fé e devoção, pontua Pina, comentando que é tão católico que o cunhado é padre e o enteado-filho é coroinha na Paróquia dos Capuchinhos.

“A filha da promessa”
As promessas da psicóloga Nathalia Vieira começaram há sete anos, quando a cachorrinha da família se perdeu, no município de Salinópolis, nordeste paraense. “Fiz uma promessa para encontrá-la, que era de levar água para as pessoas da corda naquele ano. Encontramos, mas não parei e hoje faço parte do Grupo Amigos da Água”, comenta. O compromisso da devota já envolve família e amigos, que a ajudam a levar os pacotes de água até o local de sempre, a agência dos Correios da avenida Presidente Vargas, até porque ela tem problemas de saúde que a impossibilitam de carregar peso.

Mas desde o ao passado, Nathalia e o marido, Rodrigo, também levam um bebê de cera para agradecer à padroeira. Eles queriam ser pais e ela até chegou a engravidar algumas vezes, mas não conseguia evoluir. “Ano passado, já grávida, pedimos que nossa Senhora nos permitisse viver esse sonho tão esperado e lindo. Hoje, temos nossa filha fruto de muito amor em nossos corações, que no almoço do Círio completa cinco meses de vidae que chegou para alegrar as nossas vidas e de toda família. Ela é um bebê arco-íris: cheia de luz!”, fala Nathalia, complementando que“Maêvasignifica bem-vinda. Ela é a filha da promessa”.

O bebê de cera é levado para celebração de descida da imagem do Glória, localizado no altar-mor da Basílica Santuário. Como a psicóloga passou por uma cirurgia há pouco tempo e também não pode se expor a aglomerações, caberá ao marido fazer a entrega pessoalmente, enquanto ela permanece em oração. 

O domingo do Círio deste ano será totalmente reservado, sem poder reunir com todas as pessoas da família, mas será um dia de celebração até porque também será dia do quinto mês de vida de Maêva. “É um momento de união, de graça e de paz! Em que a nossa fé se renova ao sentirmos a graça de Nossa Senhora tocar nossa face e nos abraçar com seu manto.A certeza que uma mãe nunca deixa as lágrimas caírem sem que ofereça um colo acolhedor. Ouve nossas orações e intercede junto a seu Filho Jesus”, destaca Nathalia.

Recebimento de promessas
Para quem ainda tem promessas para entregar e não sabe como fazer, a Diretoria da Festa de Nazaré (DFN) disponibiliza uma barca, no armazém 3 da Estação das Docas. O recebimento das promessas estará no local até o dia 30 de outubro, no horário entre 10h e 22h. Os objetos de promessas representam uma forma de agradecer à graça recebida. Dentre os mais comuns estão os objetos de cera, que representam parte do corpo, miniatura de casas ou barcos e entre outros.

Exposição
Desde 2015, a DFN organiza uma exposição dos carros de promessa, em frente à Basílica Santuário, antes do transporte para o balcão da CDP. Neste ano, a exposição começou no dia 01, foi interrompida neste fim de semana, mas volta a receber vistas a partir do dia 12 até dia 25. 

Histórico 
O Círio de Nazaré abrange um conjunto de carros, além da Berlinda, como o Carro de Plácido, Barca da Guarda Mirim, Barca Nova (em exposição na Estação das Docas), Cesto de Promessas, Barca com Velas, Barca Portuguesa, Barca com Remos, Carro Dom Fuas e Carro da Sagrada Família, além de quatro Carros dos Anjos, que são conduzidos pela Catequese da Basílica Santuário de Nazaré.
O primeiro carro de promessa a ser inserido teve o objetivo de relembrar o milagre acontecido em 1182 com Dom Fuas Roupinho, fidalgo português, que esteve prestes a despencar num abismo com seu cavalo. Ele recorreu a Nossa Senhora de Nazaré e foi salvo. E foi a Rainha de Portugal, Dona Maria I, que ordenou a inserção deste carro na grande procissão, em 1805.

Troppo
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