Pajé Zeneida: o mistério dos caruanas e a força que vem das águas

Lorena Filgueiras

Era fim de tarde de uma quinta-feira, em Belém, quando fui ao encontro da Pajé Zeneida Lima, intermediado por sua filha, Eliana. Dona Zeneida não usa celular, na verdade, sequer tem um. São os filhos que ajudam neste contato. Chego ao endereço, no coração da cidade, e encontro nossa entrevistada batendo papo. Aos 85 anos, ela não aparenta ter essa idade. Com um sorriso acolhedor, levanta da mesa e me dá um longo abraço – tão longo quanto o período que esperei pela oportunidade: quase um ano (e a espera valeu muito à pena!). Foram quase duas horas de conversa, em que ela falou sobre a infância, os mistérios invisíveis, a ida para o Rio de Janeiro, do período em que frequentou uma igreja evangélica, os amigos famosos, do xodó pela Fundação Caruanas, no Marajó. Entre uma lembrança e outra, revelações exclusivas, como a de que já escolheu seu herdeiro espiritual; que no dia anterior estivera em um estúdio de gravação para dar voz a algumas de suas centenas de composições (“tocam uma espécie de órgão na minha mente e as palavras vêm naturalmente”) e de um livro, que está saindo do forno. Ficou tão surpreso quanto eu? Espera que ainda tem mais...

T+M: Que o Marajó é lindo, não há nem o que se discutir, mas ouço de tanta gente, daqui, de Belém e de lá, dizer que é encantado também, que preciso lhe perguntar: afinal, o que é que o Marajó tem?
ZL: Ah, o Marajó tem muitas encantarias, há muito mistério ali. As pessoas não acreditam, mas têm que acreditar porque é a pura verdade! Eu estive na Guiana Francesa, para curar uma pessoa e trouxe de lá umas pimentas grandes para plantar. Plantei, mas só vingaram dois pés, que ficaram grandes, até. Mas não davam frutos. Meu filho disse: “deixe isso pra lá, mamãe! Isso não vai dar pimenta, não!”. Fiquei meio triste. No dia seguinte, você acredita que a pimenteira estava amarela, de tão cheia de pimentas?!? Contando, eu fico até com vergonha. Tenho três pés de graviola no meu quintal, mas uma nunca deu frutos. Cheguei perto dela e disse: “filhinha, vou ter que derrubar você. Já tem quase 6 anos que você está aqui e nunca deu um fruto e preciso plantar outro pé de graviola. Espero que você me perdoe, mas vou ter que lhe derrubar”. Passados três dias, coloquei um banco sob a gravioleira e sentei lá para enrolar meus tauaris [cigarro de palha com ervas, imprescindível aos rituais da pajelança]. À medida em que eu enrolava os tauaris, me assustei com o barulho de algo que havia caído no chão. Não era uma graviola enorme?!? Justamente daquela árvore que eu acreditava ser estéril?!? Levantei, espantada, e olhei para cima: a árvore estava carregada de graviolas verdes! A gente não quer acreditar, mas é verdade.  

T+M: A que a senhora atribui o “ar de encantado” do Marajó? 
ZL:
Ao Sagrado! O Marajó... ou melhor, o sagrado mundo do Marajó é o mundo dos encantados!

T+M: A senhora acha que as religiões estão muito misturadas? 
ZL
: Acho! Até a Pajelança! Não a minha! Nasci em 1934 e me fiz pajé com 11 anos de idade. Casei com 16 anos e fui pro Rio de Janeiro. Voltei depois de 27 anos morando lá e, quando cheguei no Marajó, a Pajelança já era outra! Não era aquela na qual eu fui feita e que praticava quando eu era criança! Já tinha batuque, filho de santo. Entendeu? Isso me deixou muito constrangida! Foi quando eu decidi que escreveria um livro para registrar a pajelança cabocla de legado para futuras gerações, para que elas saibam o que é a verdadeira pajelança!

T+M: A senhora foi muito discriminada? Sentiu preconceito? 
ZL
: [ela ri, como quem diz que sim] Sinto preconceito até hoje! Quiseram me matar lá! Foram trezentas pessoas para a frente da minha casa! Inclusive, nesse livro novo que estou lançando... vou te dar um livro, inclusive!

