Precisamos falar sobre AIDS

Fabiana Cabral

No Brasil, em 2018, foram diagnosticados 43.941 novos casos de HIV e 37.161 casos de Aids*. Com uma taxa de detecção de 17,8/100.000 habitantes (2018), totalizando, no período de 1980 a junho de 2019, 966.058 casos notificados de Aids, no país, a média é de mais de 40 mil novos casos só nos últimos cinco anos. Os dados são do Ministério da Saúde, divulgados no início deste mês, dedicado ao combate à AIDS.

Qual seria sua reação ao saber que alguém, um conhecido, por exemplo, teve diagnóstico positivo para o vírus HIV? Seu primeiro pensamento é saber se a pessoa está bem ou de que forma ela contraiu o vírus? Passados 38 anos desde a identificação dos primeiros casos, a AIDS já venceu muitas barreiras, mas não consegue vencer o preconceito.

Quebrar o estigma criado em torno da doença, é mais lento que o progresso feito com os medicamentos que hoje possibilitam uma vida normal para milhões de pessoas. 
Por medo do preconceito, centenas de pacientes precisam buscar atendimento longe das suas cidades de origem, deixam de tomar os medicamentos corretamente e se isolam dos amigos e até da própria família.

Quando as pessoas mais próximas falham ao acolher, há uma série de anjos da guarda prontos a apoiar, informar e orientar quem está no meio do furacão. Duas décadas atrás, quando o coordenador do comitê ‘Arte pela Vida’, Chico Vaz, recebeu um resultado positivo, decidiu enfrentar a doença e o tratamento, cuidando de si e de outras pessoas, um trabalho que cresceu junto com toda uma rede de apoio às Pessoas que Vivem com o HIV-Aids (PVHA).

“Bem antes de descobrir que era pessoa vivendo com HIV, já estava, havia um ano, trabalhando no ‘Arte pela Vida’ como voluntário e, de certo modo, já tinha me tocado e sensibilizado para a dor da AIDS. Era o momento de muitas perdas: perdi vários amigos e conhecidos, então embarquei de cabeça na solidariedade, contando com o apoio incondicional de minha mãe que me deu todo carinho num momento tão sensível de minha vida. A adesão ao tratamento não foi nada fácil e resolvi transformar tudo isso em amor e solidariedade aos que passavam pelos mesmos problemas que eu”, diz.

A força e a resignação do Chico em transformar a vida de outras pessoas ainda não é suficiente para mudar números cada vez mais assustadores. De acordo com o Boletim Epidemiológico HIV/Aids 2019, divulgado na semana passada pela Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, no período de 2007 até junho de 2018, foram notificados, no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), mais de 300 mil casos de infecção pelo HIV no Brasil, sendo 26 mil deles (8,7%) na região Norte. Belém, nos últimos seis anos, notificou mais de 4 mil casos de HIV/AIDS em pessoas adultas – 515 diagnosticadas somente em 2018 (janeiro a novembro). 

Ainda segundo esses dados, o Pará aparece de forma negativa no ranking dos Estados, segundo o índice dos indicadores de taxas de detecção, mortalidade e primeira contagem de CD4 nos últimos cinco anos. É o terceiro, estando atrás de Roraima e Amapá. Já em relação às capitais, Belém está no topo da lista e, entre os municípios com 100.000 habitantes ou mais, dos 20 primeiros do ranking, três pertencem ao Pará. 

O médico infectologista Lourival Marsola, ao longo dos anos, e mesmo com o avanço da Medicina, afirma que o preconceito é uma doença pior que a própria AIDS. “Muitas pessoas ainda encaram a doença como ‘coisa de gay’ ou ‘de prostitutas’. Estão totalmente equivocadas. A infecção pelo HIV é uma realidade nossa e que todos precisamos trabalhar para vencer. Aceitar as pessoas infectadas, acolher, amá-las. Imagina uma pessoa que tem AIDS e precisa se esconder de amigos e familiares? Não poder compartilhar seus medos, seus planos e até mesmo sua própria evolução. Pessoas que aceitam seu diagnóstico e que convivem bem com o apoio das pessoas que amam, apresentam melhor chance de ter um tratamento de sucesso”, pondera.   

“A epidemia no Pará e em Belém não está controlada. Não temos boas notícias tanto na transmissão vertical (AIDS em crianças menores de 5 anos), como em outras idades. Falamos pouco sobre AIDS. Precisamos tornar o assunto prioridade de governo. As campanhas são quase inexistentes e não atingem os objetivos que deveriam. As escolas precisam ser envolvidas neste ciclo, já que os jovens passam muito tempo nas escolas e estas precisam assumir um papel de protagonista em assuntos como Aids, gravidez, drogas. Nós, pais, precisamos conversar com nossos filhos e estar preparados e orientados para ajudá-los”, defende Lourival Marsola.

Diferente de quatro décadas atrás, a AIDS já não é uma sentença de morte. Com o uso correto de medicamentos, a síndrome passou a ser considerada uma doença crônica, mas tratável e também a deixou menos temida pela população que, muitas vezes, esquece que medidas simples que podem ser adotadas por todos, como uso do preservativo, previnem totalmente a transmissão do vírus. E quem esquece ou desconhece esse tipo de informação também não lembra que AIDS não tem cura e continua matando milhões de pessoas.

