Os desafios do ensino na pandemia

Experiência de aulas on-line durante a pandemia tem feito pais e responsáveis valorizarem ainda mais o trabalho desenvolvido pelos professores

Jamille Reis

Reinventar-se! A expressão é a que melhor define os desafios encarados pelos profissionais da educação, que, de uma hora para outra, tiveram que se adaptar a um novo contexto e formato de ensino, com a missão de manter o bom rendimento e prender a atenção dos alunos, mas, desta vez, através das telas de dispositivos eletrônicos. Em comemoração ao Dia do Professor, ocorrido no último dia 15, mostramos um pouco como tem sido essa experiência para eles.

Ficar fora de sala de aula, sem o toque, as conversas olho no olho e sem poder auxiliar seus alunos, foi algo totalmente novo - e inesperado - para a pedagoga Alessandra da Silva Binttencourt, 39 anos, que há 14 anos dedica-se à atuação profissional, na educação infantil. Virar a chave do ensino presencial, lúdico e sensorial, como os pequenos precisam, para aulas on-line, foi um grande desafio. "Nunca tinha passado por uma experiência nesse sentido. A pandemia alterou drasticamente a rotina de todos e nós, educadores, tivemos que nos adaptar rapidamente para continuar nossa missão de mediar, levar aprendizagem, e somar na rotina dos alunos e, também dos pais", conta a professora.

Alessandra da Silva Binttencourt (Acervo Pessoal)

Para Alessandra, lidar com as novas tecnologias, manusear uma plataforma nova, gravar e editar vídeos, além de transmitir aulas ao vivo foi desafiador. "Precisávamos construir uma aula prazerosa, na qual as crianças pudessem, mesmo de longe, interagir e se manter concentradas. Fazer isso de forma virtual foi mais difícil, já que não há o contato visual direto, aulas especializadas em diferentes ambientes, etc. Cantei, dancei, pulei e fiz tudo que foi necessário que eles estivessem atentos aos conteúdos", completa ela, que diz que o contexto todo gerou medo e ansiedade pela incerteza se os resultados seriam alcançados.

Com a volta às aulas presenciais, dentro de um "novo normal", a pedagoga destaca que a lição que fica é de aprendizagem, tanto pessoal, como profissional. "A pandemia trouxe coisas ruins, mas também coisa boas, procuramos nos reinventar, aprendemos a ser mais solidários, humanos, nos colocar no lugar do outro para ajudar e levar o melhor para nossas crianças, que são nossa esperança de dias melhores", pontua.

Superação

Assim como Alessandra, a professora Lia Barile Carvalho da Silva, 44, nunca imaginou que o afastamento social, visto na ficção, em séries e filmes, pudesse se tornar realidade. O medo do que estava por vir e a angústia diante de não poder conviver com pessoas queridas foram as sensações que mais afloraram na profissional. "Não fazia ideia de que a situação podia se estender tanto. Achei que duraria 15, 20 dias, no máximo. Logo que o colégio interrompeu as aulas, vi professores recolhendo seus pertences para dar inícios as aulas on-line e achei que seria desnecessário, pois logo estaríamos todos de volta a rotina na escola, o que não aconteceu por meses", relembra.

Para ela, o maior desafio foi perder a noção de limite entre espaço e tempo. Conciliar o turno de mãe e afazeres domésticos com o turno profissional, sem que houvesse a definição de espaço e tempo, já que a rotina passou a ser toda dentro do lar, foi difícil. "A casa era o trabalho e, entre uma aula e outra, precisava cuidar dos meus filhos, estudar com eles, organizar o ambiente, entre várias outras situações, que acredito que muitas outras pessoas também passaram", diz. "Por várias vezes, ao final do dia, eu me perguntava: ‘Senhor, como é que a gente vai viver isso de novo amanhã?’", conta Lia, que até o momento não teve qualquer sintoma da Covid.