T+M: Aceito e agradeço!
ZL
: Nesse livro, tem um capítulo chamado “Os herdeiros da inquisição”, em que conto como foi ter trezentas pessoas na porta da minha casa me acusando de encantar crianças! Diziam que eu encantava, sequestrava e comia crianças! A Polícia foi na minha casa e abria os freezers pra ver se não tinha criança lá dentro!

T+M: Nossa, dona Zeneida! Em que ano foi isso?
ZL
: Em 1992, logo depois do Carnaval. Passei por tudo isso! Mas eu não desisti! Hoje, dentro do Marajó eu sou respeitada! Hoje, no Marajó, o povo já acredita em caruana. E lá no Marajó, dentro da minha ONG, tenho uma escola e abrigo, principalmente, os filhos daqueles que vivem à margem. São 240 crianças que eu atendo e nunca, nunca fui roubada! Eu acho que quando a gente se dispõe a fazer o bem, o bem todo toma conta da gente!

T+M: A sua fundação é um exemplo para o resto do país todo, especialmente se considerarmos que está localizada em uma região cujo IDH [índice de desenvolvimento humano] é um dos mais baixos do Brasil. A missão que a senhora leva é de responsabilidade dos governantes... a senhora Recebe algum tipo de apoio? Se incomoda com a falta de consideração?
ZL
: A minha ONG foi fundada em 1999 por mim e pela minha amiga e imortal Rachel de Queiroz [escritora e jornalista, falecida em 2003], no Rio de Janeiro, no apartamento dela. O Neguinho da Beija Flor foi testemunha e co-assinou o documento. Voltei para o Marajó e no ano seguinte comecei a levantar a Instituição. Quando eu quis botar a cultura e a educação para preservar o meio ambiente, meu objetivo foi ensinar as crianças a amarem a natureza. E eu queria dar às crianças pobres do Marajó, como eu mesma fui, aquilo que recebi do meu mestre e dos meus pais: o amor à natureza. Meu pai foi deputado, advogado [Angelino Lima foi proeminente político, à época], mas levava adolescentes e crianças para capinar a fazenda, que ele via só aos sábados, já que passava a semana em Belém. Quando ele voltava para o Marajó, que via que a fazenda não havia sido capinada e limpa, ele surrava os meninos! Eu, escondida atrás de um forno de farinha desativado, olhava aquela cena e chorava muito! Prometi a mim, naquele dia, que quando eu crescesse, construiria uma casa enorme, colocaria esses meninos todos dentro e daria tudo para eles! Esse sonho me acompanhou a vida toda, junto com aquela cena do papai surrando os meninos. Quando casei e fui para o Rio de Janeiro... meu marido era oficial da Marinha e comecei a guardar um dinheiro. Consegui autorização e coloquei três táxis na praça, que até hoje eu tenho. Construí uma lojinha e 8 casas elegantes, que eu alugo e tenho a aminha aposentadoria. Então, o que eu tenho – e não é muito – garante a minha vida. Foi quando eu decidi que ia cuidar da minha Instituição e eu que banco tudo dela! Quando me perguntam como consigo manter a fundação, respondo que ‘com ajuda de alguns poucos amigos que conheceram o projeto e entenderam que era algo sério’. Todas as minhas crianças têm uniforme, caderno, material escolar. Eu dou sapato, entendeu? As pessoas começaram a cooperar, com 10, 20, 30 reais. Não é muito, mas me ajuda. Hoje, por exemplo, [na data da entrevista], eu comprei 10 fogões, 10 ventiladores, 10 máquinas de lavar tanquinho... E isso aí é das mães! Comprei liquidificador, ferro de engomar para o sorteio [de fim de ano], além dos bonecos bonitos, dos brinquedos que dou para as minhas crianças. Cada vez que faço isso, é como se eu ganhasse brinquedos também! [ela ri, tímida]

T+M: Me chama muita atenção que o seu pai, um homem de dinheiro, influência e posses, nunca ter lhe dado um brinquedo. Li que a senhora afirmou que nunca teve uma boneca...
ZL
: Nunca mesmo! A minha mãe foi criada dentro do Gentil Bittencourt, com as freiras e aprendeu a costurar muito bem. Ela fazia umas bruxas de pano para mim – e sempre eram bruxas de pano preto. Os olhos eram brancos e eu morria de medo! Não gostava, não. Mas isso nunca me marcou, mas quando eu dou para as crianças, eu me realizo! Fico felicíssima demais!