O João** [a pedido do nosso entrevistado, não estamos usando seu nome verdadeiro] podia ser parte das crescentes estatísticas fatais. Ele cogitou tirar a própria vida ao descobrir que, num exame admissional, teria que fazer o teste de HIV.  Soropositivo, tentando uma vaga no mercado de trabalho, sentiu o pavor de ser dispensado por conta do preconceito. Não foi, mas precisou de um suporte importantíssimo para colocar a cabeça em ordem e superar o episódio.

“Olhem no olho das pessoas. Não abaixem a cabeça. Lembrem-se de que somos vítimas dessa epidemia! O estigma e o preconceito ainda são fortes e levam muitos pacientes a se esconderem, por medo de não conseguirem tocar suas vidas adiante. Quando enfrentamos a sociedade, percebemos que ficamos livres de algo que guardamos e nos maltrata e muito”. 

João encontrou um anjo da guarda: Amélia Garcia, policial militar reformada, que hoje milita em várias ONGs de apoio às pessoas vivendo com HIV/AIDS. Amélia é a força e o incentivo que muitos não têm. Há 25 anos, quando ela mesma foi diagnosticada, precisou enfrentar o preconceito e o machismo dentro do local de trabalho e, mesmo nunca tendo ouvido um único comentário, sentia nos olhares e nos gestos a condenação daqueles que julgavam, sem nem mesmo saber o motivo.

“Quando o resultado da minha sorologia veio à tona, dentro da Instituição (PM), foi muito difícil, pois não falavam diretamente que eu era uma vadia, mas as atitudes de me preterirem de certas atividades, deixava bem claro o quanto eu não era bem-vinda em alguns espaços. Foram anos bem difíceis. Tive que sair logo do luto e partir para a luta e enfrentar o preconceito presente em algumas pessoas. Imagine alguém estar com diarreia e ter que fazer uma corrida só para mostrar o quanto podia superar quando não te queriam por perto? Pois é eu fiz isso!”, conta Amélia.

Enquanto o ser humano não evolui no quesito empatia e ainda não é capaz de se colocar no lugar do outro, os pesquisadores não medem esforços e conhecimento para evoluir na criação de novos medicamentos ou aperfeiçoamento dos que já existem. Uma medicação eficaz, aliada com mudança de hábitos traz resultados que melhoram a qualidade de vida e aumentam a longevidade.

“Lembro que, no início da epidemia, os medicamentos que tínhamos disponíveis não conseguiam deixar as pessoas infectadas bem, mas as pesquisas avançaram tanto, no sentido de melhor conhecer o comportamento do vírus HIV, como também da evolução da doença. Os medicamentos desenvolvidos e utilizados se tornaram ao mesmo tempo mais ‘fortes’ e mais toleráveis pelas pessoas. Hoje, utilizamos combinação de medicamentos que agem em pontos diferentes da infeção pelo HIV e que, mesmo a longo prazo, conseguem manter a carga viral (quantidade de vírus no sangue) baixa e não produzem reações danosas no organismo das pessoas que os tomam”, explica o infectologista Marsola. “A AIDS é uma doença que nos ensinou que a boa evolução das pessoas infectadas depende de um trabalho de equipe e que precisamos envolver os pacientes e seus familiares. É muito claro que existem outros fatores que são decisivos para uma melhor evolução da pessoa infectada, como atividades físicas regulares, boa nutrição e acompanhamento regular por uma equipe capacitada. Os pacientes infectados com o HIV precisam manter a prevenção de outras doenças, sejam as sexualmente transmissíveis ou aquelas relacionadas ao uso de substâncias como o álcool e o tabagismo. Sempre oriento quem está em tratamento a não beber ou fumar até porque o organismo deles já precisa combater e enfrentar o vírus da AIDS, então ninguém quer outros problemas para o corpo”, alerta.

Um dos avanços mais recentes é a Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP), um novo método de prevenção à infecção pelo HIV, voltado para pessoas que tenham maior chance de entrar em contato com o vírus, como gays, trans e trabalhadores do sexo. A PrEP é uma estratégia de prevenção do HIV, que combina dois medicamentos, antecipando-se ao risco de infecção e deve ser tomada diariamente para garantir que haja concentração suficiente na corrente sanguínea, bloqueando o vírus de forma eficiente. A medicação só faz efeito após sete dias de uso contínuo para relação anal e 20 dias para relação vaginal. Podem fazer o tratamento pessoas que frequentemente deixam de usar camisinha em suas relações sexuais (anais ou vaginais); têm relações sexuais, sem camisinha, com alguém que seja HIV positivo e que não esteja em tratamento; fazem uso repetido de PEP (Profilaxia Pós-Exposição ao HIV); e apresentam episódios frequentes de Infecções Sexualmente Transmissíveis.

Os significativos avanços permitem que os pacientes com AIDS tenham melhor qualidade de vida, mas nada vai ser mais positivo durante qualquer tratamento do que poder conviver com sem medo, sem angústias, sem precisar se esconder para viver. O preconceito deixa marcas muito profundas em quem já está totalmente fragilizado. Então, você, da próxima vez que souber que alguém teve diagnóstico positivo para HIV vai, de fato, se preocupar com todas as dores daquela pessoa ou vai continuar fortalecendo o preconceito? 

*Notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), declarados no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), além de registrados no Sistema de Informação de Exames Laboratoriais (Siscel) e Sistema de Controle Logístico de Medicamentos (Siclom)

 

Troppo
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