Para o que der e vier!

O empresário Pepeu Garcia adotou o Pará, há mais de vinte anos, como seu lar. Natural do Mato Grosso, criou raízes profundas por aqui. Reconhecidamente um profissional generoso e carinhoso, como pai, nosso entrevistado especial desta semana, revela-se ainda um ser humano mais incrível.

Lorena Filgueiras

Pai de três filhos (sendo dois naturais e uma enteada), Pepeu nos recebeu para uma sessão fotográfica para a capa desta edição, na última quarta-feira*. Juntos, estavam o caçula, Nicola, presencialmente, e a primogênita, Thalita, que participou da sessão remotamente, já que vive na Alemanha. A ideia das fotos foi mostrar pai e filhos conectados pelo amor, mesmo em tempos tão desafiadores.    

Depois que os registros fotográficos encerram, Nicola e eu sentamos para conversar. O caçula se derrete em elogios pelo pai. “Ele é meu porto seguro”, inicia. “Meu pai é um pai para todas as horas. Nunca nos julgou. Questionava alguns de nossos projetos, mas mesmo não concordando com parte deles, sempre esteve junto, nos apoiou”, diz. Cineasta, publicitário e administrador, Nicola Garcia conta que depois de alguns anos morando fora, em Brasília e São Paulo, decidiu voltar para Belém para trabalhar ao lado do pai.

Pepeu Garcia e os filhos Nicola Garcia e Thalita Garcia (no detalhe, em chamada de vídeo pelo smartphone): conectados pelo amor e respeito (Estúdio Tereza & Aryanne)

“É muito desafiador, como em qualquer relação, trabalhar com seu próprio pai, mas há também muita coisa boa nesse convívio diário com ele. Ele é um ser humano fantástico e fico feliz de ele poder tirar alguns dias a mais de férias, pelo fato de eu estar com ele. A Telma [Garcia, madrasta] sempre diz que ele viaja mais relaxado, ao ponto de quase nem pegar mais no celular”, conta entre risos. Há seis anos morando em Belém, Nicola diz que muito de sua maturidade deve-se à convivência com o pai. “São 27 anos a mais, uma experiência de vida bem diferente da minha. Meu pai sempre foi uma constante na minha vida e jamais impôs as vontades dele. Quando as coisas apertaram em São Paulo, perguntei se haveria trabalho aqui e ele respondeu que ‘trabalho não faltava!’. Ele e Telma foram atrás de um apartamento, alugaram, ajeitaram tudo e, depois de três semanas, eu já estava instalado em Belém. Dois anos depois, conheci minha esposa, que é daqui, e fui encontrando mais motivos para ficar. Sei que o ajudo muito e devolvo um pouco de tudo que ele fez por mim. Meu pai é isso tudo: sempre pude contar com ele”, finaliza.

Demonstrando uma enorme conexão, Thalita Garcia iniciou a entrevista também afirmando que o pai é seu porto seguro. Pesquisadora doutoral em Antropologia e morando na Alemanha, ela diz que Pepeu sempre a apoiou em todas duas decisões, “mesmo nem sempre concordando com elas”. “Sei que posso contar com ele independentemente de qualquer coisa. É também um pai carinhoso e participativo, mesmo a distância”.

Pepeu, aos 28 anos, com Nicola (de branco) e Thalita (Acervo Pessoal)

As lições transmitidas pelo pai foram e são pautadas na compreensão mútua de reconhecer nos filhos indivíduos distintos. “Mesmo sem se dar conta, [o que] ele mais me ensinou foi a seguir tentando. ‘mesmo que um projeto não dê certo como você gostaria, no próximo você empenha mais, busca outros caminhos’. Ele teve essa trajetória na vida e isso trouxe o sucesso que ele tanto sonhava. Além do que, sempre com um sorriso no rosto - algo que também me inspira”, revela a filha.

Filhos são para o mundo

Nunca um dito foi tão verdadeiro, quanto em aplicado ao trio Garcia. Desde muito jovens, Pepeu e as crianças [já adolescentes, mas é como também contam os antigos, “filhos nunca crescem”] moravam em cidades diferentes. Já em idades de trilharem ensino superior, foram para Brasília e São Paulo, distâncias que nunca se aplicaram ao sentimento forte que une os três. Por isso, falar sobre essa “separação” [assunto recorrente nestes tempos pandêmicos] é comum e leve.

Com o neto, Davi. “Eu o ensinei a usar o garfo”, conta o avó coruja. (Acervo Pessoal)

“Pra gente essa vida à distância começou muito antes da pandemia. Eu saí de casa pra fazer faculdade com 18 anos. Desde então, nunca mais moramos na mesma cidade. Então, mesmo quando estava no Brasil, vivia em Brasília e ele, em Cuiabá ou Belém. Há mais de 16 anos fomos aprendendo a seguir a vida um do outro com ligações. Aos poucos, as tecnologias foram facilitando ainda mais esse contato, com mensagens e chamadas de vídeo. Quando eu vivia em Brasília, acabávamos nos encontrando mais vezes, porque era caminho (muitas vezes) de viagens dele. Mas, mesmo nas épocas que vivi e vivo fora do Brasil, a gente sempre se encontrou no mínimo uma vez por ano. Tentamos estar juntos em datas especiais, como Natal, Réveillon, aniversários… Este ano a pandemia impediu esse reencontro anual, mas estamos sempre presentes na vida um do outro de toda maneira, independentemente da distância”.

