Óleos essenciais: muito além do misticismo, eles trazem benefícios e têm efeitos comprovados

Lorena Filgueiras

Considerados grandes aliados em tratamentos de saúde e comumente mais encontrados em cosméticos, os óleos essenciais conquistam cada vez mais adeptos. Mas é importante dizer: embora sejam de origem natural, há que se ter parcimônia, porque eles também têm contraindicações. 

Há alguns anos, a aromaterapeuta Andréa Darco teve uma dor de cabeça tão forte, que evoluiu para uma enxaqueca crônica. Pesquisadora, de longa data, das práticas integrativas e terapias holísticas, Andréa lançou mão de todo seu conhecimento, mas nenhuma das técnicas funcionou. “Fui ao médico, ao neurologista e nada! Era uma dor absurda, que não cessava nem quando eu dormia”, conta.

À época, embora tivesse um amplo conhecimento, Andréa fazia um curso na área e conheceu a presidente da Associação Brasileira de Aromaterapia (ABRABROMA), Sandra Spiri, que estendeu-lhe um vidro de óleo essencial de lavanda e orientou Andrea a passar uma gotinha do extrato nas pontas dos dedos e, então, massagear as têmporas e na nuca, de duas a três vezes por dia. “Depois você me conta”, desafiou Sandra. “Eu estava tão incrédula e meio que aceitando que aquela dor era parte de mim, que comecei a usar. No quarto dia, acordei com uma sensação de que estava faltando água: era a dor de cabeça! Completamente sem dor e impressionada, decidi entender o que era aquilo”, relata. “Precisava estudar e ir atrás de outros relatos. Naquela época, não havia internet ou Google e a gente não tinha essa experiência: o uso de práticas integrativas e terapias holísticas era mais um lance de credibilidade, fé e boas intenções que de, propriamente, propriedades das técnicas. Conversei com a Sandra [Spiri] e, naquela época mesmo, fiz meu primeiro curso na Abrabroma. Costumo dizer que foi um caminho sem volta”, define entre risos.

Óleos essenciais (Divulgação)

Mais de 20 anos se passaram desde aquela enxaqueca divisora de águas na vida de Andréa, que, de tanto correr atrás de informações (algumas, sequer registradas, até então), tornou-se uma das maiores autoridades quando o assunto são os óleos essenciais. E ela explica o que são. “Gosto de dizer, de uma forma romântica, que o óleo essencial é pra planta, o que o sangue é para o nosso corpo. Então, ele é cheio de moléculas químicas diferentes, que a planta produz em partes diferentes para sua sobrevivência. Nem todas as plantas produzem óleos essenciais e nem todas produzem óleos essenciais que possamos utilizar na aromaterapia, já que dentro de sua composição química, alguns são tóxicos”, define.

A eficácia é garantida? Sim, afirma Andréa. “A eficácia é garantida porque os óleos têm componentes químicos que interagem com o organismo. Mas o ideal seria encontrar o óleo certo para a pessoa adequada. As moléculas, uma vez vaporizadas, são absorvidas pelo olfato e via derme – neste caso, precisam de ‘carreadores’ que são utilizados como condutores dos óleos, tais como manteigas vegetais, óleos neutros etc”, detalha. 

Para além do misticismo – durante muito tempo, os óleos, de fato, estiveram muito ligados ao misticismo, porque na antiguidade, eram os instrumentos de contato com os deuses, explica Andréa Darco. O poder que um bom perfume, um bom aroma tem, é inegável. O divisor de águas, na Aromaterapia, ocorreu bem no comecinho do século XX, quando o engenheiro químico René-Maurice Gattefossé, após machucar-se gravemente em seu laboratório, tentou alguns tratamentos alopáticos, sem sucesso algum. Mas, acidentalmente, começou a tratar-se com óleo de lavanda e a pele foi totalmente regenerada. A partir daí, nascia a Aromaterapia e Gattefossé foi o grande responsável por sua divulgação. A propósito, o óleo essencial de lavanda é muito eficaz no tratamento de ferimentos, por ter ação anti-inflamatória e cicatrizante, além, é claro, de ser um poderoso calmante. Mas, vale para óleos e remédios alopáticos: jamais use sem a indicação de um especialista.

