Por uma doce vida, mesmo com diabetes

Lorena Filgueiras

Um mal tão perigoso quanto silencioso, o diabetes afeta 13 milhões de brasileiros, pouco mais de 6% da população. Deste total, quase metade não faz nem ideia de que tem a doença. O Brasil, entretanto, ocupa o terceiro lugar no mundo de em número de crianças e adolescentes com diabetes tipo 1 – uma estatística que preocupa muito... porque crianças não sabem se expressar direito e pela própria desinformação que acomete pais e até profissionais médicos da área.

Mário tinha 8 anos quando o diagnóstico chegou, avassalador. O pai, o professor aposentado de Matemática, Sérgio Domus e a mãe, Telma, não tinham qualquer histórico de diabetes tipo 1 na família, então jamais poderiam imaginar que um mal silencioso estava à espreita. Foi durante as férias de julho, em São Paulo, que a mãe observou que o pequeno Mário levantava inúmeras vezes durante a noite para fazer xixi. Ao final do mês, no retorno a Belém, perceberam ainda que o filho tinha ficado mais magro... e a frequência com que Mário queria urinar foram motivos que levaram Sérgio e Telma a procurarem um médico. 

Qual não foi a surpresa de ambos, ao receberem o resultado do exame: a glicemia do Mário estava altíssima. 

Abalados pelo impacto da notícia, os pais buscaram informações com parentes médicos e, em seguida, foram atrás de ajuda. O primeiro passo foi levá-lo a uma nutricionista, para adaptar a alimentação do filho – e a deles próprios, uma vez que o diagnóstico de diabetes mexe com a rotina da família inteira. Sérgio conta que passou a ler (e assistir) tudo sobre o assunto e a cada boa notícia ou um avanço da ciência no campo da Medicina, ele comemora. “Nos anos 20, quem tinha diabetes vivia no máximo 3 anos. Agradeço a Deus por existirem tratamentos, mas para nós, os pais, é um sofrimento enorme vê-lo se furar o tempo todo para testar a glicemia, tomar a insulina. Hoje, o Mário tem 14 anos e ele vê isso com muita naturalidade... mais até do que nós. Volta e meia ele foge da dieta, come escondido e eu falo sério com ele. Não é uma doença fácil e as implicações são muito graves. Mesmo assim, o Mário é um bom menino: controla o tempo todo o diabetes, é estudioso e inteligente”, conta Sérgio. 

A responsabilidade de se cuidar, ficando atento aos horários e doses fluiu naturalmente. “Se ele vai para um aniversário de algum colega de escola, ele toma a insulina antes de sair. Às 21h, ele aplica a insulina lenta (cuja liberação no organismo ocorre em menor velocidade) e, com isso, sempre tem um desconforto porque a qualidade de vida cai um pouco. Se ele vai ao cinema, ele leva pipoca de casa, por exemplo. Lá, ele pode comprar um refrigerante zero e vai levando a vida dele. Estamos sempre perto, dando forças. Espero que um dia haja cura para a doença. É muito doloroso ver um filho sendo ‘furado’ o tempo todo”, sonha Sérgio.

Mário é parte dos mais de 1 milhão de crianças/adolescentes com o Diabetes tipo 1 no mundo. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Diabetes, só na América Latina, 40% das pessoas com diabetes desconhecem ter a doença. O Brasil ocupa o 4º lugar entre os países com o maior número de pessoas que desconhecem seu diagnóstico de Diabetes Mellitus. E a desinformação contribui enormemente para que estes números, que acabamos de relatar, sejam crescentes.

Mas o que é diabetes mellitus? 
“O Diabetes mellitus é uma condição caracterizada pelo aumento do açúcar no sangue, que pode ocorrer pela falência da produção do hormônio chamado insulina no pâncreas – responsável pelo controle desse açúcar no sangue, assim como pela dificuldade da ação desse hormônio em manter os níveis de açúcar dentro do normal”, explica a pediatra especialista em endocrinologia Darcilene Nunes. 

Darcilene Nunes (Naiara Jinknss / Troppo)

 

Segundo a médica, o diabetes mellitus é um dos maiores problemas de saúde em todos os países e em todas as faixas etárias, com maior prevalência nos países em desenvolvimento. “O Brasil ocupa o 4º lugar entre os 10 países com maior número de diabetes na faixa etária de 20 -79 anos, segundo IDF 2017- International Diabetes Federation, sendo o diabetes do tipo 2 com maior número de casos: cerca de 90%. Em crianças temos tanto o diabetes do tipo 2, assim como diabetes do tipo 1 e formas menos frequentes, como diabetes neonatal (que ocorre no primeiro mês de vida), diabetes causados por medicamentos, por infecções e outras formas mais raras. Apesar dos números de casos de diabetes tipo 2 estarem aumentando em crianças, devido ao aumento da obesidade infantil, o Diabetes mellitus do tipo 1 é a forma mais frequente na infância, correspondendo a 90% dos casos. O diabetes do tipo 1 ocorre por falência da produção da insulina pelo pâncreas, o que é causado por uma alteração no mecanismo imunológico em crianças suscetíveis, em que as células que produzem insulina são destruídas”, detalha. 

E como identificar que a criança tem diabetes?
“O Diabetes mellitus do tipo 1 ocorre de forma súbita e os sintomas mais frequentes são: perda de peso importante, sede intensa, aumento da vontade de urinar, fome excessiva. Há outros sintomas menos frequentes, como fraqueza e vômitos. Pode haver formas mais brandas e formas mais intensas da mesma doença, entretanto o tratamento sempre dependerá do uso da insulina”, pondera. 