Com a palavra, o pai!

Pepeu Garcia não acompanhou as entrevistas de Thalita e Nicola e, por essa razão, impressiona muito os relatos tão semelhantes e elogios mútuos – uma relação sólida, alicerçada sobre sentimentos comuns. “Eles me esperavam chegar em casa, para usarem minha camisa”, revela todo orgulhoso. Os registros fotográficos desses momentos tão mágicos foram inúmeros e ocupam vários gigabytes do smartphone do pai coruja. “Quando Thalita nasceu, eu tinha 26 anos. Nicola chegou aos meus 27”, inicia. “Ainda tive o privilégio de, com o casamento com a Telma, há 14 anos, ganhar mais uma filha, minha enteada Danielle, que tem a mesma idade do Nicola”, conta.

“Cada filho é uma história. Foi e é assim com a Thalita, também com o Nicola, e, da mesma forma, com a Danielle. Com a Dani, como ela diz, ela me escolheu antes da própria mãe. Temos consciência de que a figura do padrasto não é necessariamente a substituição do pai, mesmo porque, no caso dela, graças a Deus, eles mantêm uma boa relação. No entanto, fomos e somos grandes parceiros, e vamos nos descobrindo como amigos ao longo de nossa jornada. E ainda tem esse carinho que Thalita e o Nicola nutrem pela Dani”, ressalta.

No registro, um dentre centenas de fotos de viagens que, religiosamente, os três fazem juntos, sempre que é possível. (Acervo Pessoal)

Peço que ele conceitue paternidade, ao que ele responde que é difícil responder isso. “Mesmo lendo todas as ‘Pais & Filhos’ da época e também sendo discípulo do Dr. De Lamare [Rinaldo Victor De Lamare foi um pediatra brasileiro reconhecido por suas técnicas e textos sobre educação infantil. Autor de “A Vida do Bebê”, livro que, até hoje, coleciona recordes de venda], só vamos descobrindo isso ao longo da vida. Na verdade, quanto mais vivemos, mais descobrimos o quão pouco sabemos. Só é possível dizer que com os filhos que tenho, a minha missão ficou muito mais fácil. Mas ser pai, talvez como ser mãe, é algo indescritível, mas posso afirmar que não consigo me enxergar sem os filhos. E digo mais: eles, às vezes até sem saber, nos ensinam mais do que ensinamos a eles. Mas ‘ser pai’ é uma grande realização, principalmente quando você vive a maior parte das fases das vidas dos filhos”.

Sobre seu legado e continuidade, por meio de seus filhos, Pepeu afirma que seu maior desejo é que sejam felizes. “Mesmo enxergando em cada um deles um pouquinho de mim, sei que cada pessoa é uma pessoa. Cada um vai ter seu jeito, seus sonhos, sua forma de ver a vida, seu caráter, formas fazer as coisas. Por isso, no meu ponto de vista, nunca tive o sonho de replicar nos filhos a minha realização ou o meu jeito de ser. Meu sonho é de que eles se realizem na forma como escolherem. As prioridades são a confiança e o respeito. Isso é fundamental e, graças a Deus, assim tem sido. Gostaria de ser lembrado como um bom companheiro, parceiro, e alguém que quis partilhar a caminhada da vida com eles”, afirma.

A família reunida. Da esquerda para a direita, Danielle, Telma, Pepeu, Nicola e Thalita Garcia (Acervo Pessoal)

Nascido em uma família numerosa e marcada pela força da mãe, que virou poesia há dois anos, Pepeu revela que seu pai não foi a figura mais presente, motivo pelo qual “o matriarcado falou mais alto”. Mesmo assim, guarda boas recordações dele. “Ele foi um bom avô, do jeito dele”, relembra. 

Com os filhos, estabeleceu um rito de viajarem sempre juntos. Apaixonado e estudioso do whisky escocês, uma das últimas viagens foi justamente pelo país cuja fama se deve à bebida [e aos kilts]. Sobre a distância, em especial de Talitha, ele é tranquilo. “Em nossas vidas nos falamos constantemente, e procuramos respeitar muito o espaço e papel de cada um. Temos nossas formas de interagir, de trocar ideias, de respeitar espaços, de reconhecer papéis de cada um. Existe uma cumplicidade, mas construída a partir de valores sólidos, onde de aprendeu a respeitar o ser humano, a saber reconhecer a figura do Criador em cada um. Saber que a pessoa que tem valor, não tem preço, e escolher conviver com pessoas assim é algo maravilhoso. O nosso código em comum é o do respeito, entre nós e também ao próximo”. 

Troppo
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