Açaí para o rosto - O advogado paulistano Bruno Kanavarro trabalhava no coração financeiro de São Paulo, mas não estava feliz, admite. “Tinha a sensação de estar faltando algo”. Decidiu tirar umas férias prolongadas, quase um período sabático. Com uma mochila nas costas, partiu em busca de autoconhecimento. Percorreu a América Latina, passou um tempo na América Central e apaixonou-se pela Amazônia. Até apaixonar-se, voltemos um pouco no tempo, Bruno se perdeu na floresta por 3 dias. “Em um determinado momento, estava tão fraco e desidratado, que desmaiei. Minha última lembrança, antes de desmaiar, foi ver uma cobra enorme passando ao meu lado”, conta. Foi encontrado por indígenas e levado para a aldeia. Aqueles três meses iniciais transformaram-se em três anos. Àquela altura, o advogado Bruno cedia espaço a uma nova pessoa: Kairós, como foi batizado pelos indígenas.

Na floresta, Bruno ficou ainda mais à vontade entre os novos irmãos – e teve contato com um conhecimento milenar. Chamou-lhe a atenção que os indígenas tivessem cabelos impecáveis, perfumes produzidos entre eles e para consumo dos próprios. Foi seu primeiro contato com os óleos essenciais amazônicos. Apaixonou-se tão perdidamente, que, enfim, a epifania aconteceu e aquilo era o que desejava fazer pelo resto da vida. Apressou-se para dar a notícia para a mãe, que o aguardava em São Paulo: não voltaria mais para a pauliceia e tampouco voltaria para o escritório de advocacia. 

Fixou residência em Alter do Chão, no Oeste Paraense e entregou-se aos estudos de óleos essenciais amazônicos. O desejo de partilhar o conhecimento com outras pessoas foi o que o motivou a criar uma pequena empresa de beneficiamento de óleos essenciais – totalmente veganos – em parceria com a mãe e com a ex-esposa, que ele conheceu no México e com quem tem, além de uma convivência muito harmoniosa, um menino lindo, Raiz. A loja, pequenina e acolhedora, fica localizada na praça de Alter do Chão e a variedade de produtos é uma loucura, a começar por um sérum de açaí, que, segundo Kairós, é um poderoso instrumento de regeneração da pele do rosto. “O óleo essencial de açaí suaviza e elimina as marcas de expressão facial, a começar pelo bigode chinês”. Um item chama a atenção, talvez por só sentir o mesmo cheiro nos chocolates: a manteiga de cupuaçu. “Maravilhosa para eliminar e controlar melasmas”. 

Aromaterapia no SUS - Em março de 2018, o Ministério da Saúde anunciou que a Aromaterapia seria incluída na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde. A portaria 702 (de 21 de março de 2018, do MS) no Sistema Único de Saúde surpreendeu até aos aromaterapeutas do Brasil. Poderia ter sido uma conquista enorme, mas ainda não foi. É o que conta Mayra Castro, presidente da Abrabroma. “Inserir a Aromaterapia no SUS não a tornou uma atividade automaticamente reconhecida. A questão é muito complexa, porque os aromaterapeutas não são reconhecidos ou regulamentados e enfrentamos muita resistência da classe médica, que, dentro do SUS, é uma das que podem recomendar a terapia aos pacientes”, explica. Além disso, a própria comercialização dos óleos essenciais esbarra em questões da legislação. “Óleos essenciais não são vendidos como produtos farmacêuticos e a ANVISA só autoriza sua comercialização como cosméticos ou como aroma alimentício, o que limita muito seu poder de atuação”, diz.

Em nota oficial, no site da instituição, a ABRAROMA defende que “entende que a aromaterapia, dado seu caráter multidisciplinar, não deve ser uma atividade profissional regulamentada, e acredita que uma auto-regulamentação é o mais adequado para fundamentar e balizar a formação deste profissional, inclusive porque este tem sido o modelo adotado em muitos países onde associações autônomas estão constituídas, como na Inglaterra, Estados Unidos e Canadá”.

Para saber mais:

@andrea_darco
@ekilibreamazonia
@mayraccastro

Troppo
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