T+M: Mas a senhora há de concordar comigo que experiências, desta natureza, digo, o fato de nunca ter ganhado uma boneca, costumam marcar negativamente as crianças. Por que foi diferente com a senhora?
ZL
: Primeiro, por causa do amor à natureza. 

T+M: Perdão lhe interromper, mas preciso saber se ficou alguma mágoa do seu pai.
ZL
: Não. Ficou muita saudade. E sempre que falo nisso, me dá uma vontade enorme de chorar. [a voz embarga e ela pede um lencinho de papel à filha Eliana, que acompanhava a entrevista]. Eu tenho o meu pai como a pessoa mais importante do mundo! [e chora] Papai era muito seguro com dinheiro, ele era brabo, mas dava muito carinho pra gente. Ele punha os filhos no colo e cantava, sabe? Ele gostava de me ver criar os passarinhos. Ele plantava sementes comigo. O papai tinha isso e ele era um homem... Eu estudei no Grupo José Veríssimo [escola pública de Belém]. Uma vez arranjei uma briga, na saída da escola, com uma menina. Chamei ela de pipira! Ela correu atrás de mim, passou uma gilete na minha perna e cortou minha saia. Revidei batendo nela com um pedaço de pau. Você imagina como cada uma chegou em casa, não é? A mãe dela foi na minha casa tomar satisfação. Papai me chamou e perguntou pra ela: “A senhora vai bater na sua filha? Vai repreender sua filha? Repreenda a sua, que eu vou repreender a minha!”. Ela ficou paralisada e ele perguntou: “é só isso?”. Ela respondeu que sim e ele bateu a porta. Quando ele fechou a porta, me pegou pelo braço, me levou pro quarto e me deu meia dúzia de couro de palmatória! Minha mão ficou inchada, enorme! Ele fazia isso e não me ralhou na frente de mulher. Isso eu guardo como um tesouro dentro de mim! Papai teve respeito por mim! Essas coisas me marcam. Eu adoro o meu pai, tenho uma verdadeira adoração por ele! Certa vez, faltou sal em casa e mamãe me pediu pra ir na casa da vizinha pegar um pouco de sal para preparar o feijão. Fui lá e voltei com um embrulhinho de sal e, no meio do caminho, encontrei o papai. Quando ele me perguntou o que era e eu respondi, ele me pediu pra entregar pra ele. Foi na panela de feijão e jogou todo o sal dentro da panela. Disse para mamãe que íamos comer daquele jeito.

T+M: Mas por que ele fez isso? 
ZL
: Pra nos ensinar. Isso não me marcou negativamente, não. Isso foi aprendizado para a minha vida. Tanto que estou aqui até hoje. Você sabe que eu não tenho celular, né? Não gosto. TV, só vejo a Globonews e a TV Liberal. Gosto de ter informações boas, não gosto de ver coisa fútil. Papai me preparou para a vida!

T+M: Ele não compreendeu e não aceitou o seu despertar espiritual, ao passo de que sua mãe foi uma grande companheira nessa jornada. Tendo sido educada por freiras, ela sofreu muito pela senhora?
ZL
: De jeito nenhum! Mamãe lia a Bíblia todo dia para nós, explicava as passagens. Até esqueci de colocar isso no livro, mas em todas as brincadeiras que fazíamos, as encenações de passagens bíblicas, eu fazia o papel de Jesus Cristo! Meu irmão fazia uma cruz de madeira pesada e punha no meu ombro. Enquanto caminhava, era “chicoteada”. Ficava toda lanhada. Havia uma capela na fazenda e todo domingo, papai mandava buscar o padre em Soure para rezar a missa. A mamãe teve dificuldades em aceitar por causa do papai, não por questões de fé ou espiritualidade. Papai não acreditava e mamãe tinha que acompanhar ele ou ela apanharia dele. Papai batia muito na mamãe. Quando eu desapareci, todos os empregados da fazenda foram me procurar. Mamãe correu pra mandar um telegrama para o papai e dizia nele que ele tinha de voltar e trazer minha madrinha. Que haviam dito para ela que se minha madrinha gritasse por mim, eu reapareceria. A Dicócia [nome da madrinha] foi pro Marajó e depois de 16 dias, eles me encontraram, toda amarrada em cipó e surrada [ela conta, em sua biografia, que foi sequestrada por três seres azuis e ficou sob o domínio deles por 16 dias, amarrada e apanhando todos os dias].