Por outro lado, ver o reconhecimento e receber o carinho de alunos e pais, a impulsionou a seguir firme em seu propósito profissional, vivenciado com tanto amor ao longo de 25 anos. "Nossa profissão é uma profissão movida por afetos. Estivemos on-line, afastados socialmente, mas a maior conexão é feita pelo aplicativo mais poderoso que a raça humana já conheceu, que é o nosso coração", comenta a professora de Língua Portuguesa e Redação, que lamenta que alguns colegas tenham perdido o emprego durante a pandemia.

"Foi difícil conviver com o fato de que muitos colegas professores estavam perdendo seus empregos, tendo seus salários reduzidos e seus direitos alterados. Apesar de isso estar dentro do contexto da pandemia, não deixou de ser muito difícil conviver com essa realidade", destaca Lia.

Cautela e responsabilidade

Os desafios não foram sentidos só por alunos e professores. Para a diretora administrativa de um colégio na capital, Elizabete de Melo Pontes, o processo de adaptações para que fosse criada toda a infraestrutura de aula on-line e, posteriormente, o retorno presencial, exigiu muito de toda a equipe. "Nos atualizamos com diversas palestras e treinamentos para fazer um trabalho remoto com competência e foi muito produtivo. Os professores vestiram a camisa e, graças a Deus, hoje estamos conseguindo vencer esse desafio" afirma.

Para o retorno às aulas presenciais, a escola seguiu todos os protocolos da Organização Mundial da Saúde, com cabines de sanitização, treinamento da equipe, limpeza e higienização em intervalos menores e regulares. "Estamos agindo com muita cautela para oferecer o máximo de segurança, tanto para nossos alunos, como para nossos profissionais. Para isso, o retorno foi gradual, com ocupação de turmas em 25%, em seguida 50% e agora 75%", destaca a diretora.

Ainda de acordo com a diretora, as escolas têm adotado sistema híbrido, no qual, o aluno ou pais que não sentem a segurança ainda com o retorno presencial, têm acesso às aulas remotamente.

Reconhecimento 

A cirurgiã-dentista Tâmara Nunes Ota, 36, é mãe de Yasmin, 13, e Yuri, 4, e vivenciou a experiência de ter dois filhos em idade escolar durante a pandemia. Após o período inicial, que foi de medo e reclusão, ela precisou voltar a trabalho e sentiu muita dificuldade para conciliar a rotina de consultório e hospitais com a vida escolar dos filhos. "No início a aula on-line era novidade e isso acabava prendendo eles, mas depois o Yuri não conseguia mais ficar muito tempo na frente do computador. Para ele, aquele período era de férias", conta. 

Em determinado momento, Tâmara optou em contratar uma professora particular, três vezes por semana, para que seu filho pudesse acompanhar o conteúdo escolar e avançar no desenvolvimento. "Percebi que alguns amiguinhos da sala já estavam escrevendo seu nome, por exemplo, enquanto ele não. Como eu não conseguia estar ali do lado dele para ajudá-lo e incentivá-lo, optei pela ajuda profissional", explica a dentista. 

Para ela, o esforço e dedicação de todos os professores, foram notórios e essenciais para que família e escola pudessem atravessar o período de turbulência juntas. "Me surpreendi muito com o empenho deles. Tenho mestrado, então tenho essa percepção de sala de aula, já realizei diversos cursos, inclusive na modalidade on-line, mas vi que todos os professores, em diferentes escolas, se reinventaram e fizeram de tudo para chamar atenção dos alunos", comenta.

Tâmara destaca ainda que, ao se colocar no lugar do professor, auxiliando seus filhos das atividades em casa durante a pandemia, passou a valorizar ainda mais a profissão. "Quem tem filho na escola sabe o quanto esses profissionais foram presentes em nossas casas, dando o suporte e continuidade ao ensino em meio a uma situação completamente nova para todos. Já os valorizava e passei a valorizá-los ainda mais", finaliza.

Troppo
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