Se para os pais do Mário, os sinais ficaram evidentes e coincidem com os sintomas detalhados pela dra. Darcilene, a mesma coisa não ocorreu para Estela Honda Eluan e Elízio Eluan, pais da pequena Maitê. 

Estela, Elízio e Maitê Eluan (Foto: acervo pessoal)

 

“Em nossa família não há intercorrência do diabetes tipo 1. Embora a gravidez da Maitê tivesse exigido muito repouso e ela tenha nascido prematura, aos 8 meses, não percebemos nada atípico com ela”, conta Estela. “Quando Maitê completou 1 ano de idade, a pediatra pediu exames completos. Completos mesmo! E não porque havia alguma indicação ou necessidade, mas por ser parte de um protocolo pessoal de trabalho: ela sempre pede exames de todos os pacientes quando eles completam 1 ano de idade”, relata Elízio Eluan. Na época, tanto ele, quanto a esposa, estranharam a solicitação daquela bateria de exames. Mas a médica insistiu por ser um protocolo dela. Clinicamente, a pequenina não apontava qualquer necessidade e assim foi. 

O resultado apontou um resultado levemente alterado e a recomendação foi que procurassem uma endocrinologista, que procedeu da mesma forma: solicitou novos exames. Foram 30 dias de idas e vindas do laboratório e resultados inconclusivos, até que a especialista sugeriu que comprassem um medidor de glicose e foi aí que o diagnóstico fechou. “A gente entrou imediatamente com a insulina”, afirma Elízio. A notícia apertou o coração da mãe. “Era uma novidade, porque não há casos na família. A médica era muito acessível e tirou todas as nossas dúvidas e ainda garantiu que ela teria uma vida quase normal”, diz Estela. A alimentação, é claro, mudou para a família inteira. “A Maitê, atualmente, dá bronca na gente”, conta, entre risos o pai. “Biscoitos recheados, bombons não entram em casa. Tem uma frase de um médico especialista que diz que ‘diabetes não é uma doença que se sente; é uma doença que se mede’, então não adianta: qualquer coisa que ela coma, vai impactar nela. Só há uma maneira de saber: medir e corrigir”, relata Elízio.

Hoje, aos 9 anos de idade, Maitê surpreende. A menina, que é campeã brasileira, de Karatê, é detentora de uma faixa marrom e a disciplina em pessoa. “Quando eu aplico insulina, meus colegas param para olhar. Consigo aplicar na coxa ou na barriga e levo meu medidor para a escola. Se me sinto estranha ou se choro sem motivo, eu já meço minha glicose. Na verdade, todas as minhas professoras já estão acostumadas”, conta Maitê.

O exercício físico entrou na vida da Maitê por recomendação médica... já o karatê foi uma escolha da própria menina, aos 3 anos. Ela se apaixonou e já faz planos para o futuro: “quero ser sensei de karatê ou ser médica veterinária”.

Embora tudo tenha ocorrido bem, desde a descoberta da doença, Elízio chama atenção para a desinformação, tão recorrente tanto entre leigos quanto entre os próprios médicos. “Há muito pouca informação a respeito do diabetes tipo 1. Geralmente relaciona-se o diabetes aos maus hábitos alimentares. Nós fomos culpados por pessoas que perguntavam ‘o que vocês deram de comer a essa menina?’ ou ‘vocês deram muita bobagem para a Maitê’. E não tem nada a ver! Existe desinformação de todos e até dos médicos. Nas inúmeras vezes em que tivemos que levar a Maitê à Emergência, tínhamos problemas com os médicos. Se ela tomasse soro, por exemplo, que não fosse glicosado, a glicose dela ia cair e a médica não entendia. Para tentar resolver isso, sempre tínhamos que colocar a médica da Maitê em contato com os médicos das emergências. Existe muita desinformação, em geral e o que mais nos choca, é a desinformação por parte dos médicos”, desabafa Elízio.

Mesmo com algumas limitações e a necessidade cuidados redobrados, a doença não é sinônimo de incapacidade – é o que afirma a médica Darcilene Nunes. “Sua vida [a da criança] não será limitada no que diz respeito às suas atividades escolares e sociais, devendo sempre ser incentivadas. A boa resposta ao tratamento sempre dependerá da ação de todos (profissionais e família) e não da criança, isoladamente. Para que isso ocorra, a busca de informações sobre o Diabetes mellitus é essencial e, juntamente com o apoio profissional, condicionará essa família à motivação necessária para o tratamento. Caso contrário, o agravamento do quadro poderá ocorrer, levando a consequências danosas a médio e longo prazo, como comprometimento do crescimento, atraso em seu desenvolvimento puberal, alterações visuais, de circulação... assim como, de forma mais súbita, ao risco de aumentos graves do nível de açúcar no sangue com risco de morte. Situações que podem ser evitadas com o tratamento adequado”, finaliza. 

Para saber mais:

► Diabetes mellitus confirmado na criança , os pais devem buscar ajuda de um especialista, endocrinologista pediátrico, para iniciar o tratamento, lembrando que há a necessidade de uma equipe interdisciplinar composta por nutricionista , pediatra , educador físico e psicólogo os quais levarão a informação sobre a doença ( educação em diabetes ) que corresponde uma das principais armas no tratamento dessa condição crônica. 

► Quando uma criança fica diabética , costumo dizer que toda a família também se torna . Desta forma ,a criança diabética , assim como a família , precisara fazer modificações em seu estilo de vida de forma permanente , no que diz respeito à alimentação saudável , prática de atividades esportivas , higiene mental e parceria entre a própria família e os profissionais para um melhor acolhimento desta criança  que precisará usar insulina até 6-8 vezes ao dia( Diabetes mellitus tipo 1).

Troppo