T+M: Quem eram esses seres azuis?
ZL
: Olha.... eu não vou dizer para você... devia ser das águas, porque tinham caras achatadas, os olhos aqui [faz o gesto de ser na testa] e muita pele. Tinham umas membranas debaixo dos braços.

Era fim de tarde de uma quinta-feira, em Belém, quando fui ao encontro da Pajé Zeneida Lima, intermediado por sua filha, Eliana. Dona Zeneida não usa celular, na verdade, sequer tem um. São os filhos que ajudam neste contato. Chego ao endereço, no coração da cidade, e encontro nossa entrevistada batendo papo. Aos 85 anos, ela não aparenta ter essa idade. Com um sorriso acolhedor, levanta da mesa e me dá um longo abraço – tão longo quanto o período que esperei pela oportunidade: quase um ano (e a espera valeu muito à pena!). Foram quase duas horas de conversa, em que ela falou sobre a infância, os mistérios invisíveis, a ida para o Rio de Janeiro, do período em que frequentou uma igreja evangélica, os amigos famosos, do xodó pela Fundação Caruanas, no Marajó. Entre uma lembrança e outra, revelações exclusivas, como a de que já escolheu seu herdeiro espiritual; que no dia anterior estivera em um estúdio de gravação para dar voz a algumas de suas centenas de composições (“tocam uma espécie de órgão na minha mente e as palavras vêm naturalmente”) e de um livro, que está saindo do forno. Ficou tão surpreso quanto eu? Espera que ainda tem mais...

T+M: Aceito e agradeço!
ZL: Nesse livro, tem um capítulo chamado “Os herdeiros da inquisição”, em que conto como foi ter trezentas pessoas na porta da minha casa me acusando de encantar crianças! Diziam que eu encantava, sequestrava e comia crianças! A Polícia foi na minha casa e abria os freezers pra ver se não tinha criança lá dentro!

Pajé Zeneida (Estúdio Tereza & Aryanne)

T+M: Sabe, isso me deixa meio confusa: por que seres do mundo das águas bateram na senhora?
ZL: Eu vim [nasci] cheia de mistérios. Eu venho de três raças: branca, negra e indígena. A minha avó, que era espanhola, veio para o Brasil e se juntou com um pajé sacaca [tribo] e ele já dizia que, por uma filha dela, nasceria uma menina com o dom do pajeísmo. Todo mundo na família da mamãe já sabia. Teve o primeiro, o segundo filho. Quando teve a minha gravidez, foi atribulada, cheia de mistérios. No meu parto, primeiro “nasceu” uma bola. Era uma bola com olhos, boca e os buracos do nariz. Meu pai pegou uma faca e cortou a bola e todos os órgãos estavam lá dentro – mas era uma bola sem membros. A parteira, dona Eurica, recomendou que a “bola” fosse jogada dentro do igarapé. Devia ser uma irmã gêmea minha que não se formou. Quando falo de mistérios, falo das coisas loucas que ocorriam comigo, tipo o café se encher de areia. Quando isso ocorria, mamãe já dizia: “isso é coisa da maluca da Zeneida!”.

T+M: E quando foi seu pai começou a aceitar que tinha uma filha com um dom especial?
ZL: Quando eu comecei a fazer as curas! Meu irmão apareceu inchado e com uma febre de 40 graus. E nada de ele ficar bom. Papai naquilo de ser seguro com dinheiro e não comprava remédio. Remédio tinha que vir da natureza, chás, essas coisas. Daí, fui para o quintal e vi os mata-pastos e os fedegosos [plantas] ficarem transparentes e parece que dançavam para mim. Virei para minha mãe e disse: “mamãe, pegue o mata-pasto e o fedegoso, coloque numa água e ponha nas costas do Renato. Dê também pra ele tomar uma cuinha”. Com 8 dias, ele [o irmão, Renato] estava bom. Desinchou e a febre sumiu. Foi quando meu pai concluiu que eu não era “só”.

T+M: A Senhora já escolheu ou percebeu quem será seu herdeiro espiritual?
ZL: Herdeiro meu é meu neto, filho dessa minha filha [e ela aponta para a outra filha, Maria de Nazaré, que acompanhou a entrevista], que é assistente social... mas ela não quer!

T+M: Qual o nome dele?
ZL: Meu neto é o Edson.

T+M: [pergunto para a filha] Por que você não quer que o Edson seja o herdeiro espiritual da dona Zeneida?
Maria de Nazaré: Porque eu participei de muita coisa que aconteceu com a minha mãe, principalmente a rejeição, por ela ser pajé. Não quero esse sofrimento para o meu filho. Se ele tiver de ser, vai ser, mas, até então, prefiro poupá-lo. Só quem está ali, naquele momento, e participa é que pode saber das coisas... Quando a mamãe conta, é uma coisa. E a gente, que viveu, é outra... Tudo que a gente viveu, deixou muitas marcas em mim.

T+M: Pelo que entendi, você não gostaria, mas se ele quiser...
Maria de Nazaré: Vou tentar só prepará-lo para o que vem pela frente. Mas ele vê tanta coisa...

Zeneida Lima: Ele vê as coisas do invisível, do sagrado! Ele fala, sabe fazer remédio! É uma pessoa iluminada e ele carrega nele o dom de ser pajé! Ela casou com um oficial da Marinha de Soure, foi morar no Rio...

T+M: Nossa, dona Zeneida, qualquer semelhança com a sua trajetória não é mera coincidência, né?
ZL: Pra você ver! Ela casou, foi morar no Rio e engravidou lá. Ela me ligava desesperada porque fizeram vários exames e ninguém conseguia ver os pés da criança. E eu a tranquilizava: “calma, que ele traz o dom do pajeísmo!”. Conclusão: o menino nasceu e as solas dos pés eram vermelhas, vermelhas... Esse vermelho era o que não deixava os pés aparecerem na ultrassonografia. E, quando ela estava com sete meses de gestação, ele chorou na barriga dela e todos que estavam em casa ouviram a criança chorar.

T+M: Minha avó costumava dizer isso: criança que chora no ventre da mãe carrega um dom!
ZL: A melhor parte é que ela dizia: “tem uma criança chorando aqui” e eu apontava dizendo: “é da tua barriga, Nazaré!”. Ela não quer, eu não vou forçar, mas eu tenho a mais absoluta certeza de que a natureza vai cumprir seu curso...

T+M: Dona Zeneida, a senhora tem um mentor espiritual ou vários?
ZL: [ela me olha fixamente e demora a responder. Repito a pergunta e ela responde com cautela] Tenho vários.

T+M: Todos eles conversam com a senhora?
ZL: Não, só um.

T+M: Quem é ele?
ZL: É o Mestre e Contramestre da minha corda. Norato Antônio.

T+M: A senhora cumpre todos os ritos e rituais até hoje? Mesmo com limitações impostas pelos compromissos, o cansaço natural...?
ZL: Cumpro todos. E obrigatoriamente no Marajó, que é onde eu me reabasteço e me reenergizo. Preciso te explicar uma coisa: eu trabalho com os “três níveis” das águas. Com o povo do fundo, do Auí, o povo que veio junto com o Girador, que é Deus. São os Caruanas. Aí vem o meio das águas. Quando, na tribo, não tinha cura pra doente ou se nascia alguma criança com defeito, o que fazia o pajé? Preparava o iabaça, preparava eles dentro e mandava para o Patu-Anú. É importante te explicar que o fator morte não existe na Pajelança: as pessoas encantavam. Então quando eram enviados para o Patu-Anú, eles se encantariam. Daí, vem a superfície, que são os Caruás. Mas todos são Caruanas. Quando há o caso de doença grave, os caruanas são invocados; é a vibração deles que age! Toda doença, no início, tem cura. Quando ultrapassa o início, aí é mais difícil.

T+M: A senhora já curou muita gente?
ZL: Já, mas não gosto de dizer nomes, nem o que fiz. Fico constrangida. Assim como o padre respeita os segredos da confissão, eu respeito os meus tratamentos... Mas já tratei muita gente, deputados, mas mantenho sigilo.

T+M: É o mistério que fortalece sua relação com o invisível, então, certo?
ZL: Justamente! E tem mais uma coisa: quando eu faço cura, fico de jejum por 8, 15 dias... depende da gravidade do caso. Pajé não é Deus, portanto, há doenças que não consigo curar. Não consegui, por exemplo, salvar um sobrinho meu. Eu mesma, Zeneida, descobri um problema na tireoide. Vi, pelas energias, que eu estava doente e fui ao médico. Chegando lá, pedi que ele fizesse um exame e ele me perguntava: “como é que a senhora sabe que está doente?”; E tava lá o nódulo. Fui operada, mas depois de seis anos ele voltou. As energias me avisaram de novo! Fui para o Rio de Janeiro de novo, atrás do melhor especialista. Não tinha dinheiro para a cirurgia, mas paguei a consulta e quando entrei, disse: “o senhor precisa me operar, mas não tenho dinheiro para lhe pagar. Ainda assim, preciso que o senhor me ajude, porque tenho uma ONG que atende 300 crianças e não posso deixá-los”.

T+M: Ele operou?
ZL: Não só operou, como ainda nos tornamos grandes amigos, tanto que ele escreveu o prefácio do meu livro sobre o mosquito dengoso [da dengue. Dona Zeneida já lançou vários livros infantis]. Mas ele pediu que eu sempre pedisse proteção para ele. [ela cai na gargalhada]

T+M: Ouvindo a senhora falar tudo isso, concluo que o ser humano se distanciou muito da natureza...
ZL: E como! A natureza é o começo e o fim de tudo! É nossa Grande Mãe. Quem viola a natureza, viola a si mesmo! Quem viola a natureza, é punido por Anhanga. Se ele não pagar, seus descendentes pagarão. Eu tenho um verdadeiro amor pela natureza e ensino minhas crianças a mesma coisa. Faço música para a natureza...

T+M: A senhora me conta melhor isso? Pelo que eu entendi, a senhora compõe músicas, tanto letra quanto a melodia. E ouve um órgão que toca na sua cabeça...
ZL: [ela ri] É isso mesmo!

T+M: Já se perguntou alguma vez quem toca esse órgão?
ZL: [ela ri bastante] Nunca! Sabe que é até bom você me perguntar isso? Me chamou atenção isso! Nunca me perguntei, mas acho que vou perguntar da próxima vez! Mas uma coisa é certa: é tanta música, que tenho certeza que é a natureza quem dita para mim! Tenho tanta música gravada e o Egberto Gismonti guarda todas elas para mim.

"Eu recebi o chamado da natureza para gravar algumas delas e alguns amigos meus vão fazer isso, porque eu não tenho voz"

T+M: Opa, conte melhor isso...
ZL: A Tizuka [Yamasaki, cineasta] me levou na casa dele. Cantei algumas e ele propôs guardar todos os registros. “Você não pode deixar suas músicas assim. Você vai gravar, eu vou editar e tudo vai ficar guardado na gravadora”. Tanto as músicas mundanas [que não são de pajelança], quanto as doutrinas dos Caruanas – essas não serão ouvidas comercialmente. Mas espero que fiquem em uma Universidade, quando eu me “passar”. São quase 150 músicas. Agora, eu recebi o chamado da natureza para gravar algumas delas e alguns amigos meus vão fazer isso, porque eu não tenho voz [para cantar]. Vou cantar um pedacinho para ti, tá?

T+M: Oba, claro!
ZL: [e ela cantarola] Quando o mar está correndo / Está correndo com o vento / Esse vento eu não sei / O silêncio que tem / O silêncio que tem eu preciso saber / Se é saudade das aves, que começam a morrer / Morrendo também está a minha alma / Com saudade das águas / Que estão pra acabar / O homem não vê a floresta acabando / Os rios estão chorando / Correndo pro mar.

T+M: Que bonito! Como a senhora diz que não tem voz para isso?
ZL: Ah, mas cantar e aparecer nesses negócios, eu não gosto.

T+M: Começamos essa entrevista com a senhora revelando que tem um livro novo para lançar...
ZL: Isso! Ainda não tem data, mas quero te dar um, o primeiro [exemplar]. [o livro chama-se “Meus Caruanas – A incrível história de uma pajé marajoara”, e será lançado pela editora Dialeto”].

T+M: Vou ler, com toda certeza e muito obrigada, dona Zeneida. Dentre as histórias reunidas no livro, há alguma que a senhora não tenha contado anteriormente?
ZL: [ela ri] Sobre o meu primeiro namorado. Quando fui para Soure, aos 11 anos, para me tratar e me fazer pajé, tinha um rapaz, de 25 anos, que gostava muito de mim.

T+M: Dona Zeneida do céu, nos tempos atuais... bom, isso é pedofilia!
ZL: Pois é, mas é importante que se diga que ele nunca me beijou! Era um amor platônico. Ele comprava chocolate para mim porque sabia que eu não gostava de tomar café. Foi um amor forte, mas era vivido assim, distante. Um dia, ele se arvorou a me pedir em casamento para o papai, que nem sonhava com algo desse tipo. A mãe dele era pajé também. Quando o papai ouviu a proposta dele, berrou: “Você está louco? Eu lá vou casar a minha filha com um vaqueiro?!?”. Fiquei muito apaixonada... até hoje! [as filhas, que estão na sala, concordam: “Até hoje ela é apaixonada!”]. Ele já morreu.

T+M: Mas vocês mantiveram contato?
ZL: Não. [a filha Eliana interrompe e conta que dona Zeneida cria uma sobrinha dele]

T+M: Verdade, dona Zeneida?
ZL: É. Hoje ela já está mulher feita. Tem 45 anos. Mas quando ela veio para minha casa, ela tinha de 4 para 5 anos.

"Quando eu fiz a música para Nossa Senhora de Nazaré, o bispo de Soure queria me matar também! Ele veio a Belém tomar satisfações, trazendo tercinho na mão."

T+M: Preciso lhe confessar algo: eu ia lhe trazer um tauari de presente. Queria muito fazer umas fotos suas com um tauari. Mas esqueci...
ZL: Acho que tenho um aí. Vou pegar, acender e dar umas baforadas. [ela, de fato, pega um tauari, acende e iniciamos as fotos, mas continuamos conversando]

T+M: Neguinho da Beija Flor vai estar nesse disco, dona Zeneida?
ZL: Vai! Ele, a Fafá... mas não posso falar muito mais sobre isso. [ela ri e volta a cantarolar, mas deduzo que trata-se de algo da doutrina da pajelança, então, em respeito ao que ela disse anteriormente, prefiro não reproduzir a letra aqui]. Quando eu fiz a música para Nossa Senhora de Nazaré, o bispo de Soure queria me matar também! Ele veio a Belém tomar satisfações, trazendo tercinho na mão. Eu disse: “Bispo, eu sou batizada duas vezes! Na igreja católica e, quando fui para o Rio de Janeiro, fui batizada protestante. Passei 7 anos dentro da Igreja Batista!”.

"Fui muito, muito discriminada, inclusive pela minha família. Eu era a doida da família e ninguém me dava crédito."

T+M: Mas com essas revelações, vou ter material para duas edições da Troppo! Como assim, a senhora foi batizada na Igreja Batista?
ZL: Eu fui para o Rio e tinha pouquíssimo tempo que havia sido assentada pajé. Fui muito, muito discriminada, inclusive pela minha família. Eu era a doida da família e ninguém me dava crédito. Meu marido era oficial da Marinha e eu me sentia muito sozinha. Ele alugou um apartamento para nós e disse: “Cuida aí das crianças até eu voltar”. Nada faltava, mas não tinha como não me sentir sozinha. Um belo dia, colocaram um folhetinho por debaixo da porta e era um convite para um culto. Pedi à minha vizinha para me levar ao culto. Depois de 3 meses, me batizei na Igreja. Eu e meu filho Rubens. Eu cantava no coro, evangelizava na praça, nos hospitais.

"Um dia, eu estava no coro e o caruana me pegou. E a primeira coisa que ele disse foi: 'Bendito e louvado seja o nome de Cristo Jesus'. Agora pense na voz, que era grossa e masculina. Parecia um homem falando."

T+M: Os caruanas ficaram aborrecidos?

ZL: Não. Antes de eu decidir fazer isso, me abri para eles. Disse que estava me sentindo muito sozinha e precisava de alguém que me amparasse. Na igreja, eu encontrei amor e apoio. Tanto que, até hoje, eu sou apaixonada pela Igreja Batista. Aos domingos, ainda era professora. Por causa da minha mãe, eu conheço a Bíblia como poucos. Um dia, eu estava no coro e o caruana me pegou. E a primeira coisa que ele disse foi: “Bendito e louvado seja o nome de Cristo Jesus”. Agora pense na voz, que era grossa e masculina. Parecia um homem falando. Meu marido, que estava no Rio foi chamado às pressas e explicou que eu era pajé. Foi quando o pastor disse que infelizmente eu não poderia ficar lá. Saí da igreja muito apaixonada.

T+M: Seu marido era compreensivo?
ZL: Muito! E acreditava demais. Embora ele não criasse objeção à igreja, ele não me acompanhou, mas ia me levar e me buscar de volta para casa. Tudo isso me fez ser a mulher que eu sou.

Troppo
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